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Enciclopédia Itaú Cultural

Silvino Santos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 31.10.2022
1886
14.05.1970 Brasil / Amazonas / Manaus
Silvino Simões Santos Silva (Cernache do Bonjardim, Sertã, Portugal, 1886 – Manaus, Amazonas, 1970)1. Diretor de cinema, fotógrafo. Pioneiro cinegrafista da produção brasileira, ainda em sua fase silenciosa, tem no ciclo da borracha amazônico2 e na cultura indígena seus maiores interesses.

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Silvino Simões Santos Silva (Cernache do Bonjardim, Sertã, Portugal, 1886 – Manaus, Amazonas, 1970)1. Diretor de cinema, fotógrafo. Pioneiro cinegrafista da produção brasileira, ainda em sua fase silenciosa, tem no ciclo da borracha amazônico2 e na cultura indígena seus maiores interesses.

Em 1899, com 13 anos, se estabelece em Belém do Pará, atraído pelo fascínio da Amazônia e onde o irmão tem comércio. Ao trabalhar em livrarias, se interessa pela pintura de retratos e pela fotografia. A experiência serve à viagem pelo interior e ao registro com uma câmera fotográfica de indígenas no Xingu, Alto Guamá e São Miguel. Em 1912, instalado em pequeno estúdio de fotografia e pintura em Manaus, é convidado pelo seringalista e político peruano Julio César Arana (1864-1952) para realizar estudo fotográfico sobre tribos nas terras do empresário no rio Putumayo, na fronteira entre o Peru e a Colômbia.

Com o sucesso da empreitada, Arana patrocina, no ano seguinte, um estágio para Silvino nos estúdios da Pathé-Fréres e no laboratório dos irmãos Lumière, em Paris. Ali, o jovem pesquisa química resistente ao clima tropical com o intuito de dirigir um documentário a pedido do mecenas, utilizando o material fotográfico da encomenda. Filme sem título sobre o rio Putumayo, longa-metragem em 35 mm com título atribuído posteriormente, fica pronto em 1914, mas boa parte dos negativos se perde em naufrágio durante o transporte para a Inglaterra. As sequências intactas são utilizadas no curta-metragem Índios witotos do rio Putumayo (1916), também comissionado por Arana. Como essa, as futuras realizações do diretor são documentais e produzidas na bitola 35 mm.

Um novo empreendimento do governo local com sócios capitalistas, inaugurado em 1918, permite a Silvino ter experiências mais constantes. A Amazônia Cine Film se dedica de início a filmes de propaganda de fatos sociais, políticos e esportivos. Até 1921, o diretor realiza doze dessas obras curtas. Mas a ambição da empresa é viabilizar o primeiro projeto em longa-metragem e durante dois anos o diretor trabalha em Amazonas, o maior rio do mundo (1918-1920), filme no estilo denominado travelogue, ou filme de viagem. A obra inicia com o Círio de Nazaré, em Belém do Pará, e chega até Iquitos e Putumayo. Os negativos, contudo, são roubados e levados para Londres.

O incidente abrevia a trajetória da Amazônia Cine Film e resulta em nova virada na carreira do diretor. Ele é contratado pelo comendador Joaquim Gonçalves de Araújo (1888-1976), industrial da borracha, para realizar um longa a ser exibido na Exposição do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro. No país das amazonas (1922) tem codireção de Agesilau Araújo, filho do empresário, e se torna projeto referencial das origens do cinema brasileiro e o mais reconhecido trabalho de Silvino. Para a filmagem, são importados equipamentos modernos e montado um novo laboratório. Trata-se de painel pitoresco, com início em Manaus e na atividade no porto, imagens do rio Amazonas, da extração do látex, da ferrovia Madeira-Mamoré, entre outros cenários. O filme faz sucesso, inclusive, no exterior, onde é exibido com cartelas nas línguas locais. Ao deslumbramento das imagens, somam-se elogios ao feito técnico e artístico. Entre as novidades, destacam-se a utilização da chamada “viragem” e de panorâmicas que modificam o conceito de travelogue, além de montagem mais dinâmica3. O impacto da produção pode ser medido também pela recepção crítica em pelo menos 76 artigos, 37 deles apenas no Rio de Janeiro.

Ainda por ocasião da festa do centenário, roda no Rio de Janeiro o longa Terra encantada (1923), com sequências do carnaval, pontos turísticos e curiosidades da capital. Este e outros trabalhos renovam a parceria artística e o vínculo comercial com os Araújo. Outro exemplo é No rastro do Eldorado (1925), registro da expedição do médico e geógrafo norte-americano Alexander Hamilton Rice Jr. (1875-1956) às nascentes do rio Branco e com o apelo inédito de tomadas aéreas da região.

Entre 1927 e 1929, Silvino acompanha a família Araújo a Portugal, onde retoma parceria com Agesilau Araújo e juntos assinam 35 curtas. Alguns são filmes domésticos do clã batizados de “filmogramas”, outros de festas locais, outros ainda de registros de atrações turísticas portuguesas. Mais tarde, no Rio de Janeiro, algumas dessas imagens do período lusitano são reunidas no primeiro longa sonoro de Silvino, com codireção de Agesilau, Terra portuguesa: o Minho (1934). O filme, com cenas dos costumes e das tradições da região ao norte de Portugal, marca o encerramento das atividades cinematográficas do grupo J.G. Araújo. O diretor permanece na empresa, transferido para outras seções, mas mantém o ofício de fotógrafo. Um último suspiro de sua inventivabilidade se dá mais de duas décadas depois com Santa Maria da Villa Amazônia (1957)4. Sob a produção do herdeiro de Araújo, seu primeiro longa colorido documenta a construção da residência do patriarca e do escritório regional da firma em Parintins, no Amazonas.

Entre aventureiro e profissional da técnica, Santos constrói obra de temática única em consonância com as possibilidades modernas da época. Sua admiração pelos mistérios da Amazônia, pelas comunidades indígenas, pelos ribeirinhos e o interesse no cotidiano das capitais enriquecidas pela borracha estabelecem paradigmas para o primeiro ciclo de um nascente cinema brasileiro.

Notas

1. As referências à localidade onde Silvino Santos nasceu variam na grafia, Sernache ou Cernache. Esta segunda é a adotada no site oficial da freguesia portuguesa. A palavra vem do latim “cernuatu”, que significa inclinado.

2. O chamado ciclo econômico da borracha tem seu apogeu entre os anos de 1879 e 1912 e se desenvolve a partir da extração de látex da seringueira. Seu centro de comercialização é a região amazônica, sobretudo nas capitais Belém e Manaus, gerando riqueza, crescimento urbano e mudanças sociais e culturais.

3. A viragem é um banho químico em que se fixa uma única cor por plano, cena ou sequência, conforme o desejo do realizador. No caso, e como opção mais comum à época, se adota o sépia. Quanto ao procedimento da panorâmica, a câmera gira em seu próprio eixo, com um resultado mais preciso do registro dos espaços.

4. A denominação Vila Amazônia é anterior à aquisição da propriedade por J.G. Araújo e diz respeito às glebas de terra onde o governo federal assentou imigrantes japoneses a partir dos anos 1930.

Obras 1

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Exposições 1

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Mostras audiovisuais 1

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Fontes de pesquisa 6

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  • CINEMATECA Brasileira - Filmografia: base de dados. Disponível em: http://bases.cinemateca.gov.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/?IsisScript=iah/iah.xis&base=FILMOGRAFIA&lang=p. Acesso em: 21 set. 2021.
  • O CINEASTA da selva. Direção: Aurélio Michiles. São Paulo: Superfilmes/TV Cultura, 1997. (87 min), son., color/p & b.
  • PAIVA, Samuel. Matas distantes, costumes exóticos, seres remotos. In: RAMOS, Fernão Pessoa; SCHVARZMAN, Sheila (Org.). Nova história do cinema brasileiro. 1. ed. São Paulo: Edições Sesc, 2018. 2 v.
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs.). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2012. 3. ed. ampliada e atualizada.
  • SEGREDOS do Putumayo. Direção: Aurélio Michiles. São Paulo: 24 VPS Filmes, 2021. (83 min), son., p & b.
  • STOCO, Sávio Luís. O cinema de Silvino Santos (1918 - 1922) e a representação amazônica: história, arte e sociedade. 2019. Tese (Doutorado em Meios e Processos Audiovisuais) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27161/tde-31072019-115319/publico/SavioLuisStocoVC.pdf. Acesso em: 22 set. 2021.

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