Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Ana Maria Gonçalves

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.04.2021
1970 Brasil / Minas Gerais / Ibiá
Ana Maria Gonçalves (Ibiá, Minas Gerais, 1970). Escritora. Sua produção literária se caracteriza pelo caráter intimista, quase autobiográfico, das narrativas e resulta de densas pesquisas sobre as heranças africanas deixadas no Brasil. Tais estudos e as obras que deles decorrem fazem da autora uma voz contra-hegemônica no campo da literatura nac...

Texto

Abrir módulo

Ana Maria Gonçalves (Ibiá, Minas Gerais, 1970). Escritora. Sua produção literária se caracteriza pelo caráter intimista, quase autobiográfico, das narrativas e resulta de densas pesquisas sobre as heranças africanas deixadas no Brasil. Tais estudos e as obras que deles decorrem fazem da autora uma voz contra-hegemônica no campo da literatura nacional.

Leitora assídua por influência da mãe, ainda na juventude ensaia os primeiros textos literários, mas os abandona quando decide estudar publicidade. Já adulta, muda-se para a cidade de São Paulo, onde trabalha durante 13 anos como redatora e revisora publicitária.

Em 2002, cansada da rotina extenuante em agências de publicidade, decide viver na Bahia, inicialmente em Salvador e depois na Ilha de Itaparica, arquipélago vizinho à capital do estado. Em Itaparica, escreve seu primeiro romance, Ao lado e à margem do que sentes por mim (2002), lançado de maneira independente, em edição artesanal. O livro, com tiragem única e esgotada de mil exemplares, é uma obra intimista, com características de ficção autobiográfica. Ele conta a história de uma mulher que decide fazer uma grande mudança na vida para tentar se descobrir. Em 310 páginas, recupera os cenários geográficos e culturais do interior do Brasil, em especial de Minas Gerais e da Bahia, por meio de festejos e tradições vivenciados pela personagem Ana com a intensidade da busca realizada por ela.

A obra mescla uma escrita profundamente subjetiva, composta de questionamentos existenciais da protagonista sobre o amor romântico e sobre as consequências geradas pelo fim desse sentimento. Também contém memórias remotas da infância e da juventude da narradora, descritas de modo a elaborar um presente que não seja descolado do passado. O tempo e espaço retratados são descritos de forma detalhada, uma característica de destaque na produção literária da autora.

Ainda vivendo na Ilha de Itaparica, Ana Maria inicia uma pesquisa documental e de campo para escrever seu segundo romance, Um defeito de cor. Vencedor do Prêmio Casa de las Americas em 2007, o livro torna Ana Maria Gonçalves uma das mais lidas e comentadas escritoras brasileiras contemporâneas. Ao escolher contar a história de Kehinde, personagem narradora e protagonista da trama que se passa durante mais de oito décadas do século XIX, Ana Maria deseja criar uma obra literária que retrate a formação da nação brasileira do ponto de vista de uma mulher africana escravizada. Nesse sentido, ela “constrói um recurso ficcional que dá palavra contra o silêncio que a História relegou às mulheres negras”1.

Tal recurso ficcional se delineia de modo limítrofe e suplementar à narrativa histórica do Brasil colônia e do sistema escravista vigente à época. Essa característica estrutural do romance possibilita a discussão levantada pela professora de literatura da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Fabiana Carneiro da Silva. A análise defende que, com base em um interesse pessoal pela Revolta dos Malês, rebelião de negros muçulmanos escravizados ocorrida em Salvador em 1835, Ana Maria borra as fronteiras entre ficção e realidade e funde sua criação ficcional com fatos históricos. Assim, permite à crítica literária algumas chaves de interpretação sobre como essa fusão serve a novos entendimentos da literatura de autoria negra2 e seus devires.

A construção da personagem Kehinde, africana raptada no início do século XIX no Reino de Daomé, atual Benin, e que em terras brasileiras se transforma na icônica figura de Luísa Mahin, é o mote para o processo de subjetivação com o qual Ana Maria Gonçalves interpela a si mesma3. Como mulher negra, inserida em uma sociedade brasileira que ainda crê na existência de uma democracia racial, a autora encontra na escrita literária sua identificação racial como um posicionamento político e se torna figura pública ativa na luta antirracista no Brasil.

No ano de 2019, o texto teatral Pretoperitamar – O caminho que vai dar aqui, de autoria de Ana Maria Gonçalves e da atriz e diretora mineira Grace Passô (1980), ganha montagem sob direção artística de Grace. Idealizado pela compositora e cantora Anelis Assumpção (1980), o espetáculo cênico-musical conta a trajetória do artista Itamar Assumpção (1949-2003) e celebra os 70 anos de seu nascimento. A peça é a primeira encenação de uma obra de dramaturgia assinada por Ana Maria e, não por acaso, debruça-se especialmente sobre a experiência de Itamar como artista negro em um ambiente cultural permeado pelo racismo.

Presença cada vez mais constante nos debates culturais e acadêmicos sobre as profundas desigualdades raciais que ainda definem a sociedade brasileira, a autora se apropria com destreza do fazer literário para demarcar territórios e abrir possibilidades às presenças, vozes e escritas de outras mulheres negras.

 

Nota

1. MIRANDA, Fernanda R. Silêncios PrEscritos: estudo de romances de autoras negras brasileiras (1859-2006). Rio de Janeiro: Malê, 2019. p. 298.

2. SILVA, Fabiana Carneiro da. OMINIBÚ: maternidade negra em Um defeito de cor. Salvador: EDFUBA, 2019. p. 47.

3. GONÇALVES, Ana Maria. Uma ficção à procura de suas metáforas. Suplemento Pernambuco, Recife, n. 132, fev. 2017. Disponível em: https://www.suplementopernambuco.com.br/edi%C3%A7%C3%B5es-anteriores/67-bastidores/1783-uma-fic%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-procura-de-suas-met%C3%A1foras.html. Acesso em 22 jul. 2020.

Obras 1

Abrir módulo

Eventos multiculturais 1

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 10

Abrir módulo

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: