Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Chica Carelli

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 20.09.2021
05.07.1957 França / Ile de France / Paris
Francisca Alice Carelli (Paris, Ile de France, França, 1957). Gestora cultural, diretora teatral e atriz. Presente na cena cultural de Salvador, Bahia, desde 1980, Chica Carelli participa da fundação do Bando de Teatro Olodum, colaborando para os processos de afirmação e construção da identidade do artista negro na capital baiana, inserindo-se n...

Texto

Abrir módulo

Francisca Alice Carelli (Paris, Ile de France, França, 1957). Gestora cultural, diretora teatral e atriz. Presente na cena cultural de Salvador, Bahia, desde 1980, Chica Carelli participa da fundação do Bando de Teatro Olodum, colaborando para os processos de afirmação e construção da identidade do artista negro na capital baiana, inserindo-se na tradição iniciada pelo Teatro Experimental do Negro e o Teatro do Oprimido.

Seus pais, uma professora de idiomas francesa e um artista plástico brasileiro, mudam-se com a família para São Paulo no final da década de 1950. Chica cursa o ensino básico em liceu francês na capital paulista e mantém intenso convívio com as artes por influência familiar, estudando pintura e canto. Aos 16 anos, retorna à França e, três anos depois, volta para São Paulo. Valoriza a experiência como imigrante pela diversidade cultural que proporciona.

Na década de 1970, em meio à ditadura civil-militar instaurada no Brasil, participa da militância política distribuindo panfletos críticos ao governo ao lado do amigo e pintor Rubens Ianelli (1953), aluno de seu pai e filho do também pintor Arcangelo Ianelli (1922-2009). Nesse período, participa de oficinas de teatro na Universidade de São Paulo (USP) e se interessa pelo aspecto coletivo dessa arte, decidindo-se por cursar direção teatral na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, que conclui em 1983.

Em 1980, estreia com o espetáculo Folias do Canela, pelo qual recebe o Prêmio Martim Gonçalves da TV Aratu e do jornal Tribuna da Bahia. No mesmo ano, trabalha como assistente de direção de Deolindo Checcucci (1949) no espetáculo Desmemórias, ocasião em que se aproxima do diretor Marcio Meirelles (1954) e passa a integrar o coletivo Avelãs Y Avestruz, criado por ele em 1976 com as também diretoras Hebe Alves (1953) e Maria Eugênia Milet (1953). A formação da companhia é um marco no desenvolvimento do teatro baiano devido ao forte apelo visual e gestual imposto nas montagens, à centralidade do trabalho vocal e corporal dos atores e ao uso de músicas e coreografias. No papel de uma das feiticeiras, Carelli atua em Macbeth, dirigida por Meirelles e montada pela companhia em 1982.

Em 1987, na Fundação Gregório de Mattos, Carelli realiza a montagem de Gregório de Matos e Guerra ao lado de Meirelles e Angela Andrade. Na ocasião, aproximam-se de João Jorge Rodrigues (1956), então diretor do Grupo Cultural Olodum. Fundado em 1979, em Salvador, como uma escola de tambores e bloco afrocarnavalesco, o Olodum, no final da década de 1980, passa pela expansão de suas atividades e linguagens artísticas, o que gera o convite para a montagem de oficinas. Dado o êxito da experiência, em 1990 o Bando de Teatro Olodum é fundado com a intenção de criar um teatro mais brasileiro e centrado na ideia da “baianidade”, segundo Carelli.

Um dos objetivos fundamentais do Bando é a valorização da cultura negra e a consolidação de artistas negros na cena do teatro da época, a partir da abordagem de questões como a afrodescendência, a discriminação racial, a intolerâcia religiosa contra o candomblé e demais elementos que configuram o racismo sistêmico. Quanto a representação, temáticas abordadas e composição do corpo de atores, Carelli justifica a grande capacidade de atração do público negro exercida pelo Bando, primeiro em Salvador, e posteriormente expandida para o cenário nacional e internacional.

Em janeiro de 1991, dirige a peça de estreia do Bando, Essa É Nossa Praia, pautando temas como a ideologia do embranquecimento e a marginalidade com uma proposta vanguardista. A estreia inicia uma trajetória de recorrentes sucessos produzidos pelo grupo, como Ó Pai, Ó! (1992), Bai, Bai Pelô (1994) e Cabaré da Rrrrraça (1997).

Local de ensaio e apresentação, o grupo age pela revitalização do Teatro Vila Velha, em Salvador, reaberto ao público em 1998. Em 2003, é criado em parceria com a Cia dos Comuns, no Rio de Janeiro, o Festival A Cena Tá Preta, reunindo diferentes linguagens artísticas para discutir a cultura de matriz africana no Brasil. Como resultado do sucesso da experiência, a administração do Teatro Vila Velha convida o Bando a elaborar anualmente a programação do espaço para o Mês da Consciência Negra, em novembro.

A partir de 2005, Carelli organiza os Fóruns de Performance Negra, nos quais reúne a classe artística negra para discutir a organização da classe em Salvador, especialmente os grupos independentes. A quarta edição do Festival, de 2012, marca sua consolidação no calendário das artes de Salvador, auxiliada pelo apoio da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do governo federal, especialmente da ministra Luiza Bairros (1953-2016).

Junto à Cia. Teatro dos Novos, Carelli cria a Universidade Livre de Teatro Vila Velha a fim de proporcionar formação prática a atores. Como produtora e gestora do Bando, colabora para sua consolidação como uma das companhias teatrais mais atuantes no país. Sua gestão é também apontada como referência para o ingresso de mais mulheres em cargos administrativos na cultura e, em particular, no teatro, contrariando a limitação imposta às mulheres de participarem apenas dos corpos artísticos.

Em 2018, Carelli retorna aos palcos protagonizando Por que Hécuba?, na qual um episódio da tragédia grega A Ilíada é transportada para o carnaval baiano sob a direção de Márcio Meirelles. Pela atuação, é indicada ao Prêmio Braskem na categoria de Melhor Atriz.

Por desenvolver uma dramaturgia voltada para a representação positiva de grupos étnico-religiosos marginalizados pela sociedade, Chica Carelli integra uma das mais importantes iniciativas da cultura negra no teatro brasileiro de sua época. 

Espetáculos 1

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 5

Abrir módulo
  • BIÃO, Armindo J. C. Etnocenologia e a cena baiana: textos reunidos, prefácio Michel Maffesoli. Salvador: P&A Gráfica e Editora, 2009.
  • LAVALLÉ, Joana Angélica. Conversas com o Bando De Teatro Olodum-entrevistas. O Percevejo Online, v. 8, n. 1, p. 214-238, 2016. Disponível em: http://seer.unirio.br/opercevejoonline/article/view/5764. Acesso em: 1 jul. 2021.
  • NICHOLSON-SANZ, Michelle. ‘On my mind's world map, I see an Africa’: Bando de Teatro Olodum's re-routing of Afro-Brazilian identity. Research in Drama Education: The Journal of Applied Theatre and Performance, v. 19, n. 3, p. 287-295, 2014.
  • RODA baiana - Chica Carelli - 24 jul. 2018. Portal Metro1, Rádio Metrópole, Salvador, 2018. (56 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FcuKTuWpMkI&ab_channel=PortalMetro1-R%C3%A1dioMetropole. Acesso em: 2 jul. 2021.
  • SANTOS, Geraldo Francisco dos. Os Pilares da Baianidade Negra‐Soteropolitana Reflexões sobre o espetáculo Sonho De Uma Noite De Verão do Bando De Teatro Olodum. Revista Científica/FAP, 2011.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: