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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Cida Falabella

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 24.10.2019
16.01.1960 Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte
Maria Aparecida Vilhena Falabella Rocha (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1960). Diretora, atriz, dramaturga e professora de teatro. Formada em história, toma o teatro como ofício em 1981, quando entra para a Cia. Sonho & Drama, dirigida por  Carlos Rocha. Em 1989, com a saída de Rocha, assume a coordenação da companhia e dirige os espetáculos como...

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Maria Aparecida Vilhena Falabella Rocha (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1960). Diretora, atriz, dramaturga e professora de teatro. Formada em história, toma o teatro como ofício em 1981, quando entra para a Cia. Sonho & Drama, dirigida por  Carlos Rocha. Em 1989, com a saída de Rocha, assume a coordenação da companhia e dirige os espetáculos como A Casa do Girassol Vermelho, Caminho da Roça e A Bonequinha Preta.

Trabalha como professora em escolas de formação de atores de Belo Horizonte. Em 1993, é convidada para dirigir o primeiro de uma série de trabalhos que aconteceria nos intervalos das produções da Cia. Sonho & Drama, sempre considerada prioritária. No Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado (Cefar), dirige os espetáculos de formatura Bodas de Sangue e O Ensaio sobre a Cegueira; e no Teatro Universitário da UFMG , A Alma Boa de Setsuan. Em 1998, recebe o Prêmio Amparc de melhor direção por A Hora da Estrela, da Cia. Acaso. Leciona no curso de artes cênicas da UFMG, entre 2001 e 2003, e torna-se professora e coordenadora do curso sequencial de artes cênicas: aperfeiçoamento do comunicador do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH). Na UFMG, além de ministrar disciplinas de bacharelado e licenciatura, dirige Barreado e Procura-se uma rosa.

Em 2002, a Cia. Sonho & Drama adota nova denominação, ZAP 18, sigla para Zona de Arte da Periferia e assume também uma vertente de formação voltada para a inserção social do teatro. No mesmo ano inaugura sede no bairro Serrano, região noroeste da capital, em terreno do pai de Cida. Em seguida, é montado o infantil A Menina e o Vento.

Ao dirigir o monólogo Shirley Valentine, em 2002, recebe o prêmio de melhor direção no Festival de Santos. Com a Cia. Luna Lunera, monta Não Desperdice sua única vida ou…, melhor dramaturgia do Prêmio Sinparc em 2005.  Com o grupo Tudo Era Uma Vez dirige Riobaldiadorim, Mula Marmela e Deus ou o Diabo para o jagunço Riobaldo

Em 2006, sob  orientação do professor Maurilio Andrade Rocha, defende o mestrado De Sonho & Drama a Zap 18: a construção de uma identidade, primeira dissertação em teatro defendida na Escola de Belas Artes da UFMG. O estudo analisa a trajetória da companhia  ao longo de 25 anos de história (1981-2006), abordando sua produção artística e suas atividades culturais, assim como sua transformação em ZAP 18. Nesse ano também estreia Esta Noite Mãe Coragem e, em 2009, assina  o espetáculo 1961-2009. 

Coordena o curso de teatro na Usina de Arte, em Rio Branco, entre 2009 e 2010, onde monta Levantado do Chão. Dirige também os solos O Ano em que Virei Adulto, do seu filho Gustavo Falabella, e Memórias Póstumas de um Neguinho, do ator Lucas Costa. Em 2012, dirige As Rosas no Jardim de Zula. Em 2012 e 2013 é eleita conselheira municipal de cultura pelo setor de artes cênicas. Volta a atuar em 2013, contracenando com Mônica Ribeiro na reflexão cênica A Arte de Varrer para Baixo do Tapete. Em 2014, Cida publica no blog A Louca Sou Eu, textos que servem de estímulo para a construção de Domingo, solo próprio dirigido por Denise Pedron em 2015. No ano seguinte, é eleita vereadora de Belo Horizonte pelo PSOL.

 

Análise

O pensamento e a prática artística de Cida Falabella são orientados, sobretudo, pelo teatro épico, antagônico ao dramático por fomentar a percepção crítica do espectador. Como propôs o dramaturgo e diretor alemão Bertolt Brecht (1898-1956), a figura do narrador reporta conteúdos sociopolíticos extraídos da realidade sem prejuízo da mediação poética da cena. A premissa política dos processos criativos da diretora é estendida às ações pedagógicas ou culturais. A inquietude formal e a capacidade de interagir com as novas gerações também concorrem para a solidez e o reconhecimento de seu trabalho no panorama de Minas Gerais.

Mas até consolidar a perspectiva política ela passa por experiências como A Casa do Girassol Vermelho (1990), que dirige sob forte influência dos estudos de antropologia teatral ainda pouco difundidos em Belo Horizonte, tanto no treinamento diário como na construção das cenas. A adaptação da obra de Murilo Rubião (1916-1991) alcança, em 1991, a primeira experiência internacional da Cia. Sonho & Drama. No Festival Internacional de Teatro de Países Bolivarianos e do Caribe, na Venezuela, o espetáculo foi bem-recebido, contrariando as reações da crítica mineira, que o considerava hermético, talvez por sua estrutura fragmentada. Em Caminho da Roça (1992), ao contrário, a direção destaca-se pela comunicação direta com o público e, mesmo encenado em palco italiano, o espetáculo rompia a chamada quarta parede. Cenas avançavam para o espaço da plateia, como ao final, quando um leilão de produtos típicos da roça envolvia o público e assegurava uma caixinha à produção, às vezes até mais polpuda que a bilheteria. 

O centenário de nascimento do escritor Aníbal Machado (1894-1964) inspira Aníbal Machado, Quatro, Oito, Sete, em 1994, que estreia no espaço não convencional da Academia Mineira de Letras, um casarão histórico no centro da cidade. O título alude ao famoso endereço carioca do autor, à Rua Visconde de Pirajá, 487, frequentado por artistas e intelectuais. Ao espectador é oferecida uma batida de maracujá, conforme a tradição da casa. “Foi uma interessante experiência, por permitir a saída do palco italiano e propor uma relação de cumplicidade e proximidade com o público, que se integrava à festa no decorrer da apresentação”1. A montagem circula pelo interior e chega a ter sessão na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

Em 2005, quando dirige a Cia. Luna Lunera em  Não Desperdice Sua Única Vida ou Auto Biográfico ou As Patinadoras no Planeta do Dragão ou Seis Atores à Procura do Seu Personagem ou O Mundo das Precariedades Humanas ou Nenhuma das Opções Anteriores, Cida Falabella opta por  uma abordagem épico-dramática apoiada  no ator-narrador  A provocação dos seis enunciados no título tenta fugir da reprodução da realidade, como ocorre no drama. Logo no início, a plateia é dividida em seis grupos que têm contato com cenas diferentes. São nichos marcados por uma atmosfera intimista. Durante os ensaios, os atores são instigados justamente a responder  questões como: “Por quê faço teatro?”;“Por que fazemos teatro juntos?”. 

No trabalho com o grupo de contadoras de histórias Tudo Era Uma Vez, Deus ou O Diabo para o Jagunço Riobaldo traz indagações filosóficas recontadas pelo velho criminoso ao doutor que o visita, a respeito de Deus e do demo, da vida e da morte, do bem e do mal, do próprio sentido do existir. Esta é a terceira vez em que o núcleo e Cida enveredam pelo universo roseano. Primeiro, a relação entre o jagunço Riobaldo e Diadiorim em Riabaldiadorim - que os levou a participar do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (Fitei), em Portugal, em 2004; depois, as histórias femininas em Mula Marmela. A diretora, inclusive, interpretou Diadorim na primeira versão de Grande Sertão: Veredas (1985) encenada no Brasil com a Cia. Sonho & Drama, dirigida por Carlos Rocha.

Em Esta Noite Mãe Coragem (2006), Cida Falabella estabelece conexão mais radical com a realidade brasileira ao transportar a ação para a periferia de uma grande cidade. Foi ao ouvir o rapper MV Bill falar sobre as mães que perdem seus filhos para o tráfico, por impotência ou conivência, que Cida estabeleceu a ponte entre a atual situação do país e Mãe Coragem e Seus Filhos. A obra e a teoria de Brecht, por vezes, são interpretadas com equívocos de que o teatro não pode ser divertido ao público. "Ele só não queria que fosse uma emoção que dominasse completamente o espectador, mas, sim, que elevássemos essa emoção para que ela pudesse virar também pensamento e reflexão", argumenta. O processo criativo foi despertado pela violência urbana que conjuga a população empobrecida e o despreparo recorrente das polícias militares. A juventude é a vítima mais frequente nesses ambientes, como os integrantes da Associação Zona de Arte da Periferia 18 (ZAP 18) constatam em seu entorno. Como tocar nos problemas da periferia sem estigmatizá-los? Fazer teatro de forma a prover reflexão, é o que Cida tem buscando movida por Brecht.

A inserção artístico-comunitária de seu coletivo, invariavelmente sem subvenção, vem combinada à capacidade de gerir o espaço no bairro do Serrano e de empreender ações políticas nos últimos anos. Dois exemplos: a diretora apoia a luta do Movimento de Teatro de Grupo de Minas Gerais, presente em encontros com pequenos grupos do interior, e representa o teatro de pesquisa na reivindicação por políticas públicas junto ao Conselho Municipal de Cultura.

 

 

Nota

1. FALABELLA, Maria Aparecida. De Sonho & Drama a Zap 18: a construção de uma identidade. Belo Horizonte: Escola de Belas Artes da UFMG, 2006. (Dissertação de mestrado). p. 60.

Espetáculos 12

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