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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Daniele Calabi

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 23.06.2020
06.11.1906 Itália / Vêneto / Verona
12.11.1964 Itália / Vêneto / Pádua
Daniele Calabi (Verona, Itália 1906 - Pádua, Itália 1964). Engenheiro civil e arquiteto. Forma-se em engenharia civil na Universidade de Pádua em 1929. Transfere-se para Paris em 1932, para trabalhar na Entreprise Générale des Grands Travaux. A experiência nessa empresa e o contato com as obras de Le Corbusier, André Lurçat e Robert Mallet-Steve...

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Biografia

Daniele Calabi (Verona, Itália 1906 - Pádua, Itália 1964). Engenheiro civil e arquiteto. Forma-se em engenharia civil na Universidade de Pádua em 1929. Transfere-se para Paris em 1932, para trabalhar na Entreprise Générale des Grands Travaux. A experiência nessa empresa e o contato com as obras de Le Corbusier, André Lurçat e Robert Mallet-Stevens levam-no a prestar, em 1933, um exame para obter o título de arquiteto na Universidade de Milão. Estabelece-se em Pádua até 1939, e decide emigrar para a América do Sul, quando, em virtude das leis raciais de inspiração nazista adotadas na Itália, perde seus direitos como arquiteto por ser judeu. Passa por Buenos Aires e Santos, mas fixa-se de fato em São Paulo, cidade cujo crescimento vertiginoso garante boas oportunidades de trabalho aos arquitetos. É recebido por Rino Levi, que o apresenta ao meio arquitetônico local, viabilizando inclusive sua atividade profissional, já que, como outros arquitetos imigrantes, Calabi não consegue obter de imediato a permissão de trabalhar no país. Recebe ajuda também de seu primo Silvio Segre, um pequeno industrial do ramo da construção civil, com quem funda a Construtora Moderna, 1939-1949. A exemplo de Levi, Calabi abriga arquitetos imigrantes recém-chegados à cidade, como o italiano Giancarlo Palanti, com quem realiza seu último projeto em São Paulo, a Casa da Infância da Liga das Senhoras Católicas, em 1947. Em 1949, saudoso da terra natal e insatisfeito com a prática profissional no Brasil, restrita à colônia e dependente da obra, retorna à Itália, onde retoma com sucesso sua atividade de arquiteto.

Comentário Crítico

A trajetória do arquiteto italiano Daniele Calabi coincide em muitos aspectos com a do polonês Lucjan Korngold, a do austríaco Bernard Rudofsky e a dos italianos Giancarlo Palanti e Lina Bo Bardi. Como eles, Calabi emigra para a América Latina em virtude da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), deixando para trás uma carreira promissora para se instalar em São Paulo, cidade que naquele momento oferecia as melhores oportunidades profissionais. A mudança para o Brasil, como no caso de Rudofsky, não é definitiva. Depois de dez anos em São Paulo, Calabi retorna à Itália, e consegue retomar com sucesso sua atividade profissional. A experiência brasileira, contudo, deixa marcas não só em sua produção local como na produção que desenvolve a partir de 1949 em sua terra natal.

As primeiras obras que Calabi realiza, entre elas a Casa Degli Italiani, 1922, em Paris, revelam o impacto da arquitetura moderna, sobretudo o das vanguardas européias com as quais ele entra em contato no período em que lá vive entre 1932 e 1933. De volta à Itália, Calabi se aproxima, como Palanti, da tradição clássica, participando da busca por uma identidade nacional que marca o projeto de afirmação do Estado fascista nos anos 1930. São desse momento a Casa del Fascio, 1934/1935, que realiza com o arquiteto A. Salce, e o Observatório Astrofísico da Universidade de Pádua, 1936/1938. A síntese entre tradição e modernidade proposta nessas obras de caráter monumental tem continuidade em São Paulo no Edifício Autogeral, 1940, mas se modifica no Pavilhão Médici, 1945, e nas casas Daniele Calabi, 1945/1946, Ascarelli, 1945, e Cremesini, 1947. Organizadas ao redor de um pátio central escassamente arborizado, delimitado em cada uma das faces por pilares delgados com espaçamentos rigidamente definidos, portas de correr de vidro, grelhas ou treliças de madeira, essas casas retomam a idéia do espaço introvertido testado na Casa Degli Italiani e na Colônia de Férias Príncipe Alberoni, 1936/1937.1 

No pavilhão e na casa do arquiteto essa introversão é reforçada pelos altos muros, pelas fachadas opacas e pela disposição dos serviços junto à entrada principal de modo a separar os ambientes de estar e descanso do espaço externo à habitação. Partido semelhante é adotado por Rudofsky nas casas Hollenstein, 1939, Frontini, ca.1939/1940 (demolida) e Arnstein, ca.1939/1940, e por Rino Levi nas casas Rino Levi, 1944 (demolida), Milton Guper, 1951/1952, e Castor Delgado Perez, 1958/1959, ainda que nesses projetos o arquiteto paulista se distancie das "bases tipológicas tradicionais [, transformado] esses pátios em jardins tropicais".2

Outra característica comum às casas de Calabi em São Paulo, recuperada na Casa Falk, 1958, na Itália, é a separação bem marcada de dois blocos funcionais articulados pelo vestíbulo de entrada, um destinado aos quartos e outro a serviços, salas de estar, jantar e estúdio.

Para os historiadores da arquitetura Guido Zucconi e Donatella Calabi, é em São Paulo, sobretudo com base na experiência como construtor na Construtora Moderna, que Calabi se distancia de sua formação acadêmica e amadurece como arquiteto moderno. De fato, é perceptível nos projetos realizados entre 1949 e 1964 a permanência do ideal clássico no cuidado com a harmonia e a proporção de seus edifícios, e de elementos específicos como as abóbadas da colônia de férias de Alberoni e do Edifício de Apartamentos, 1952 (não construído), realizado com Salce, mas já sem o peso e a rigidez da monumentalidade fascista de seus primeiros projetos.

Na última fase de sua carreira Calabi introduz novos materiais a vista, como tijolos e pedras e linhas diagonais que dinamizam seus projetos, como atestam a Casa Abbinate, 1952/1953, e a Casa para Duas Famílias, 1953/1954, ressaltando sua preocupação em adaptar o edifício ao meio natural e construído preexistente. O melhor exemplo dessa última preocupação é sem dúvida o projeto para a Biblioteca Augusta, 1957/1959, no qual realiza com perfeição a inserção urbana do novo edifício no sítio histórico de Perugia.

Notas

1. Guido Zucconi, apud ANELLI, Renato. L. S. GUERRA, Abílio. KON, Nelson. Rino Levi: arquitetura e cidade. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2001, p. 92.
2. Renato Anelli, A mediterraneidade nos trópicos. In: ANELLI, Renato. L. S. GUERRA, Abílio. KON, Nelson. Rino Levi: arquitetura e cidade. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2001, p. 93.

 

Fontes de pesquisa 4

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  • ANELLI, Renato. L. S. O Mediterrâneo nos Trópicos. Block. Buenos Aires, n. 4, dez. 1999, pp. 96-103.
  • ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Rino Levi: arquitetura e cidade. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2001.
  • CALABI, Donatella. Un arquitecto italiano en San Pablo. Block. Buenos Aires, n. 4, dez. 1999, pp. 104-109.
  • ZUCCONI, Guido (org.). Daniele Calabi: architettura e progretti 1932 - 1964. Veneza: IUAV: Editora Marsílio, 1992. 174p. il. p&b.

Como citar

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