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Enciclopédia Itaú Cultural

João Dias Carrasqueira

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 27.01.2017
1908 Brasil / São Paulo / Santo André
2000 Brasil / São Paulo / São Paulo
João Dias Carrasqueira (Santo André, SP, 1908 – São Paulo, SP, 2000). Flautista, professor e compositor. Nasce no distrito de Paranapiacaba, na cidade de Santo André, filho do mestre de banda e maquinista de trem Antonio Dias Carrasqueira. Entre seus cinco irmãos, três são músicos: um bandolinista, um percussionista e um flautista. Incentivado p...

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Biografia
João Dias Carrasqueira (Santo André, SP, 1908 – São Paulo, SP, 2000). Flautista, professor e compositor. Nasce no distrito de Paranapiacaba, na cidade de Santo André, filho do mestre de banda e maquinista de trem Antonio Dias Carrasqueira. Entre seus cinco irmãos, três são músicos: um bandolinista, um percussionista e um flautista. Incentivado por este último, aos cinco anos extrai os primeiros sons de uma flauta de bambu. Aos oito, muda-se para o bairro da Lapa, em São Paulo. Depois de aprender os rudimentos do instrumento com Vitor Barbieri, o mestre da banda local, prossegue seus estudos como autodidata. Órfão de pai muito cedo, logo se torna arrimo de família. Aos 13 anos, enquanto cursa a Escola de Belas Artes, começa a trabalhar como pintor de cerâmica, atividade que complementa, à noite, tocando em bailes de sociedades recreativas e em orquestras de cinema, sonorizando filmes mudos.

Mesmo após se profissionalizar como decorador na construção civil, continua a atuar como flautista, formando com Vicente de Lima, Omar Gonçalves e o seu irmão José Maria um quarteto de flautas que se apresenta na Rádio Educadora. Em 1933, com a crise no ramo de construção, emprega-se como letreiro na São Paulo Railway Company. No mesmo ano, é contratado pelas rádios Kosmos e Cruzeiro do Sul, onde integra a orquestra de Gaó e forma um trio com os violonistas Garoto (1915-1955) e Aymoré. Na Rádio Piratininga, acompanha grandes cantores da época, como Sílvio Caldas (1908-1998), Elizeth Cardoso (1920-1990), Orlando Silva (1915-1978) e Isaurinha Garcia (1923-1993). Em 1939, é contratado pela Rádio Record, integrando o regional de Armandinho Neves (1902-1976) com o cognome “Canarinho da Lapa”. Também compõe alguns choros, interpretados por conjuntos regionais.

Em 1952, tem a primeira música gravada, o choro Dia Feliz, pelo flautista João Bueno de Carvalho Neto, com Salvador Viola e seu conjunto. Na década de  1950, passa a se dedicar mais à música erudita, apresentando-se como solista convidado à frente da Orquestra Sinfônica Municipal. Matricula-se no Conservatório Santa Cecília apenas para obter um diploma, em 1960. Aposentado como ferroviário, integra a Filarmônica de São Paulo entre 1964 e 1965, quando é contratado pelo governo do estado para lecionar flauta a professores e fiscais de conservatórios da capital e do interior. No mesmo ano, apresenta todas as obras para flauta de Camargo Guarnieri (1907-1993) acompanhado pelo compositor. No ano seguinte, executa integralmente as sonatas para cravo e piano de Johann Sebastian Bach (1685-1750), trabalho que lhe rende o prêmio de melhor instrumentista do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Integra a Sociedade Pró-Música Brasileira, divulgando obras inéditas de compositores contemporâneos, e nos anos 1970, leciona nos Cursos Internacionais de Férias Pró-Arte.

Compõe trilhas para programas de TV, como a novela da TV Excelsior O Tempo e o Vento (1967). Embora tenha tomado parte em vários discos de música erudita e popular, como a série Músicas e Músicos de São Paulo (MIS/SP, 1978), só vem a gravar um álbum próprio, Recital de Flauta, aos 78 anos. Nele, acompanhado ao piano pela filha Maria José Carrasqueira, registra composições próprias e de outros brasileiros, além de compositores românticos europeus. Seu Chorinho Triste integra o repertório de alguns chorões e sua canção Coisas da Minha Terra foi gravada pelo cantador Déo Lopes, em 1993. Em 1999, a APCA lhe outorga o Grande Prêmio da Crítica.

Comentário crítico
Assim como outros músicos populares paulistanos das primeiras décadas do século XX, o jovem João Dias Carrasqueira não consegue tirar da música seu sustento. Apesar da crescente profissionalização do mundo musical na cidade de São Paulo, sobretudo na virada para os anos 1930, somente as grandes estrelas do disco e do rádio conseguem dedicar-se integralmente à vida artística. Aos instrumentistas e compositores populares – em geral identificados como boêmios e desocupados – restam duas opções: mudar-se para o Rio de Janeiro, onde o mercado musical é mais atrativo, ou alternar o trabalho de músico com outra profissão. Optando pela segunda alternativa, Carrasqueira divide por muitos anos a carreira de flautista com a de ferroviário, dedicando-se exclusivamente à música somente após sua aposentadoria.

Tendo aprendido a tocar flauta imitando pássaros, insetos e outros sons da natureza,  Carrasqueira desenvolve uma sonoridade única, muito distinta da dos professores de flauta de seu tempo, como Alfério Mignone e Ferruccio Arrivabene. Além de límpido e potente, o som de sua flauta é homogêneo em todos os registros, possuindo um vibrato claro e brilhante. Dono de uma habilidade técnica fora do comum, toca com destreza um repertório tido tradicionalmente como difícil, ao mesmo tempo em que interpreta com grande expressividade as peças tecnicamente mais simples.

Seu repertório é amplo e variado, incluindo desde música barroca, como as sonatas para flauta de Johann Sebastian Bach, até obras contemporâneas, a exemplo de Musica en su Due Dimensione, peça para flauta e fita magnética do compositor italiano Bruno Maderna (1920-1973), passando pelo choro e pela música erudita brasileira. É importante divulgador da obra de (1887-1959) e Paul Hindemith (1895-1963), além de ser responsável pela primeira audição de autores contemporâneos, como o italiano Gian Francesco Malipiero (1882-1973) ou o brasileiro Ascendino Theodoro Nogueira (1913-2005), introdutor da viola caipira na música erudita. Tamanha versatilidade faz de Carrasqueira o flautista preferido de grandes nomes da nossa música, como os chorões Jacó do Bandolim (1918-1969) e Pixinguinha (1897-1973) – que em suas visitas a São Paulo, após a morte de Benedito Lacerda, convida-o para tomar parte nos famosos duetos de flauta e saxofone –; o compositor Camargo Guarnieri, de quem executa a obra integral para flauta; a cravista Alda Hollnagel, com quem desenvolve um vasto repertório de música barroca; e os maestros Leon Kaniefsky, Simon Blech (1924-1997) e Eleazar de Carvalho (1912-1996).

Ao longo da vida, produz mais de 50 composições, em grande parte ainda inéditas, que incluem gêneros populares (choros, valsas, mazurcas), música de câmara para formações variadas e peças para flauta solo. Chega a gravar algumas delas, como Flauta de Apolo, Bruxa Chorona e Pássaros Amarelos, presentes no álbum Recital de Flauta. Fortemente imagéticas, essas obras evocam fábulas musicadas, produzindo uma narrativa por meio de onomatopeias e efeitos sonoros que revelam a verve romântica do compositor. Entre suas composições populares, grava Chorinho Triste, quarto lugar no 1° Festival de Choro organizado pela TV Bandeirantes, em 1977, e Saltitante, selecionado no ano seguinte para a segunda edição do festival e gravado com o grupo Bachorando. Nessas peças, demonstra grande familiaridade com a linguagem do choro, que complexifica por meio de uma harmonia cambiante, cheia de modulações. Também produz arranjos para formação camerística, tanto de composições próprias como de obras de outros autores.

Como professor, atividade que inicia já em idade madura, cria uma metodologia de ensino intitulada “escola brasileira da arte da flauta”, baseada no trabalho coletivo e na utilização e valorização de repertório de música brasileira, sendo um dos primeiros a inserir o repertório do choro no ensino da flauta. Atendendo a necessidades e potencialidades individuais, ele cria um programa de exercícios e de repertório específico para cada aluno. Tal metodologia o impede de aceitar o convite de uma editora para escrever um método para flauta, já que não acredita que um único material possa servir de guia de ensino a todo tipo de aluno. Além disso, não leciona apenas para futuros flautistas, mas a todos os interessados no instrumento, vendo no ensino de música parte do processo integral do desenvolvimento humano. Dessa sua concepção deriva o termo “flautosofia”, por ele cunhado para se referir à sua atitude diante da música e da vida, vendo na flauta um veículo para a confraternização das pessoas. Entre seus alunos destacam-se a pianista Maria José Carrasqueira, sua filha; o maestro Júlio Medaglia (1938); o bandolinista Izaías de Almeida; e inúmeros flautistas brasileiros, como seu filho Antonio Carlos Carrasqueira, Derico (1966), Edson Beltrami, Marta Ozzetti, entre outros.

Suas atividades como flautista e professor fazem de João Dias Carrasqueira um elo fundamental naquilo que Odette Ernest Dias (1929) chamou de “escola de flauta brasileira”, unindo a sonoridade buliçosa e irreverente de Patápio Silva e Pixinguinha, suas principais influências, ao rigor técnico das salas de concerto. 

Espetáculos 1

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Fontes de pesquisa 1

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  • Um dia muito especial. São Paulo: Teatro Fundação Armando Álvares Penteado, 1986. 1 programa do espetáculo. Não Catalogado

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