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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Antonio Dias

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 01.09.2021
1944 Brasil / Paraíba / Campina Grande
01.08.2018 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução Fotográfica Autoria Desconhecida

Sem Título
Antonio Dias
Aquarela sobre papel manufaturado
33,00 cm x 33,00 cm

Antonio Manuel Lima Dias (Campina Grande, Paraíba, 1944 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018). Artista visual e multimídia. É um dos representantes da geração de artistas brasileiros que, na década de 1960, rompe com a pintura modernista figurativa e nacionalista para produzir uma nova estética inspirada na cultura de massa. Levando os conceit...

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Antonio Manuel Lima Dias (Campina Grande, Paraíba, 1944 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018). Artista visual e multimídia. É um dos representantes da geração de artistas brasileiros que, na década de 1960, rompe com a pintura modernista figurativa e nacionalista para produzir uma nova estética inspirada na cultura de massa. Levando os conceitos de experimentação e liberdade ao limite, a obra de Antonio Dias desafia as categorias artísticas tradicionais ao explorar técnicas, materiais e conceitos que resultam em uma produção dinâmica e diversificada.

Inicia a carreira como desenhista e artista gráfico em 1958, quando se muda para o Rio de Janeiro. Nessa época, frequenta aulas do gravador e ilustrador Oswaldo Goeldi (1895-1961) no Atelier Livre de Gravura da Escola Nacional de Belas Artes (Enba), e conhece artistas do Grupo Frente, que influenciam em sua trajetória. Inicia sua pesquisa estética nos anos 1960, quando explora novos meios e suportes. Conjugando abstração construtiva e figuração, seus quadros negam a homogeneidade por meio de texturas, relevos e rupturas. Participa da mostra Opinião 65, marco do surgimento do novo realismo nas artes.

Nesse contexto, produz uma de suas obras mais importantes: Nota sobre a Morte Imprevista (1965), na qual apresenta uma nova abordagem do problema do objeto, sem deixar de tocar em questões sociais em meio às formais. Um “antiquadro”, passagem decisiva para o conceito de nova objetividade, formulado por Hélio Oiticica (1937-1980)1, a obra assume o formato de losango, rompendo com a disposição tradicional de um quadro. Seus elementos constituintes são excreções que transbordam sobre o ambiente, com formas distantes da rigidez habitual de um quadro. Como em um jogo, ela provoca o observador a remontá-la: as imagens, com uma estética pop, oferecem um significado enigmático, e os objetos, que poderiam oferecer-se ao toque, são fontes de desconforto. O espaço fragmentado remete às histórias em quadrinhos, sem, no entanto, almejar completude narrativa. 

Depois de participar da 4ª Bienal de Paris, também em 1965, Antonio Dias recebe uma bolsa de estudos do governo francês e inicia um período de autoexílio em diversos países da Europa, o que coincide com uma transformação em suas obras. Diferentemente da produção anterior, marcada pela estética da pop art e pelo engajamento político, suas obras passam a ter um caráter minimalista, incorporando poucas imagens e algumas palavras, como na tela Anywhere Is My Land (1968). Nela, o artista sobrepõe a organização rígida de uma grade quadriculada à imensidão aparentemente desorganizada da galáxia, sugerindo que qualquer lugar (anywhere) pode ser sua terra (my land). 

Tomado por essa questão do lugar, produz a obra Faça Você Mesmo: Território Liberdade (1968), um ambiente apenas estruturalmente esboçado, que sugere um espaço para a ação. Trata-se de uma construção gráfica ambiental, com sinais de demarcação territorial feitos com fitas adesivas sobre o chão. Desdobrando a proposta, o artista insere três pedras de bronze com a inscrição “To the police”. A completude da obra só é atingida por meio da ação do espectador, o que, para Dias, revela a lacuna física e semântica inerente a toda comunicação. 

Continua a incorporar a escrita como elemento gráfico e semântico, intensificando as relações entre artes visuais, poesia e cinema, como na série The Illustration of Art (1971-1974). O título transita entre o pejorativo “ilustrativo” e o erudito “ilustrado”, ambos os sentidos em chave irônica. Nessa série, imagens e sequências interrompidas de formas modulares são ordenadas pela lógica sugerida pelo artista, propondo campos de jogos e camuflagens que se fingem imagens espaciais. The Illustration of Art / One & Three / Stretchers / Models (1971) exemplifica a operação formal e lógica que permeia os trabalhos da série, estimulando o observador à ação, ainda que esta seja apenas o gesto virtual de completar as possibilidades de acomodação das formas. A série é iniciada em Milão e editada em Nova York, depois de o artista receber, em 1972, a bolsa Guggenheim.

Em sua constante experimentação artística, Dias passa a investigar novas formas de produzir suas obras. Em 1977, viaja ao Nepal e pesquisa técnicas de produção de papel, que resulta em uma série de trabalhos de grande formato e na publicação do álbum Trama (1977). O álbum é composto de 11 xilogravuras impressas em papel nepalês, produzido por artesãos locais. Em 1980, participa da 39ª Bienal de Veneza e, em 1981, da 16ª Bienal de São Paulo, que marca o fim do boicote à Bienal e a abertura política no Brasil.

Em 1992, torna-se professor da International Summer Academy of Fine Arts, em Salzburgo, Áustria. No ano seguinte, leciona na State Academy of Fine Arts, em Karlsruhe, Alemanha, e, em 1997, no programa de pós-graduação dos Ateliers Arnhem, na Holanda. Em 2010, transfere-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue com intensa produção. Dedica-se à pintura, priorizando texturas, em vez de pinceladas, bem como planos de diferentes cores e tamanhos, deixando de lado a figuração de suas obras iniciais.

Antonio Dias, com sua constante inquietação artística, produz um acervo plural, que não só conta a história da arte de um Brasil recém-modernizado, como também faz parte de sua construção. Ao questionar tradições e promover rupturas, revela novas formas de pensar a arte e se eterniza como um dos grandes pintores brasileiros do século XX. 

Nota
1. OITICICA, Hélio. O esquema geral da nova objetividade. In: FERREIRA, Glória (org.). Escritos de artistas: anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. p. 154-168.

Obras 64

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Reprodução fotográfica autoria desconhecida

A Canção do Machado

Óxido de ferro, esmalte, grafite e pigmento metálico sobre papel nepal

Exposições 519

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Feiras de arte 4

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Mostras audiovisuais 9

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Mídias (1)

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Antonio Dias - Enciclopédia Itaú Cultural
“A pintura para mim não é um passatempo, mas um problemaço que procuro resolver botando aquilo para fora”, explica o artista multimídia paraibano Antonio Dias, cujos trabalhos estão expostos em diversos museus e galerias nacionais e internacionais desde a década de 1960. Cadernos são seus primeiros suportes, como rascunhos em que inicia suas obras, conferindo-lhes toda a carga emocional. Depois, ele filtra o que deseja imprimir em telas e outras superfícies, com recortes que representam um diálogo entre as suas inspirações e o olhar de quem as vê. O artista não se fixa em um único estilo, procurando sempre desafiar-se para que não se torne repetitivo. Os materiais utilizados são diversos, podem ter relevos, serem bi ou tridimensionais. O importante, para Dias, são os conceitos discutidos em suas criações, que podem ter teor político e/ou social.

Produção: Documenta Vídeo Brasil
Captação, edição e legendagem: Sacisamba
Intérprete: Carolina Fomin (terceirizada)
Locução: Júlio de Paula (terceirizado)

Fontes de pesquisa 29

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  • ALVARADO, Daisy Valle Machado Peccinini de. Figurações Brasil anos 60: neofigurações fantásticas e neo-surrealismo, novo realismo e nova objetividade brasileira. São Paulo: Edusp / Itaú Cultural, 1999.
  • ARTE e artistas plásticos no Brasil 2000. São Paulo: Meta, 2000.
  • ARTE no Brasil. São Paulo: Abril Cultural, 1982.
  • Antonio Dias, artista plástico, morre no Rio aos 74 anos. G1 Rio, 01 ago. 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2018/08/01/morre-no-rio-o-artista-plastico-antonio-dias.ghtml. Acesso em: 01 ago. 2018.
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  • CHAIMOVICH, Felipe. Antonio Dias: derrotas e vitórias. São Paulo: Museu de Arte Moderna de São Paulo. Disponível em: https://mam.org.br/exposicao/antonio-dias-derrotas-e-vitorias/. Acesso em: 8 ago. 2021.
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  • DIAS, Antonio. A Ilustração da arte/cidade/modelo. Tradução Sarah Bailey. Recife: Amparo Sessenta, 2003.
  • DIAS, Antonio. Antonio Dias - Biennale di Venezia'80. Rio de Janeiro: Funarte, 1980.
  • DIAS, Antonio. Antonio Dias - Peinture d'assemblages. Paris: Galerie Florence Houston-Brown, 1965.
  • DIAS, Antonio. Antonio Dias. Organização Paulo Darzé; tradução Judy Valentin; versão em inglês Lucinda Rennison. Salvador: Paulo Darzé Galeria de Arte, 2000.
  • DIAS, Antonio. Antonio Dias. Rio de Janeiro: Funarte, 1979. (Arte brasileira contemporânea).
  • DIAS, Antonio. Antonio Dias. Stuttgart: Galerie und Verlag, 1986.
  • DIAS, Antonio. Antonio Dias: o país inventado. Coordenação Maria Clara Rodrigues e Mercedes Viegas; curadoria Sônia Salzstein; versão em inglês Izabel Murat Burbridge, Stephen Berg.São Paulo; Rio de Janeiro, MAM, 2001.
  • DIAS, Antonio. Antonio Dias: os anos 70 na Coleção João Sattamini. Curadoria Luiz Camillo Osorio; versão em inglês Bruce Kenneth Pailey; tradução Anna Basevi. Niterói: MAC-Niterói, 2000.
  • DIAS, Antonio. Antonio Dias: trabalhos 1965-1999. Curadoria Jorge Molder, Paulo Herkenhoff; tradução Gabriel Pérez-Barreiro, Márcia Bonnet, José Gabriel Flores. São Paulo: Cosac & Naify, 1999.
  • DIAS, Antonio. Antonio Dias: trabalhos = Arbeiten = works: 1967-1994. Tradução Sarita Brandt. Ostfildern: Cantz, 1994.
  • DIAS, Antonio. O papel do artista. Coordenação Raquel Arnaud. São Paulo: Galeria Arte Global, 1978. (A ilustração da arte).
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  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989.
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  • MOTTA, Gustavo. No fio da navalha – diagramas da arte brasileira: do programa ambiental à economia do modelo. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27160/tde-13032013-143600/.
  • MOTTA, Gustavo. Pergunta a cada ideia: serves a quem? – Questões metodológicas ao redor de Trama, de Antonio Dias (1977). Boletim – Grupo de Estudos Arte & Fotografia, São Paulo, n.8, 2014. Acesso em: 03 set. 2019.
  • NAME, Daniela. Análise: Antonio Dias aprofundou as propostas da vanguarda do início do século XX. O Globo, 1 ago. 2018. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/analise-antonio-dias-aprofundou-as-propostas-da-vanguarda-do-inicio-do-seculo-xx-22940924. Acesso em: 14 ago. 2021.
  • OITICICA, Hélio. O esquema geral da nova objetividade. In: FERREIRA, Glória (Org.). Escritos de artistas: anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. p. 154-168.
  • PONTUAL, Roberto. Entre dois séculos: arte brasileira do século XX na coleção Gilberto Chateaubriand. Rio de Janeiro: Edições Jornal do Brasil, 1987.
  • ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães: Instituto Walther Moreira Salles, 1983. v. 1.

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