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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Zózimo Bulbul

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 08.03.2022
21.09.1937 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
24.01.2013 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Jorge da Silva (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1937 – Idem, 2013). Ator, cineasta, produtor e roteirista. Atuando em diferentes frentes da produção audiovisual brasileira, é o primeiro negro a protagonizar uma telenovela além de trazer sua luta antiracista em sua produção cinematográfica como diretor.

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Jorge da Silva (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1937 – Idem, 2013). Ator, cineasta, produtor e roteirista. Atuando em diferentes frentes da produção audiovisual brasileira, é o primeiro negro a protagonizar uma telenovela além de trazer sua luta antiracista em sua produção cinematográfica como diretor.

De família operária e negra, Jorge recebe o apelido de Zózimo na infância, fase na qual é vítima de racismo no ambiente escolar. O acesso à educação formal e ao curso técnico de contabilidade o levam a procurar trabalho como auxiliar de escritório. Rejeitado por sua aparência, trabalha como pedreiro e pintor. Alista-se no Exército, onde também é discriminado. Essas experiências fomentam seu futuro engajamento antirracista por meio da atuação artística. 

Em 1959, ingressa na Escola de Belas Artes e entra em contato com o movimento estudantil. Milita no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e participa do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). Seu primeiro trabalho no cinema como ator é no curta-metragem Pedreira de São Diogo, dirigido por Leon Hirszman (1937-1987), que compõe com outras quatro narrativas o longa Cinco Vezes Favela (1962), produzido pelo CPC. A palavra Bulbul, de origem africana, é incorporada ao nome artístico como forma de manifestação política.

Em 1961, inicia os estudos de interpretação teatral e, no ano seguinte, recebe o prêmio de ator revelação pela atuação na peça teatral Bonitinha, mas ordinária (1962), de Nelson Rodrigues (1912-1980), encenada na Maison de France, no Rio de Janeiro. Ainda na década de 1960, atua em filmes do Cinema Novo, como Ganga Zumba (1964), de Cacá Diegues (1940), Terra em transe (1967), de Glauber Rocha (1939-1981), e Garota de Ipanema (1967), de Leon Hirszman. Em 1969, muda-se para São Paulo e é contratado para atuar em Vidas em conflito (1969), na TV Excelsior. Torna-se o primeiro ator negro a protagoniozar uma telenovela brasileira. A obra tematiza o racismo a partir do romance inter-racial entre os personagens de Bulbul e de Leila Diniz (1945-1972)

Ainda em 1969, é convidado para protagonizar o filme Compasso de espera, dirigido por Antunes Filho (1919-2019). Assume o papel de Jorge, um jovem intelectual negro que se apaixona por uma mulher branca de família tradicional paulista. Além de atuar, Bulbul também participa da escrita do roteiro, baseado, em parte, em sua própria experiência. Censurado por tematizar o racismo por meio da história do casal, o filme é liberado apenas três anos depois.

Em 1973, Bulbul realiza seu primeiro filme, o curta-metragem Alma no olho, inspirado no livro Alma no exílio, do escritor estadunidense Eldridge Cleaver (1935-1998), militante dos Panteras Negras. Bulbul escreve o roteiro, atua e custeia a produção – realizada com sobras de negativo de Compasso de espera. Com linguagem performática e autorreflexiva, o curta é marcado pela câmera fixa que observa o gestual de Bulbul interpretando a história da população negra, da escravização ao movimento Black Power1. A montagem fragmentada, com grandes elipses temporais, contribui para a representação antinaturalista. Na trilha sonora, elementos do jazz se combinam à música africana na composição experimental executada pelo músico estadunidense John Coltrane (1926-1967). O filme é premiado na VI Jornada de cinema da Bahia (1977).

Perseguido pelo governo militar por tratar de racismo em uma época que tal discriminação é negada oficialmente, Bulbul recorre ao exílio. Viaja para Nova Iorque, mas não consegue permissão para permanecer no país. Fixa residência em Portugal e, depois, na França, onde dirige o filme Músicos brasileiros em Paris (1976) para a televisão. No final de 1977, retorna ao Brasil e continua atuando no cinema. No ano seguinte, participa, da fundação da Associação Cultural de Apoio às Artes Negras (Acaan), milita no Instituto de Pesquisas da Cultura Negra (IPCN), compõe o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo e volta a atuar no teatro.

Em meados dos anos 1980, Bulbul inicia a preparação do seu primeiro longa-metragem, o documentário Abolição (1988), para as comemorações do centenário da abolição da escravatura. O filme afirma, de forma didática, a permanência da situação de opressão à qual os negros estão submetidos e também da resistência, considerações em consonância com o movimento negro da época. O longa não atrai grande público, mas recebe os prêmios de melhor roteiro e fotografia no Festival de Brasília (1988), de melhor cartaz no Festival Nuevo Cine Latino Americano de Havana-Cuba (1989) e de melhor documentário no Festival Latino de Cinema de Nova York (1990).

Na década de 1990, Bulbul atua no teatro e na televisão, ganhando o reconhecimento do público, e na década de 2000 volta a produzir e dirigir curta-metragens. Em 2001, é homenageado com a mostra Um olhar preto: o cinema de Zózimo Bulbul, no Centro Cultural José Bonifácio, na capital fluminense. Em 2006, é condecorado oficialmente pelo governo brasileiro e tem o conjunto dos seus filmes digitalizados e lançados em DVD. 

Em 2007, com o objetivo de criar um espaço de comunicação e diálogo entre os cineastas negros brasileiros, estadunidenses e africanos, funda e administra o Centro Afro Carioca de Cinem. A instituição é responsável pelos encontros anuais de Cinema Negro Brasil, África, Caribe e outras diásporas.

Tendo atuado no teatro, na televisão e no cinema, a obra e a trajetória de Zózimo Bulbul desvelam os dilemas de um artista negro que reivindica a construção de sua própria narrativa e forma de expressão em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural e pela censura.

Notas

1. Nos anos 1960 e 1970, nos Estados Unidos, o movimento Black Power enfatiza a estética relacionada às populações negras e a criação de instituições políticas e culturais para promover os interesses dessas populações.

Obras 1

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Espetáculos 7

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Exposições 3

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Fontes de pesquisa 9

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