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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Ruben Martins

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.06.2016
1929 Brasil / São Paulo / Piratininga
1968 Brasil / São Paulo / São Paulo
Ruben de Freitas Martins (Piratininga, SP, 1928 - São Paulo, SP, 1968). Designer gráfico, designer de produto, publicitário e artista plástico. Autodidata em artes plásticas, trabalha na área durante 1953 e 1955, residindo entre São Paulo e Salvador. Na capital baiana, frequenta com vários artistas, como o pintor Carybé (1911-1970), o ateliê do ...

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Biografia
Ruben de Freitas Martins (Piratininga, SP, 1928 - São Paulo, SP, 1968). Designer gráfico, designer de produto, publicitário e artista plástico. Autodidata em artes plásticas, trabalha na área durante 1953 e 1955, residindo entre São Paulo e Salvador. Na capital baiana, frequenta com vários artistas, como o pintor Carybé (1911-1970), o ateliê do escultor Mario Cravo Júnior (1923). Em 1954, recebe o prêmio Aquisição no 3º Salão Paulista de Arte Moderna, em Salvador.

Em 1955, é convidado por Geraldo de Barros a trabalhar na fábrica de móveis paulistana Unilabor, auxiliando-o em projetos de móveis e também exercendo as funções de desenhista e decorador. Em 1958, Barros e Martins abrem o forminform - considerado um dos primeiros escritórios de design do Brasil - com Alexandre Wollner, recém-chegado da Alemanha, e o publicitário Walter Macedo. Martins atende clientes com Macedo e auxilia Wollner nos projetos de identidade visual das Sardinhas Coqueiro e dos elevadores Atlas. A sociedade, porém, se desfaz um ano depois, quando Barros e Wollner saem do escritório, que se mantém sob o comando de Martins e Macedo. Com o desenhista industrial alemão Karl Heinz Bergmiller (1928), Martins desenvolve vários projetos de produtos, como circulador de ar, máquina de lavar e ferro elétrico para a empresa Prima e sofá-cama para a Ambiente.

A partir dos anos 1960, especializa-se na área gráfica. O forminform desenvolve projetos de identidade visual em diversas aplicações, desde papelaria até campanhas publicitárias, passando por sinalização e capa de discos. Martins assume totalmente o forminform após a saída de Walter Macedo, em 1963. Neste ano, participa na formação da Associação Brasileira de Desenho Industrial (Abdi), se dedicando à divulgação e à pesquisa, além de articular encontros e palestras.

Em 1966, com o publicitário Eduardo Riedel, funda o Grupo de Criação Publicitária nas dependências da forminform. A nova empresa visa ampliar a atuação do escritório em campanhas publicitárias e peças de promoção. Porém não prospera, pois Martins, já doente, falece dois anos depois, em setembro de 1968. Em sua homenagem, a Abdi batiza o primeiro prêmio de comunicação visual do Brasil de Ruben Martins.

Comentário crítico
Ruben Martins é um dos pioneiros no campo do design gráfico no Brasil e considerado um inovador da área. Funda o forminform, além de ministrar palestras sobre o design para empresários e estudantes. Seu mérito principal é expandir o ofício gráfico para outras áreas de comunicação, como a publicidade e a promoção de produtos, fazendo uso da linguagem formal, racionalista e concreta do modernismo. Martins transgride por não se prender ao método modernista sistemático e ordenado, dando espaço ao improviso. "Embora fosse muito profissional, cuidadoso e exigente [...], seu ritmo de trabalho em nada lembrava a disciplina e a assepsia das oficinas ulmianas"1.

Mesmo sem educação formal em artes plásticas, e sequer com o segundo grau concluído, Martins envolve-se com a pintura nos anos 1950. No ateliê, faz experimentações pictóricas abstrato-geométricas, traço que certamente influencia suas escolhas de linguagem na década seguinte. Absorve grande parte do seu conhecimento em design trabalhando junto a Geraldo de Barros e Alexandre Wollner. Com eles, entende o processo criativo para o desenvolvimento de linguagem e comunicação visual. Apesar do envolvimento com várias áreas do design, destaca-se no desenho de marca e suas derivações identitárias para comunicação, campanhas publicitárias e promocionais. Estas derivações exploram os elementos visuais, a síntese gráfica, o uso da cor e da tipografia e o caráter narrativo da identidade.

A marca para o fabricante de cosméticos Bozzano é um de seus primeiros projetos de identidade. O "b" da empresa é representado por uma barra que dobra sobre si mesma até se tocar. Outro cliente do mesmo período, o fabricante de tecidos Braspérola, tem como símbolo o desenho do "b" que emula a pilha de rolos de tecido das lojas do ramo. Ambos são exemplos de economia e clareza formais, com uso da tipografia e da síntese gráfica.

Seu trabalho mais emblemático é a marca da Rede de Hotéis Tropical. O insight para a marca, improvisado e nos estertores para a entrega ao cliente, da-se pela observação da projeção da sombra da folha da planta costela-de-adão. Uma vez estabelecido o símbolo, foi desenhado de maneira modular e simétrica, explorando a linguagem concreta da época. Esta abordagem difusa, que tem como característica o desvio do foco do trabalho para encontrar uma solução gráfica, torna-se uma qualidade na carreira de Ruben Martins, classificando-o como transgressor, aberto ao improviso, à intuição e ao acaso.

Outra característica importante da linguagem de seu trabalho é o envolvimento com a poesia concreta. A composição do sistema de identidade para seu cliente Casa Almeida & Irmãos, em 1960, apresenta a marca, que consiste na palavra "casa" inscrita em um retângulo, desdobrada em peças que reproduzem um padrão irregular constituído de tipografia e cor, explorando as possibilidades de figura e fundo por subtração de elementos. O efeito deste exercício é análogo aos poemas concretos e está distribuídos nas peças de identidade da marca, como sacolas, caixas e papéis de embalagem.

O pesquisador Chico Homem de Mello evidencia o caráter gráfico-narrativo do trabalho de Martins ao mostrar a apresentação conceitual da marca do fabricante de balas Belavista. A apresentação elaborada por Martins parte da síntese gráfica de balas embrulhadas em diversos formatos, instituindo elementos visuais. Tais elementos são usados para representar tanto a bala comestível como projéteis. Com o uso de tipografia, cria uma narrativa visual, "em que o papel torcido que embala a bala transforma-se em uma bala (bélica) que abala e rompe a bala embalada, expondo [...] o vocábulo 'bala' e desvendando afinal o logograma 'belavista' e o sinal da empresa"2. O sinal gráfico, por fim, é recombinado para criar padrões que são usados em diferentes peças do sistema de identidade.

O anúncio da marca Disenfórmio, para o laboratório Procienx, é outro exemplo representativo deste exercício visual narrativo. Martins, que cria o anúncio com Décio Pignatari, usa tipografia e grafismos para expressar a mensagem das qualidades do produto. A gradual aparição do nome do produto no quadro substitui lentamente a frase "perturbações intestinais" até eliminá-la por completo. Outro anúncio para um produto do mesmo laboratório, Sedavier, usa recurso semelhante. Seu nome é escrito com seu letramento distorcido e, aos poucos e por repetição, é ajustado até a tipografia aparecer normalizada. O efeito pretende narrar as propriedades tranquilizantes e relaxantes da medicação.

Alem de ser um notório articulador do ofício do design, tanto em palestras para empresários como em seu escritório formando novos profissionais, Ruben Martins se destaca por suas qualidades na comunicação gráfica, utilizando uma abordagem formal econômica e sintética, mas com expressividade ao explorar narrativas visuais e transmitir mensagens de maneira lúdica.

Notas
1 MELO, Chico Homem de (org.). O design gráfico brasileiro: anos 60. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. p. 234.

2 Op. cit.

Exposições 3

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Fontes de pesquisa 5

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  • CONCRETA '56 a raiz da forma. Apresentação Milú Villela, Fernando Xavier Ferreira. São Paulo: MAM, 2006. 312 p., il. CD-sonoro.
  • CONCRETA '56 a raiz da forma. Apresentação Milú Villela, Fernando Xavier Ferreira. São Paulo: MAM, 2006. 312 p., il. CD-sonoro. CAT- G SPmam 2006/c
  • LEON, Ethel. Design brasileiro: quem fez, quem faz. Rio de Janeiro: Viana & Mosley, 2005.
  • MELO, Chico Homem de (org.). O design gráfico brasileiro: anos 60. São Paulo: Cosac & Naify, 2006.
  • SABO, André Lacroce. Ruben Martins: trajetória e análise da marca Rede de Hotéis Tropical. Dissertação de mestrado defendida na FAU/USP, São Paulo, 2011.

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