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Literatura

Dyonélio Machado

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
1895 Brasil / Rio Grande do Sul / Quaraí
1985 Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre
BiografiaDyonélio Tubino Machado (Quaraí RS 1895 - Porto Alegre RS 1985). Romancista, contista, ensaísta e psiquiatra. Órfão de pai, passa a trabalhar, a partir de 1903, como vendedor de bilhetes de loteria, balconista e monitor de classes atrasadas na escola pública. Muda-se, em 1912, para Porto Alegre, onde conclui o curso secundário. Com difi...

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Biografia
Dyonélio Tubino Machado (Quaraí RS 1895 - Porto Alegre RS 1985). Romancista, contista, ensaísta e psiquiatra. Órfão de pai, passa a trabalhar, a partir de 1903, como vendedor de bilhetes de loteria, balconista e monitor de classes atrasadas na escola pública. Muda-se, em 1912, para Porto Alegre, onde conclui o curso secundário. Com dificuldades financeiras, retorna a Quaraí, dirige por sete anos o jornal da cidade e leciona em escola pública. Volta a Porto Alegre, em 1921, e funda o jornal A Informação, ligado ao Partido Republicano, fechado no ano seguinte, em razão dos ataques dirigidos ao governo central. Em 1923, publica o ensaio Política Contemporânea: Três Aspectos e ingressa na Faculdade de Medicina. A estreia literária ocorre em 1927, com os contos de Um Pobre Homem. No ano seguinte, é nomeado para o Hospital Psiquiátrico São Pedro, no Rio Grande do Sul. Passa dois anos, entre 1930 e 1931, no Rio de Janeiro, onde se especializa em psiquiatria e neurologia. Em seguida, publica sua tese de doutorado, Uma Definição Biológica do Crime. Nos últimos 20 dias de 1934, por insistência do escritor Erico Verissimo (1905 - 1975), escreve o romance Os Ratos, a fim de disputar um prêmio literário nacional. Figura entre os quatro vencedores, e o livro é lançado um ano depois. Em 1935, é preso duas vezes por sua opção política, mas somente na cadeia adere efetivamente ao Partido Comunista - pelo qual se elege deputado constituinte, em 1947. O partido é dissolvido e seu mandato é cassado. Decepcionado, afasta-se por quase 20 anos da carreira política e do mercado editorial, dedicando-se à medicina e escrevendo romances. Apenas em 1966, com a reedição de Os Ratos, volta à cena literária, publicando, nas décadas seguintes, obras inéditas.

Comentário Crítico
Retratando em sua obra os aspectos sociais e a dimensão subjetiva de maneira equilibrada, Dyonélio Machado participa da linhagem que, na esteira do romance de 30, alterna o ponto de vista sobre a sociedade e a narrativa psicológica para analisar a vida de personagens pobres no interior do Brasil.

Desde 1927, com os contos de Um Pobre Homem, o autor alia a preocupação estética ao interesse por personagens marginalizados, o que em termos linguísticos se concretiza na sintaxe entrecortada e na apropriação da oralidade. Os enredos priorizam o enfoque da miséria humana: na narrativa que dá título ao volume, o protagonista, envolvido com a aquisição de máquinas agrícolas para seu novo negócio, torna-se insensível à morte da filha.

Mas é em 1935 que lança a sua considerada obra-prima, o romance Os Ratos. Em 28 capítulos, narra um dia na vida de Naziazeno, período no qual ele deve conseguir 53 mil-réis para pagar a dívida com o leiteiro, que ameaça interromper o fornecimento. A necessidade impele o protagonista a uma odisseia pela cidade; as dificuldades enfrentadas o levam à progressiva animalização. Naziazeno vive entre a descrença em sua capacidade de resolver o problema e a confiança ingênua naqueles que o circundam. Busca soluções com o chefe e outras figuras mais abastadas, mas, diante da indiferença desses homens, encontra a solidariedade em colegas de sua classe social.

É sobretudo no manejo da perspectiva narrativa que se manifesta a particularidade do autor. Embora se trate de narração em terceira pessoa, todo o conteúdo é determinado pelo ponto de vista do protagonista. O uso ostensivo do discurso indireto livre permite que Naziazeno expresse seu caráter humilde, passivo e conformista. O espaço urbano é descrito conforme a relação que os personagens com ele estabelecem, assumindo configuração opressiva. Passado, presente e futuro se fundem nos delírios e nas alucinações deste homem que busca pagar o leite de seu filho.

Sobre esses aspectos se fundamenta a circularidade predominante na narrativa. O protagonista está enredado em uma realidade da qual não pode escapar: não há soluções fáceis para o problema, como ensinam algumas das peripécias ocorridas. Não há, no limite, nenhuma solução para o problema, como sugere a crescente agonia vivida por Naziazeno mesmo após encontrar uma saída provisória para a falta de dinheiro. E as imagens dos ratos, cuja presença se torna cada vez mais frequente, encerram o retrato do homem animalizado pela violenta degradação das condições sociais.

A ausência de escape está presente também em O Louco do Cati, lançado em 1942, e igualmente considerado um dos pontos altos da carreira do escritor. Aqui, uma atmosfera insólita dá corpo ao retrato da repressão. Recuperando ficcionalmente as condições opressivas do Estado Novo, apresenta a violência de que se tornam vítimas Cati e Norberto. Desgarrados do grupo de amigos com o qual viajavam, são inexplicavelmente detidos nas proximidades de Florianópolis, sendo em seguida aprisionados no Rio de Janeiro.

Do personagem que dá título ao livro, pouco se conhece - nem mesmo o seu nome, sendo que o apelido deriva de uma sentença que profere com frequência: "É o cati!". Ele se delineia uma figura sem identidade, origem ou destino. Nem à fuga psíquica parece poder se entregar, dado que, louco, deve conviver com pessoas sãs.

Desolação (1944) e Passos Perdidos (1946) compõem, com o romance de 1942, certa unidade - por recuperarem a temática da repressão e por serem frequentados pelo mecânico Manivela, inicialmente companheiro de viagem de Norberto e Cati. Os percursos desenhados pelos personagens de cada livro, ademais, estão sempre a demonstrar a ausência de horizontes. Se em O Louco do Cati os eventos sistematicamente complicam o retorno do protagonista ao sul do país após ser libertado da prisão, em Desolação efetua-se uma viagem cujo trajeto parece incompreensível. No que diz respeito à narrativa de 1946, o próprio título sugere, com os passos perdidos, a mais completa imobilidade. A configuração do tempo nessas obras, além disso, novamente amarra os personagens ao presente - as condições são de tal modo asfixiantes que a prisão pode surgir como possibilidade única de descanso.

Compondo a Trilogia da Libertação, os romances Deuses Econômicos (1966), Prodígios (1980) e Sol Subterrâneo (1981) aproveitam o material histórico do Império Romano para novamente dar forma ao medo despertado por múltiplas maneiras de perseguição e encarceramento. De modo distinto, portanto, já que não retoma a história imediata, Dyonélio Machado volta a tematizar o ambiente repressivo a cuja denúncia dedica sua obra.

Obras 1

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