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Literatura

Oswaldo de Camargo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 31.08.2021
24.10.1936 Brasil / São Paulo / Bragança Paulista
Oswaldo de Camargo (Bragança Paulista, São Paulo, 1936). Poeta, ficcionista, crítico e jornalista. Com uma vasta produção poética e ensaística, Oswaldo é responsável por obras que tratam da pessoa negra no espaço urbano, além de ser referência nos estudos sobre escritores negros no Brasil.

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Oswaldo de Camargo (Bragança Paulista, São Paulo, 1936). Poeta, ficcionista, crítico e jornalista. Com uma vasta produção poética e ensaística, Oswaldo é responsável por obras que tratam da pessoa negra no espaço urbano, além de ser referência nos estudos sobre escritores negros no Brasil.

Filho de trabalhadores de lavoura de café, vive no campo até os 6 anos de idade. Com a morte de sua mãe, muda-se para São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Seu interesse pelos estudos e pela religião o aproximam do Seminário Menor Nossa Senhora da Paz, onde passa a ter aulas dos 12 aos 17 anos. No local, entra em contato com a produção poética nacional, tendo preferência pelas obras do poeta modernista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

Após compor um livro de poemas aos 16 anos, Vozes da Montanha (1952), vai para São Paulo prosseguir com os estudos e em busca de um trabalho. Atua como diretor de cultura da Associação Cultural do Negro1 e como revisor do jornal O Estado de S. Paulo. Nesse período, estreia no mercado editorial com o livro de poemas, elogiado pela crítica, Um Homem Tenta Ser Anjo (1959), marcado por referências católicas. Colabora também na imprensa negra em jornais como Níger e O Ébano.

Durante a década de 1970, publica novelas e contos que tomam a experiência da vida urbana e do desenvolvimento econômico do Brasil como cenário das narrativas. A cidade de São Paulo, vista como possibilidade de oportunidades, transforma-se em um local permeado pelo racismo e pela afirmação identitária. É o caso do livro de contos O Carro do Êxito, editado em 1972, considerado o primeiro a se basear na vida urbana negra, e da novela A Descoberta do Frio (1979).

É nessa época que o conceito de literatura negra ganha definições, principalmente em São Paulo. Para Oswaldo, esse conceito pode ser explicado como a “literatura que o negro escreve olhando para sua realidade”, em que se considera a sua própria vivência e as nuances históricas que permeiam essa existência.2

Nos anos 1980, Camargo se debruça sobre os estudos da produção literária de negros, com o objetivo de construir um histórico e manter uma continuidade da presença de pessoas negras na área. A pesquisa resulta na antologia A Razão da Chama, publicada em 1986, cujo percurso vai do poeta Domingos Caldas Barbosa (1739-1800) a nomes das décadas de 1970 e 1980, como Adão Ventura (1939-2004) e José Abílio Ferreira (1960), autores de grande expressão na tradição da literatura negra brasileira.

Publica O Negro Escrito: Apontamentos sobre a Presença do Negro na Literatura Brasileira (1987), obra editada pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Combinando as habilidades de poeta, crítico literário e historiador, Camargo aborda com rigor de qualidade literária a produção do século XX, sendo o trabalho considerado obrigatório para os estudos da literatura negra brasileira.

Permanece em um hiato até os anos 2000, aparecendo em algumas antologias como Poesia Negra Brasileira: Antologia (1992), organizada pela pesquisadora Zilá Bernd (1944). Em 2007, passa a atuar como consultor de literatura do Museu Afro-Brasil e, em 2011, tem sua novela A Descoberta do Frio republicada pela editora Ateliê.

Partindo das recordações de sua trajetória, humana e profissional, Camargo publica sua autobiografia Raiz de um Negro Brasileiro em 2015. A escrita do gênero biográfico, pouco utilizado por autores brasileiros, principalmente negros, ganha um peso importante na trajetória do poeta. Além de ir contra o apagamento de memórias negras, muitas vezes transmitidas a partir da oralidade, a obra também é considerada coletiva, pois perpassa a história da sociedade brasileira do pós abolição. 

Segundo o pesquisador Mário Augusto Medeiros da Silva, as emoções são controladas racionalmente pelo narrador, que contesta o trajeto naturalizado de pobreza e exclusão para descendentes de negros escravizados, dentro de um país em que a escravidão é base para o domínio colonial.

Em 2020, publica a novela Negro Disfarce, obra que lida com a constituição do sujeito negro em meio aos escombros do passado de violência e exploração provocados pela escravidão e pelo racismo. Causando incômodo e provocando reflexão, a narrativa é uma reformulação do texto “Deodato”, apêndice do livro O Carro do Êxito, e que na nova versão concede mais densidade e aprofundamento aos personagens.

Com produção ficcional e crítica, Oswaldo de Camargo constrói um percurso que contribui com a constituição e o reconhecimento da literatura negra, registrando em suas obras uma vivência pessoal e ao mesmo tempo coletiva, que abre caminhos para a presença de mais pessoas negras na literatura nacional.

Notas

1. Ativa de 1954 a 1976, a Associação Cultural do Negro representa um dos principais espaços de ativistas negros de São Paulo. Com apoio de pesquisadores e ativistas, o grupo visava compreender o lugar do negro na sociedade brasileira, além de publicar jornais e livros e organizar atos públicos.

2. BRIET, Matheus; GARCIA, Rodrigo. Oswaldo de Camargo. O escritor explica como os negros utilizam a literatura para combater o racismo e mostrar suas realidades. Apartes - Revista da Câmara Municipal de São Paulo, São Paulo, n. 19, mar./abr. 2016. 

Mídias (1)

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Mariana de Matos e Oswaldo de Camargo – O negro na literatura – Diálogos Ausentes (2017)
O debate – parte do ciclo que discute a literatura na série Diálogos Ausentes – reúne o jornalista e escritor Oswaldo de Camargo, a poeta e artista visual Mariana de Matos, o jornalista e fotógrafo Roniel Felipe e a escritora e produtora cultural Janine Rodrigues para discutir o campo de atuação do negro na literatura e a trajetória de cada convidado.

Com mediação de Diane Lima. Evento gravado em maio de 2017 na sede do Itaú Cultural, em São Paulo/SP.

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