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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Tiganá Santana

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 23.07.2019
29.12.1982 Brasil / Bahia / Salvador
Registro Fotográfico Marcus Leoni

Tiganá Santana, 2019

Tiganá Santana Neves Santos (Salvador, Bahia, 1982). Cantor, compositor, instrumentista, poeta, pesquisador. Sua obra convida ao movimento, ao transe e à delicadeza. O seu fazer musical, artístico e político, impele ao reconhecimento e à vivência de uma sonoridade afro-brasileira, endereçada à diáspora negra. Ao mesmo tempo, revela a experiência...

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Tiganá Santana Neves Santos (Salvador, Bahia, 1982). Cantor, compositor, instrumentista, poeta, pesquisador. Sua obra convida ao movimento, ao transe e à delicadeza. O seu fazer musical, artístico e político, impele ao reconhecimento e à vivência de uma sonoridade afro-brasileira, endereçada à diáspora negra. Ao mesmo tempo, revela a experiência do que é ser negro na periferia do capitalismo.

Tiganá cresce para se tornar diplomata. O incentivo da mãe, militante do Movimento Negro Unificado (MNU) e uma das fundadoras do Bloco Ilê Ayê, Arany Santana, pressupõe “quebrar a barreira racista do Itamaraty”1. Todavia, o contato com a música aos 14 anos e o curso de filosofia fazem com que a diplomacia não encontre lugar em seus projetos. Decide, então, combinar arte e vida acadêmica.

A combinação entre as duas instâncias busca superar a hegemonia eurocêntrica, enfocando os ensinamentos da África. Origem e ancestralidade ganham destaque em suas canções e em seus estudos acadêmicos. 

O próprio violão, denominado como “violão-tambor”, possui afinação, textura e disposição cordofônica próprias2. Sintetiza a especificidade sonora do artista e sua atuação política uma vez que o tambor é um instrumento ligado às culturas de matrizes africanas.

Poliglota, Tiganá é considerado o primeiro artista brasileiro a compor em língua Africana, nos idiomas quicongo, quimbundo, wolof e mandinka. As canções “Nzambi Kakala Ye Bikamazu”, “Lusuki”, “Mama Kalunga”, “Mpangi Mbote”, quase rezas, mantras, são alguns exemplos desse virtuosismo.

Sua produção também cruza a África com o português-brasileiro, inglês, francês e espanhol. “Le Mali Chez la Carte Invisible” é um recado aos colonizadores em sua própria língua. “É uma canção num francês crioulizado para dar a dimensão da reconstituição, das respostas, do redesenho à uma situação colonial. Você responde usando a língua de quem impôs”3. Essa profusão linguística, em conjunto com a musicalidade própria, gera múltiplas singularidades, com o objetivo de descolonizar o fazer musical.

Nas palavras do pesquisador Marcos dos Santos, as referências de Tiganá nas canções de matriz africana, “se mostra como elemento transgressor desta cadeia musical monocromática e se insere dentro de uma perspectiva de produção musical que busca o diverso, tal qual o nosso sistema de educação musical deveria estar alicerçado”4. A relação com o candomblé, iniciada na infância, também é parte constitutiva da  vida e das canções de Tiganá que o considera uma “prática estruturante”5 de seu cotidiano.  

A força dos orixás como constituinte do ser é revelada pelo título do primeiro disco, Maçalê (2010), cujo significado é “o poder do orixá em mim”. Não por acaso, o disco abre com a “fala”, a bênção, de Mãe Zulmira. Essa bênção pode ser entendida como direcionada ao artista que ora estreava quanto àquele que migrava à cidade de São Paulo no mesmo ano de lançamento do disco, ou seja, em 2010. 

O desembocar das águas, do rio ou do mar, é tema constante em suas canções. A canção “Reverência” dedica-se à orixá Oxum, mãe das águas doces. “Encarnações em Kodya”, presente em The Invention of Colour (2013) e em Tempo & Magma (2015) são outros exemplos dessa temática estruturante. O tema também aparece na canção “Mama Kalunga”, título homônimo do disco da cantora Virgínia Rodrigues (1964), produzido por Tiganá em 2015. A canção “Vazante”, como o próprio título anuncia, também formaliza o desaguar, o movimento.

Vencedor em 2008 do “Edital de Apoio a Conteúdo Digital de Música” da Secretaria de Cultura da Bahia, Tiganá produz o primeiro disco. Em 2010, junto com Virgínia Rodrigues, apresenta-se na Cúpula Internacional das Nações Unidas, participa de programa na rádio BBC de Londres, apresenta-se no festival Belga Sfinks, além de gravar um programa para um dos principais canais de televisão da Suécia, a TV4.

Em 2013, com apoio da Unesco, realiza uma residência artística em Toubab Dialaw, no Senegal. Dessa estada, surge a possibilidade de produzir Tempo & Magma, e novas parcerias. Como relata Tiganá: “essa experiência artística reverbera até hoje [...]. Lá conheci músicos do Senegal, Mali e Guiné Conacri [...]”6.

Tempo & Magma é lançado no Japão, na Europa e na Oceania, sendo considerado o quarto disco mais baixado na Europa segundo o World Music Charts. A revista inglesa Songlines elege-o como um dos dez músicos mais relevantes atualmente no país.

O reconhecimento internacional e nacional coloca-o como um dos expoentes da música brasileira do tempo presente. A caracterização de sua obra não figura no samba, na MPB, ou na chamada World Music. A obra de Tiganá compõe uma nova história dentro da música brasileira, em que várias camadas (marés) de sentido se fundem.

A referência musical de matriz africana que estrutura as suas canções é uma imersão às águas da diáspora – por isso o tema do mar e dos rios – de um ponto de vista soteropolitano que incorpora elementos do mundo na globalização. Sua musicalidade materializa uma força ancestral que transita entre mares (Kalunga). Revela resistência num corpo-melodia-pensamento em que a negritude ganha força. A sofisticação das canções é chama acesa para que a história e a memória da cultura afro-brasileira sejam consagradas.

Notas

1. SANTANA, Tiganá. In: SILVA, Luciane Ramos. Tiganá Santana: filosofia Kalunga em Deságue. O Menelick 2o ato, São Paulo, 1 ago. 2015. Disponível em: < http://www.omenelick2ato.com/musicalidades/tigana-santana >. Acesso em: 22 fev. 2018.

2. INSTITUTO Cravo Albin. Tiganá Santana. In: DICIONÁRIO Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro. Disponível em: < http://dicionariompb.com.br/tigana-santana/biografia >. Acesso em: 5 mar. 2019.

3. SANTANA, Tiganá. In: SILVA, Luciane Ramos. Tiganá Santana: filosofia Kalunga em Deságue. O Menelick 2o ato, São Paulo, 1 ago. 2015. Disponível em: < http://www.omenelick2ato.com/musicalidades/tigana-santana >. Acesso em: 22 fev. 2018.

4. SANTOS, Marcos. Apontamentos para um estudo do Significado Musical na obra de Tiganá Santana. In: I SEMINÁRIO de Psicologia da Música e Educação Musical, 2016, Feira de Santana. Anais ... Feira de Santana, Bahia, 2016. p. 8.

5. MIDLEJ, Roberto. Culto e criado no candomblé, Tiganá Santana brilha e expande atuação artística. Correio 24 Horas, Salvador, 7 jun. 2015. Disponível em: < https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/culto-e-criado-no-candomble-tigana-santana-brilha-e-expande-atuacao-artistica/ >. Acesso em: 5 mar. 2019.

6. SANTANA, Tiganá. In: SILVA, Luciane Ramos. Tiganá Santana: filosofia Kalunga em Deságue. O Menelick 2o ato, São Paulo, 1 ago. 2015. Disponível em: < http://www.omenelick2ato.com/musicalidades/tigana-santana >. Acesso em: 22 fev. 2018.

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Tiganá Santana – Série Cada Voz (2019)
Tiganá Santana fala sobre a música – troca recíproca da escuta – sua trajetória, seu aprendizado e o resgate da ancestralidade, desde as aulas da mãe no Centro de Estudos Afro-Orientais até as visitas aos terreiros de candomblé. Reflete sobre a importância de resgatar a ancestralidade de uma nação para garantir sua solidez e história.

A Enciclopédia Itaú Cultural produz a série Cada Voz, em que personalidades da arte e cultura brasileiras são entrevistadas pelo fotógrafo Marcus Leoni. A série incorpora aspectos de suas trajetórias profissionais e pessoais, trazendo ao público um olhar próximo e sensível dos artistas.

Créditos
Presidente: Milú Villela
Diretor-superintendente: Eduardo Saron
Superintendente administrativo: Sérgio Miyazaki
Núcleo de Enciclopédia
Gerente: Tânia Rodrigues
Coordenação: Glaucy Tudda
Produção de conteúdo: Camila Nader
Núcleo de Audiovisual e Literatura
Gerente: Claudiney Ferreira
Coordenação: Kety Nassar
Produção audiovisual: Letícia Santos
Edição de conteúdo acessível: Richner Allan
Direção, edição e fotografia: Marcus Leoni
Assistência e montagem: Renata Willig
Assistência de fotografia: Rui Dias Monteiro

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