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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Anselmo Duarte

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.10.2016
21.04.1920 Brasil / São Paulo / Salto
07.11.2009 Brasil / São Paulo / São Paulo
Anselmo Duarte Bento (Salto, São Paulo, 1920 - São Paulo, São Paulo, 2009). Diretor de cinema, ator e roteirista. Vive em sua cidade natal até os 14 anos, quando muda-se para São Paulo e passa a trabalhar como datilógrafo em um escritório de contabilidade. No início da década de 1940, após se formar em Economia, vai para o Rio de Janeiro, onde p...

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Biografia
Anselmo Duarte Bento (Salto, São Paulo, 1920 - São Paulo, São Paulo, 2009). Diretor de cinema, ator e roteirista. Vive em sua cidade natal até os 14 anos, quando muda-se para São Paulo e passa a trabalhar como datilógrafo em um escritório de contabilidade. No início da década de 1940, após se formar em Economia, vai para o Rio de Janeiro, onde participa como figurante em It's all true, do cineasta Orson Welles (1915-1985) e Inconfidência Mineira, de Carmem Santos (1904-1952), pela Brasil Vita Filmes. Em seguida, faz algumas participações em radionovelas e trabalha como redator e repórter, na revista Observatório Econômico e Financeiro, órgão semioficial do governo Getúlio Vargas, dirigida por Valetim Fernandes Bouças (1861-1964).

Em 1947, estreia como ator principal no filme Querida Suzana, dirigido pelo italiano Alberto Pieralisi (1911-2001). No mesmo ano, participa de Pinguinho de Gente, de Gilda Abreu (1904-1979) e, na Argentina, de No me Digas Adiós, do argentino Moglia Barth (1903-1984). De volta ao Brasil, em 1948, é contratado pela Atlântida Empresa Cinematográfica do Brasil, atuando em Terra Violenta, do americano Edmond Bernoudy (1901-1978); Caçula do Barulho, do italiano Ricardo Freda (1909-1999); A Sombra da Outra, Carnaval no Fogo e Aviso aos Navegantes, três filmes de Watson Macedo (1918-1981); e Maior que o ódio, de José Carlos Burle (1907-1983). Em São Paulo, pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, protagoniza Tico-tico no fubá, do italiano Adolfo Celi (1922-1986); Sinhá Moça, do argentino Tom Payne (1914-1996); Apassionata, do português Fernando de Barros (1915-2002); e Veneno, do italiano Gianni Pons (1909-1975).

Após a falência da Vera Cruz, em 1954, retorna ao Rio de Janeiro e associa-se a Watson Macedo para produzir filmes populares, nos estúdios da Brasil Vita Filmes. A convite de Tom Payne, em 1957, volta a São Paulo para protagonizar Arara Vermelha, e em seguida inicia sua carreira como diretor, com a realização do documentário de curta-metragem Fazendo Cinema e do longa-metragem Absolutamente Certo. Parte para a Europa, onde participa de algumas produções em Portugal, França e Espanha.

De volta ao Brasil, em 1961, decide comprar os direitos da peça O Pagador de Promessas,do dramaturgo Dias Gomes (1922-1999), para adaptá-la ao cinema, com a co-produção de Osvaldo Massaini. Em 1962, o filme é selecionado para representar o Brasil no XV Festival Internacional do Filme, em Cannes, onde ganha a Palma de Ouro. No mesmo ano, é premiado em mais de dez festivais no Brasil e no exterior, e motiva intensos debates no meio cinematográfico.

Em 1965, realiza o longa-metragem Vereda da Salvação, uma adaptação da peça de Jorge Andrade (1922-1984). Dois anos depois, atua em O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person (1936-1976). A volta como diretor se dá com Quelé do Pajeú (1969), que seria filmado por Lima Barreto (1906-1982), mas este adoece no início das filmagens. Na década de 1970 dirige Um Certo Capitão Rodrigo, adaptação do romance homônimo de Érico Veríssimo (1905-1975) e do melodrama policial O Descarte. De 1973 a 1975, investe em comédias eróticas do gênero conhecido como pornochanchada, com a realização do episódio Oh! Dúvida cruel, do filme Já não se faz amor como antigamente e de Marido que volta deve avisar, episódio de Ninguém segura essas Mulheres.

Em 1977, dirige O Crime do Zé Bigorna, baseado em um Caso Especial, programa televisivo, escrito por Lauro Cézar Muniz (1938). Realiza seu último trabalho de direção em 1979, com Os trombadinhas, estrelado por Pelé (1940). Como ator, participa de Tensão no Rio (1984), de Gustavo Dahl (1938-2011) e Brasa adormecida (1986), de Djalma Limongi Batista (1950).

Comentário Crítico
Anselmo Duarte, tanto por sua carreira de diretor, quanto de ator, ocupa um importante lugar na história do cinema brasileiro. Sua trajetória profissional envolve algumas polêmicas, sobretudo após a conquista da Palma de Ouro, quando ocorre uma intensa discussão sobre o significado da conquista do prêmio para os rumos do cinema brasileiro e para a sua própria carreira, muito marcada pelo estereótipo de galã.

A atuação na Atlântida e, posteriormente, na Vera Cruz, consolida sua carreira de ator. O porte físico, o modo de atuar e os papéis que assume fazem dele o ator preferido do público brasileiro, nas décadas de 1940 e 1950. Apesar do ritmo industrial que conferem ao cinema nacional, as duas companhias têm projetos estéticos e de produção totalmente distintos, mas Anselmo Duarte se consagra estrela em ambas as companhias, em seus respectivos modelos de star system. No período da Atlântida, participa de comédias musicais, conhecidas como chanchadas, marca registrada da produção carioca no período. Em contraposição, na Vera Cruz, como o ator brasileiro mais bem pago do país, protagoniza superproduções que objetivam projetar o cinema brasileiro a um patamar de qualidade técnica e estética próximas das grandes produções internacionais.

A experiência como diretor inicia-se durante a realização de Carnaval no Fogo, do qual é protagonista e também diretor dos números musicais Pedalando e Jealousy, além de colaborar, com Watson Macedo, na elaboração do roteiro. Mas é em 1957 que decide investir na direção de filmes, com a realização do documentário Fazendo Cinema, sobre os bastidores de uma produção cinematográfica, com o qual ganha o prêmio Governador do Estado de São Paulo, como melhor documentário do ano.

Em Absolutamente certo, faz o papel principal e acumula as funções de argumentista, de coprodutor e de diretor. Trata-se de uma comédia sobre a vida do funcionário de uma gráfica que, após ter memorizado toda a lista telefônica de sua cidade, inscreve-se em um programa de televisão de perguntas e respostas, no qual tem performance extraordinária, alcançando um prêmio maior a cada rodada. A tensão se instaura quando uma pequena quadrilha que controla as apostas tenta obrigá-lo, no último programa, a cometer um erro e perder o prêmio acumulado. Incorporando a experiência musical das chanchadas da Atlântida, Duarte aprimora a construção dramática, dando maior fluência narrativa e um maior equilíbrio à relação entre a intriga e a inserção dos números musicais. O filme é muito bem recebido pelo público e pela crítica especializada. A estabilidade financeira proveniente desse sucesso permite que Anselmo Duarte parta à Europa para estudar e aprimorar sua técnica e seu estilo.

De volta ao Brasil, decide se dedicar a um enredo que, mesmo com uma produção modesta,  possa concorrer no Festival de Cannes, ideia gestada durante sua participação no mesmo festival, em 1960. Escreve o roteiro de O Mensageiro Messias, uma história que reúne elementos místicos em torno de um Cristo moderno, e convida Antonio Callado (1917-1997) para a adaptação cinematográfica da peça A Madona de Cedro, mas essas iniciativas fracassam. Decide, então, adaptar o texto da peça O Pagador de Promessas, que conta a história de Zé do Burro e sua saga para pagar a promessa feita a Santa Bárbara em um terreiro de candomblé, no interior da Bahia, com o objetivo de salvar seu burro de estimação, então doente: caminhar até a cidade de Salvador carregando uma cruz e, com ela, entrar na Igreja de Santa Bárbara

Com uma narrativa clássica, aprimorada desde as experiências da Vera Cruz, o filme evoca a questão religiosa a partir do embate entre as personagens Zé do Burro (Leonardo Villar-1923) e Padre Olavo (Dionísio Azevedo - 1922-1994), que representam o confronto entre a religião africana e a ortodoxia católica.

No primeiro momento após a premiação em Cannes, há um clima de euforia e expectativa sobre o impacto do sucesso de O pagador de promessas no processo de superação da condição colonial, que ainda acometia o cinema brasileiro. Segundo Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977), a repercussão positiva do filme "se deve à sua realização equilibrada e da qual emerge uma visão de certos componentes da vida brasileira acessível ao público cosmopolita de Cannes".O cineasta francês Jean Douchet (1929), na revista Cahiers du Cinema, diz que, a partir de O pagador de promessas, pode-se esperar o  nascimento de uma nova indústria cinematográfica no Brasil.

Em contraponto a essas posições, forma-se uma corrente que, apesar de reconhecer a qualidade técnica do filme, critica os elementos de continuidade de uma tradição cinematográfica que se queria superar, sobretudo a partir das produções do grupo do Cinema Novo. Glauber Rocha (1939-1981), em Revisão crítica do cinema brasileiro, afirma que era necessário um terceiro filme para revelar o verdadeiro caráter do trabalho de Duarte, e confirmar o que se anunciava em Absolutamente Certo, considerado por ele um filme de autor.

Motivado pela repercussão de O Pagador de Promessas, Anselmo Duarte realiza, em 1964, Vereda da salvação, em que procura responder às polêmicas sobre o estilo linear e acadêmico de sua produção anterior. No entanto, o filme não alcança o sucesso esperado pelo diretor nem as expectativas dos críticos, acirrando as divergências ideológicas.

Depois das dificuldades com Vereda da Salvação, Duarte se afasta da direção cinematográfica até 1969, quando volta à produção de longas-metragens. Quelé do Pajeú (1969), rodado em 70mm, é uma adaptação do roteiro de Lima Barreto sobre a história de costumes nordestinos e de tragédias provocadas por vinganças pessoais. O Crime do Zé Bigorna, de 1977, é uma comédia que retrata o povo brasileiro, sempre à mercê de políticos populistas.

A consistência da filmografia de Anselmo Duarte, composta de mais de quarenta filmes, incluindo direção e interpretação, está ancorada em seu estilo como diretor, que concilia uma forma pessoal de contar uma história com qualidade técnica e artística, e a atenção a temas acessíveis ao grande público - elemento essencial para que seus filmes tenham alcançado uma notável repercussão.

 

Nota
1 GOMES, PAULO EMÍLIO. Do circo de Salto a Cannes. In: Visão, 13 abr. 1962

Obras 2

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Fontes de pesquisa 18

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  • DUARTE, B.J. Revista Anhembi, n° 140, 1962. In: Estudos de Cinema, Editora Annablume, 1998.
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  • GOMES, Paulo Emílio Salles. Crítica no Suplemento Literário do Estado de S. Paulo. Volumes I e II. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
  • GOMES, Paulo Emílio Salles. Do circo de Salto a Cannes. In: Visão, 13 abr. 1962, p. 56-57.
  • GOMES, Paulo Emílio Salles. Uma glória que obriga a pensar. In: Visão, 22 jun. 1962, p. 20-23.
  • LUZ, Celina. "As Veredas da Promissão". Rio de Janeiro: Revista Filme & Cultura, nº 13 - 23, 2010. p.10-19.
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  • RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luis Felipe. Enciclopédia de cinema brasileiro. São Paulo: Editora SENAC, 2ª Edição, 2004.
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  • SINGH JR., Oséas. Adeus Cinema: Vida e Obra de Anselmo Duarte. São Paulo: Masao Ohno Editor, 1993.
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