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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

José Veríssimo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
08.04.1857 Brasil / Pará / Óbidos
02.12.1916 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
José Veríssimo Dias de Matos (Óbidos PA 1857 - Rio de Janeiro RJ 1916). Escritor, jornalista, educador e crítico literário brasileiro. Cursa o magistério em Belém. Transfere-se para o Rio de Janeiro, em 1869, matricula-se no Ginásio Nacional, atual Colégio Pedro II, e, em 1874, ingressa no curso de engenharia da Escola Central (depois Escola Pol...

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Biografia
José Veríssimo Dias de Matos (Óbidos PA 1857 - Rio de Janeiro RJ 1916). Escritor, jornalista, educador e crítico literário brasileiro. Cursa o magistério em Belém. Transfere-se para o Rio de Janeiro, em 1869, matricula-se no Ginásio Nacional, atual Colégio Pedro II, e, em 1874, ingressa no curso de engenharia da Escola Central (depois Escola Politécnica). Por problemas com a saúde, interrompe o curso e volta a Belém. Mantém atividade intelectual intensa em jornais e revistas desde 1877, quando começa a escrever em O Liberal do Pará. Também em 1877, publica seu livro de estreia, Quadros Paraenses, e três anos depois viaja pela Europa, e participa do Congresso Literário Internacional, em Lisboa. De volta ao Pará, cria a Revista Amazônica, que circula entre 1883 e 1884. A partir de 1884, dirige o Colégio Americano, tomando medidas inovadoras como a abertura do estabelecimento para ambos os sexos, a implementação de um jardim de infância e aulas de educação física. Em 1889, viaja para Paris, onde ministra a palestra "O homem de Marajó e a antiga civilização amazônica", no 10º Congresso de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica. Assume o cargo de secretário da Educação no Pará, em 1891, mas nesse mesmo ano muda-se para o Rio de Janeiro, onde leciona na Escola Normal e no Colégio Pedro II. A experiência como educador inspira o livro Educação Nacional (1891). Estudioso da literatura nacional, publica a Revista Brasileira, a partir de 1895, em cuja sede se reúnem escritores e intelectuais, que mais tarde criam a Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual são membros-fundadores Machado de Assis (1839 - 1908), Visconde de Taunay, Lúcio de Mendonça, entre outros. Ligado à tendência literária do naturalismo, José Veríssimo é um dos expoentes da crítica literária brasileira na época, ao lado de Sílvio Romero, a quem se opõe por diversas vezes. No campo dos estudos literários, publica obras como Que É Literatura? e Outros Escritos (1907) e História da Literatura Brasileira (1916), além de volumes de contos e novelas, como Cenas da Vida Amazônica (1886).

Comentário Crítico
José Veríssimo é um autor que pertence à chamada Geração de 1870, que assimila influências do pensamento europeu da época, e em especial as do crítico e historiador francês Hippolye Taine, que em obras como Filosofia da Arte procura entender o homem com base nos conceitos de raça, meio social e momento histórico. Essas concepções são essenciais à estética naturalista, que no Brasil tem representantes como Adolfo Caminha, nglês de Souza (1853 - 1918) e Aluísio Azevedo (1857 - 1913). O positivismo de Auguste Comte, que procura investigar os fenômenos da natureza e da sociedade a partir de concepções científicas, e o evolucionismo de Darwin e Spencer são outras referências intelectuais importantes para a geração de José Veríssimo, marcada também pelo nacionalismo, por ideias republicanas e antiescravagistas. Os estudos culturais e de crítica literária que se desenvolvem no Brasil no período refletem esse contexto cultural, e em particular a obra de José Veríssimo, que aplica a sociologia, a história e a etnografia como elementos para a análise e interpretação dos textos literários. Conforme aponta Benedito Nunes (1929), o caráter nacional é o princípio básico para a leitura crítica dos textos de José Veríssimo, e também como medida de valor estético, ao menos na primeira fase de sua obra, em que se destacam títulos de ensaio e ficção como Cenas da Vida Amazônica (1886), Estudos Brasileiros (1889-1904) e A Educação Nacional (1890).

Um livro representativo da transição da primeira fase do autor para a segunda, quando ele passa a residir no Rio de Janeiro, são os Estudos Brasileiros, que, conforme João Alexandre Barbosa (1937 - 2006), constituem uma "tentativa de síntese da evolução literária no Brasil até a data de sua realização, com ênfase no processo de formação e diferenciação de nossa literatura". Nesse livro-chave, dentro da vasta obra do autor, escreve Barbosa, Veríssimo faz "considerações acerca da poesia, da crítica, do romance e do teatro", afirmando a "escassa originalidade de nossa produção literária" por causa de uma alegada "inconsciência dos escritores brasileiros no que se refere à missão social das letras", que segundo Veríssimo estaria relacionada com os "destinos da nacionalidade". Nesse sentido, em seu entender, falta à literatura brasileira o "esforço em erguê-la a partir dos estudos etnológicos, históricos e linguísticos, através dos quais se pudesse apreender a essência do tipo brasileiro...".

A ideia de que o escritor seria o porta-voz de um povo, país ou cultura, sem dúvida, tem origem no romantismo, mas permanece no horizonte ideológico de Veríssimo, afinado com o realismo. A afirmação da nacionalidade como valor central, por outro lado, não se limita a uma perspectiva apenas literária, tendo implicações na educação, na cultura e num projeto republicano e liberal de modernização do país. Convém citar sua preocupação com a pedagogia, que expressa no livro A Educação Nacional, e ainda as suas atividades como diretor da Instrução Pública do Pará. Seu interesse na educação não é apenas teórico, mas está enraizado em seu ideal de participação nas transformações que agitariam a sociedade brasileira nas últimas décadas do século XIX, e em particular a abolição da escravatura e a Proclamação da República.

Nos Estudos Brasileiros, Veríssimo discute o trabalho de poetas, dramaturgos e romancistas brasileiros de acordo com essa concepção cultural. Em sua avaliação de Gonçalves Dias (1823 - 1864), por exemplo, diz o crítico que o autor de I-Juca Pirama realiza um esforço apenas parcialmente bem-sucedido de concretizar uma verdadeira renovação literária: "Em primeiro lugar, por se mostrar excessivamente preso aos moldes clássicos portugueses [...], e em segundo lugar por ter desprezado o fenômeno do cruzamento das raças, fazendo do indígena o único assunto de seu lirismo". Contudo, já no gênero romanesco, o país teria sido mais eficaz em produzir uma literatura efetivamente brasileira, como no caso de obras de temática regionalista como O Tronco do Ipê e O Sertanejo, de José de Alencar (1829 - 1877)por apresentarem paisagens e personagens típicos. Segundo o parecer de Barbosa, o crítico paraense aplica um critério de valor "que pecava quase por xenofobia", e que Veríssimo mais adiante, em História da Literatura Brasileira, apresenta uma compreensão muito mais sutil da realização do nacionalismo na literatura, valorizando mais outros aspectos da construção do texto literário.

A segunda fase de José Veríssimo se estende de 1891 a 1900 e coincide com o tempo em que permanece no Rio de Janeiro. Pertencem a esse período obras de caráter histórico, etnográfico e pedagógico como A Amazônia (1892) e A Pesca na Amazônia (1895) e A Instrução Pública e a Imprensa (1900). Nessa época, cria também a Revista Brasileira, em que colaboram escritores e intelectuais como Lúcio de Mendonça e o visconde de Taunay, e participa da fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual se afasta em 1912, em protesto pela eleição de um político, Lauro Muller, para ocupar uma cadeira na instituição.

A terceira fase de José Veríssimo vai de 1901 a 1916 e assinala uma mudança metodológica e conceitual em sua atividade crítica, quando o autor tenta estabelecer uma conciliação entre a tendência sociológica e etnográfica de seus primeiros escritos com a valorização do talento individual e o julgamento da qualidade estética dos textos literários, o que fica evidente, em especial, naquela que é talvez a mais importante de suas obras, a História da Literatura Brasileira (1916). Dentro dessa nova perspectiva, José Veríssimo discorda de Sílvio Romero (1851 - 1914), que condena as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839 - 1908), livro no qual identifica influências da literatura de línguas inglesa e alemã, sem clara identificação com a realidade brasileira. Polemizando com Romero, escreve Veríssimo: "Estreitaríamos demais o campo da atividade literária dos nossos escritores se não quiséssemos reconhecer, no talento com que uma obra é concebida e executada, um critério do seu valor, independentemente de uma inspiração mais apegada à vida nacional". O autor diz ainda que "o senhor Machado de Assis, cujo temperamento parece avesso (...) à fotografia banal da vida (...), não obstante a forma fantasiosa e velada, irônica e humorística do seu romance, fez nele um quadro excelente da nossa vida e dos nossos costumes".

Veríssimo incorpora ao seu método de avaliação, nessa fase de sua obra, o impressionismo crítico, ou a valorização de um texto com base no gosto pessoal, conforme certos padrões acerca da beleza, da verdade ou da moralidade da obra de arte. Na opinião de Veríssimo, a arte não é moral nem imoral, mas "a representação, a definição, a idealização da vida na sua maior ampliação e complexidade". Ela se realiza "refletindo os costumes e ao mesmo passo influenciando-os, elevando a natureza humana pelas emoções de beleza com que exalta a nossa sensibilidade". O crítico paraense não distingue arte e realismo, que para ele não é uma escola literária específica, pois a arte não seria mais do que "a tentativa de representação do real". A identificação entre referência externa e elaboração estética, uma das ideias vigentes na segunda metade do século XIX, impede o crítico de avaliar de maneira positiva o simbolismo de Cruz e Sousa (1861 - 1898) e Alphonsus de Guimaraens (1870 - 1921), que ele censura pela excessiva abstração e conteúdo místico-sensorial, bem como pelo maior grau de elaboração de linguagem. Atitude similar é manifestada em relação a Euclides da Cunha, a quem censura pelo uso de neologismos, arcaísmos, "expressões obsoletas ou raras" e outros recursos semânticos que, a seu ver, tornam o texto euclidiano obscuro. Por outro lado, José Veríssimo inclui Gregório de Matos (1636 -1696) em sua História da Literatura Brasileira, reconhecendo a importância do barroco da época colonial para a formação das letras brasileiras, seja pelos temas, retirados da vida cotidiana da sociedade brasileira da época, seja pela competência do artesanato artístico.

Obras 1

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