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Ida Celina

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
1945 Brasil / Rio Grande do Sul / Rio Grande
Ida Celina Weber Silveira (Rio Grande RS 1945). Atriz e professora. A trajetória de Ida Celina não se restringe a um núcleo teatral em particular, o que lhe permite interagir com proeminentes grupos, atores e diretores de Porto Alegre e colaborar com as mais variadas propostas cênicas. Suas atuações são destacadas pela crítica e premiadas em cir...

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Biografia
Ida Celina Weber Silveira (Rio Grande RS 1945). Atriz e professora. A trajetória de Ida Celina não se restringe a um núcleo teatral em particular, o que lhe permite interagir com proeminentes grupos, atores e diretores de Porto Alegre e colaborar com as mais variadas propostas cênicas. Suas atuações são destacadas pela crítica e premiadas em circuito local e nacional.
 
Com o propósito de estudar artes transfere-se para a capital em 1965, e ingressa no curso de artes plásticas, de nível superior, e no Curso de Arte Dramática (CAD), ambos na Universidade do Rio Grande do Sul (URGS).1

Numa das primeiras montagens cênicas em que se envolve, como atriz de teatro estudantil, Ida Celina ganha o prêmio de melhor atriz no Festival Gaúcho de Teatro Universitário, promovido em 1966 pelo Diretório Estadual de Estudantes, por sua atuação na peça O Aniversário, encenada pelo Grupo de Teatro do Centro de Estudos do CAD.

Em 1968, ano de conclusão da sua formação de nível médio no CAD, Ida Celina estreia no teatro profissional, na comédia O Patinho Torto, de Coelho Neto, direção de Olavo Saldanha, com o grupo de repertório Os Comediantes da Cidade, apresentada no Theatro São Pedro. Segue-se, então, um período altamente produtivo em que experimenta diferentes estilos de interpretação. Integra-se ao emergente Teatro de Arena de Porto Alegre (TAPA), em 1968. O grupo vive um momento delicado, pois enfrenta dificuldades para levar adiante suas propostas de teatro engajado, diante das reincidentes proibições da censura federal; e seu diretor, Jairo de Andrade, resolve contratar expoentes de fora de Porto Alegre. É o caso de Wagner Mello, revelação do 1° Seminário de Dramaturgia Carioca, em 1967, recém-formado no Conservatório Nacional de Teatro do Rio de Janeiro, que, no ano de 1968, dirige Ida Celina, e os colegas do Arena, nos espetáculos Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre, e Os Fuzis da Senhora Carrar, de Bertolt Brecht, cuja temporada é pautada por atos de resistência dos atores às ameaças e invasões das Forças Armadas ao teatro.

No Teatro de Arena, realiza A Revolta dos Brinquedos, de Pedro Veiga e Pernambuco de Oliveira, com direção de Alba Rosa, única montagem teatral para o público infantil do currículo de Ida Celina. Em 1969, vinculada ao Grupo Gral, a atriz participa de Berenice, peça escrita em 1917 e 1918, por Roberto Gomes, adaptada e dirigida por Ana Maria Taborda,2 cuja proposta causa perplexidade pelo ineditismo e pela ousadia das soluções cênicas: "Atores indo e vindo entre o público, sentando-se nas escadas do teatro, encarando os espectadores. De repente, as luzes se acendem. É o intervalo. Ida Celina e Hildegard Jones se chamam pelo nome. Retocam em cena a maquilagem. A música de fundo é um maxixe. Cada um faz o que quer".3

Ida Celina atua em Delito na Ilha das Cabras, do italiano Ugo Betti, direção de Pedro Freire Júnior, em 1970, seu último espetáculo com o Teatro de Arena de Porto Alegre. No mesmo ano, tem a oportunidade de protagonizar a superprodução porto-alegrense do musical A Moreninha, inspirado no romance homônimo de Joaquim Manuel de Macedo, com direção de Delmar Mancuso. O espetáculo marca época no teatro gaúcho, tanto pelo incentivo da produção de Fernando Strehlau à profissionalização em teatro e à formação de público, por meio da promoção O Teatro Vai à Escola, quanto pelas qualidades da montagem. A experiência de atuar numa produção desse porte e o desejo de desafiar-se como atriz, para além dos limites do teatro local, contribuem para que, no ano seguinte, Ida Celina se mude para o Rio de Janeiro, onde participa da peça Os Últimos, de Máximo Gorki, dirigida por Carlos Murtinho. A temporada de Ida Celina no Rio de Janeiro fica aquém das suas expectativas, e, em 1971, ela retorna a Porto Alegre.

No âmbito acadêmico, as atividades de Ida Celina diversificam-se a partir de 1973, quando obtém o diploma de bacharel em artes cênicas, conclui o curso de bacharelado em artes plásticas e dedica-se também à docência, inicialmente na rede pública estadual de ensino, em que desempenha cargos de professora de educação artística, supervisora e assessora técnica.

Paralelamente, Ida Celina amplia ainda mais a sua experiência como atriz, vinculada a importantes encenadores em atividade na cidade, tais como Maria Helena Lopes, Carlos Carvalho e Luiz Paulo Vasconcellos.  Em 1977, integra o elenco de Jogos na Hora da Sesta, de Roma Mahieu, dirigido por Paulo Albuquerque; e, em 1979, com direção de Liana Villas-Bôas, participa da montagem de Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã, de Antônio Bivar, pela qual recebe o Prêmio Açorianos de melhor atriz, da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre.

Nos anos 1980, vincula-se ao grupo Teatro Vivo, com o qual realiza importantes trabalhos, entre eles No Natal a Gente Vem te Buscar, em 1983, e Aurora da Minha Vida, em 1985, ambos de Naum Alves de Souza, com direção de Irene Brietzke; O Casamento do Pequeno Burguês, de Bertolt Brecht, em 1984, a respeito do qual a crítica aponta a competência da direção de Irene Brietzke e a qualidade interpretativa do grupo, reconhecido como "um dos mais categorizados núcleos teatrais de Porto Alegre".4 Nesse período, Ida Celina integra o quadro de professores do Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (DAD/UFRGS), à frente das disciplinas de interpretação teatral e teatro na educação.

Em 1986, participa do espetáculo A Maldição do Vale Negro, com direção de Luiz Arthur Nunes, com base no texto escrito por ele em parceria com Caio Fernando Abreu, montagem que inaugura o chamado "segundo núcleo" 5 do Teatro Vivo e resulta em grande sucesso de público e crítica. A atuação confere a Ida Celina o Prêmio Açorianos de melhor atriz coadjuvante por sua caracterização como a louca condessa Úrsula de Belmont, trancafiada pelo irmão no porão da casa. De acordo com o crítico Cláudio Heemann, "Ida Celina defende o papel com a força e a beleza de uma grande primadona, realizando o pastiche da ária-clímax de uma soprano coloratura".6

De 1990 em diante surgem outras inúmeras possibilidades de exploração das habilidades da atriz, como a montagem de Ana Stein Compra uma Calça e Vai Jantar Comigo, inspirada na obra de Thomas Bernhard, dirigida por Miriam Amaral, com o grupo Gabinete de Teatro, em 1992, pela qual Ida Celina é novamente premiada, e muito elogiada pela crítica; a comédia Mala Noche, releitura de Sexta-Feira das Paixões, de Ivo Bender, idealizada e dirigida por Roberto Camargo, em 1993; e a parceria com o diretor Mauro Soares, que a acompanha nas diversas temporadas em circuito local e nacional do monólogo Maldito Coração, Me Alegra que Tu Sofras, da dramaturga Vera Karam, entre 1996 e 2003, momento privilegiado da carreira de Ida Celina. Na apreciação do diretor Antonio Cadengue, o desempenho extraordinário da atriz deve-se ao "estilo de interpretação contido, disciplinado, ambíguo", que deixa "visível apenas parte da enigmática vida bipolarizada entre o real e o irreal" da personagem, o que permite "entrever o mundo submerso que nos chega atrás de uma onda energética que atinge direto nossa sensibilidade".7 Em 2001, Ida Celina participa, com os atores Sandra Dani e Antônio Carlos Brunet, da montagem de Casca de Ferida ou Vamos Brincar de Gente Grande?, projeto concebido e dirigido por Luiz Paulo Vasconcellos, que desafia o experiente elenco a interpretar papéis de criança.

A partir de 2002, em outra etapa da sua trajetória, a atriz realiza vários espetáculos dirigidos por Luciano Alabarse, entre os quais Heldenplatz, de Thomas Bernhard, em 2005, destacada pelo crítico Antônio Hohlfeldt como uma encenação magistral, na qual "Ida Celina tem um 'tour de force' extraordinário, como Sra. Zitter",8 ao lado do ator Luiz Paulo Vasconcellos; e os clássicos Hamlet, de William Shakespeare, em 2006, Medéia, de Eurípides, em 2007; e Édipo, de Sófocles, em 2008.  

Sua experiência inclui peças de contestação política com o Teatro de Arena de Porto Alegre, espetáculos experimentais com direção de Ana Maria Taborda, montagens do Teatro Vivo em torno da obra Bertolt Brecht, além das propostas formalistas de Luiz Paulo Vasconcellos e da visitação aos clássicos da dramaturgia universal pelas mãos de Luciano Alabarse. Ida Celina mantém intensa atividade no meio teatral de Porto Alegre: integra comissões avaliadoras, curadorias de festivais e mostras de artes cênicas; e, em cena, dispõe-se  sempre a novas parcerias e projetos.

Notas
1. De nível médio, vinculado à Faculdade de Filosofia, mas em fase de transição para o Departamento de Arte Dramática (DAD), faculta aos alunos que ingressam nesse período a obtenção do diploma de bacharel, mediante complementação curricular.

2. Diretora capixaba, criada no Rio de Janeiro e radicada em Porto Alegre entre 1969 e 1980, Ana Maria Taborda (1941 - 2008) desempenha importante papel no teatro gaúcho, tanto pelo seu trabalho artístico quanto pela firmeza das suas posições, a exemplo da liderança no movimento de implantação do Sindicato dos Artistas e Técnicos do Rio Grande do Sul.
 
3. Folha da Tarde, Porto Alegre, 29 abr. 1969.

4. HEEMANN, Cláudio. O casamento do pequeno burguês. Zero Hora, Porto Alegre, 8 maio 1984.

5. BARBOSA, Luiz Carlos. Dois núcleos confirmam uma receita de sucesso. Gazeta Mercantil Sul, Porto Alegre, 23 maio 1986.

6. HEEMANN, Cláudio. A maldição..., melodrama divertido. Zero Hora, Porto Alegre, 23 maio 1986.

7. CADENGUE, Antonio. Bendita ilusão me alegra que existas. III Festival Nacional de Arte - Feart, em João Pessoa, jan. 1997.

8. HOHLFELDT, Antônio. Ceticismo, sim, mas não alienação. Jornal do Comércio, Porto Alegre, 9 ago. 2005.

Espetáculos 21

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Fontes de pesquisa 12

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  • BARBOSA, Luiz Carlos. Dois núcleos confirmam uma receita de sucesso. Gazeta Mercantil Sul, Porto Alegre, 23 de mai. 1986.
  • BERENICE, do drama à perplexidade. Folha da Tarde, Porto Alegre, 12 de abr. 1969.
  • CADENGUE, Antônio. Bendita ilusão me alegra que existas. III Festival Nacional de Arte - FEART, em João Pessoa, jan. 1997.
  • ELES conseguiram fazer de "a moreninha" um espetáculo completo. Folha da Tarde, Porto Alegre, 12 de mai. 1970.
  • GUIMARAENS, Rafael. Teatro de Arena: palco de resistência. Porto Alegre: Libretos, 2007.
  • HEEMANN, Cláudio. "A Maldição...", melodrama divertido. Zero Hora, Porto Alegre, 23 de mai. 1986.
  • HEEMANN, Cláudio. Doze anos na primeira fila. Críticas de teatro selecionadas pelo autor. Porto Alegre: Alcance, 2006.
  • HEEMANN, Cláudio. O casamento do pequeno burguês. Zero Hora, Porto Alegre, 8 de mai. 1984.
  • HOHLFELDT, Antônio. Ceticismo, sim, mas não alienação. Jornal do Comércio, Porto Alegre, 9 de ago. 2005.
  • Programa do Espetáculo - Almoço na Casa do Sr. Ludwig - 2002. Não Catalogado
  • TEATRO de arena. Disponível em: [http://teatrodearenarshistorico.blogspot.com/search/label/1970]. Acesso em: 15/9/2009.
  • TEATRO sem Ana Maria Taborda. Disponível em: [http://www.emdiacomacidadania.com.br]. Acesso em: 17/9/2009.

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