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Enciclopédia Itaú Cultural
Dança

Lia Rodrigues

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 28.10.2019
30.04.1956 Brasil / São Paulo / São Paulo
Lia Rodrigues dos Santos (São Paulo, São Paulo, 1956). Coreógrafa, bailarina e diretora. Fundadora da Lia Rodrigues Companhia de Danças, reconhecida pelo trabalho dentro do Complexo da Maré e pela produção coreográfica ligada a questões socioculturais e políticas, expressas sobretudo por críticas e denúncias às causas e efeitos da injustiça, da ...

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Lia Rodrigues dos Santos (São Paulo, São Paulo, 1956). Coreógrafa, bailarina e diretora. Fundadora da Lia Rodrigues Companhia de Danças, reconhecida pelo trabalho dentro do Complexo da Maré e pela produção coreográfica ligada a questões socioculturais e políticas, expressas sobretudo por críticas e denúncias às causas e efeitos da injustiça, da pobreza e da violência.

Começa seus estudos de balé aos sete anos, com a professora Nice Leite, de quem recebe o estímulo para criação de obras, mesmo dentro do estilo clássico. Completa sua formação e, ao mesmo tempo em que cursa História na Universidade de São Paulo (USP), participa da Primeira Oficina Nacional de Dança Contemporânea, Bahia, em 1977.

Nesse mesmo ano, participa do curso do Teatro de Dança Galpão e experimenta múltiplas técnicas modernas, como Graham, Cunningham e Laban, e diferentes formas de criação. Junto de colegas do Galpão, forma o Grupo Andança, um coletivo feminino independente, com forte discurso ativista e participativo.

Duas turnês internacionais em passagem pelo Brasil, a de Maurice Béjart em 1979 e a de Pina Bausch (1940-2009) em 1980, desperta na bailarina novo interesse pela dança, inspirada pelos ícones do contemporâneo europeu. Por indicação de sua ex-professora, a bailarina Célia Gouvêa (1949), encontra a coreógrafa francesa Maguy Marin (1951). 

Acompanha aulas e ensaios do grupo e é convidada a fazer turnê com a companhia, fazendo também a criação do emblemático espetáculo May B (1981), inspirado em obras do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989). Com Marin, aprende mais sobre profissionalização e estrutura de companhias e as diversas funções envolvidas na criação e produção da dança.

De volta ao Brasil, instala-se no Rio de Janeiro e, em 1990, funda a Lia Rodrigues Companhia de Danças. Convidada para ocupar pautas disponíveis no Espaço Cultural Sérgio Porto, cria o evento que dá origem ao Festival Panorama, em 1992. O festival se profissionaliza, torna-se anual, ganha patrocínios e reconhecimento e a direção recebe reforços, como o crítico e pesquisador de dança Roberto Pereira (1965-2009). Lia Rodrigues atua na direção do Panorama até 2005. 

Nessa época, por intermédio da crítica e pesquisadora Silvia Soter (1964), que discute as artes em projetos sociais, a dançarina entra em contato com o coreógrafo Ivaldo Bertazzo (1949), que atua no projeto Redes de Desenvolvimento da Maré. Em 2004, com a preocupação constante com a formação do artista e do público da dança e o interesse por manter a arte contemporânea em diálogo com projetos sociais, Lia transfere sua companhia para o Complexo da Maré. Sempre em parceria com o projeto Redes, aos poucos a coreógrafa adapta o espaço, que evolui para a fundação do Centro de Artes da Maré (2009) e a Escola Livre de Dança da Maré (2011).

Sua ação como formadora e pensadora desse espaço e de sua gente é determinante para a construção de suas obras, reconhecidas e premiadas pelo mundo. Em 1994, conquista o prêmio Mambembe de melhor coreógrafa; é escolhida pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como melhor Percurso em Dança em 2010 e recebe o Grande Prêmio da Crítica de 2014. Em 2017, é reconhecida na categoria Criar do Prêmio Itaú Cultural 30 anos.

Inspirada pela literatura, base para a escolha de seus temas e alimento para sua pesquisa de movimento (ainda que não trabalhe com adaptações de obras literárias), Lia produz obras que expõem as injustiças sociais de seu tempo, com um tom entre a denúncia e o documental, mas sem se tornarem peças de propaganda. Fazer arte sobre seu tempo e para seu tempo é o mote recorrente de seu trabalho. Em Aquilo de que Somos Feitos (2000) é o uso performático dos corpos dos bailarinos que se arrastam em cena, se aglomeram e organizam o espaço do público, criando dinâmicas de reflexão sobre o corpo como suporte de hábitos, de conteúdos, de construções e também de violência.

Seu processo e suas propostas também estão presentes em criações recentes, como Para que o Céu Não Caia (2016). Neste espetáculo, que parte de um mito xamã Yanomani sobre o fim do mundo, os intérpretes cobrem seus corpos nus com café, farinha, açafrão e dançam entre o público, com em um rito de transfiguração: o corpo torna-se ingrediente de um ritual, e a plateia é inserida nele para dançar e evitar a queda do céu.

A reflexão sobre a ameaça, o medo e a necessidade de resistência é constantemente ancorada pelo discurso da coreógrafa. Lia não trabalha com obras panfletárias, mas deixa clara sua visão do mundo e do sistema cruel e injusto em que seu trabalho está inserido.

Em 2018, pelas parceria e participação em eventos na Europa desde os anos 1990, a dançarina torna-se de Artista Associada de dois teatros franceses: o Théâtre National de Chaillot e o Centquatre, espaços de experimentação e difusão de dança contemporânea. Essa parceria aumenta as possibilidades de coproduções e de trabalho continuado de seu grupo.=

A preocupação com as possibilidades da arte contemporânea dentro da sociedade contemporânea organiza a trajetória de Lia Rodrigues. Tanto a partir do ponto de vista das descobertas e das possibilidades de se fazer dança, como do viés da formação de bailarinos e de público e, sobretudo, da construção coreográfica focada na reflexão sobre a sociedade atual, levam Lia Rodrigues a ser reconhecida dentro e fora do país.

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Fontes de pesquisa 11

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  • BOGÉA, Inês. Espetáculo se reveste de clima dos anos 70. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 nov. 2001. Ilustrada. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2411200110.htm. Acesso em: 25 set. 2019
  • DUNDER, Karla. Lia Rodrigues mostra sua dança de várias faces. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 1 maio 2001.
  • KATZ, Helena. Rua São Caetano no caminho do Andança. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 out. 1979.
  • Lia Rodrigues. Site oficial da artista. Disponível em: http://www.liarodrigues.com. Acesso em: 25 set. 2019
  • PEREIRA, Roberto. Os corpos são o lugar da dança. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 dez. 2003.
  • PERNICIOTTI, Fernanda. ‘May B’ chega aos alunos de dança da Maré, no Rio. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 maio 2018.
  • ROCHELLE, Henrique. Para que o Céu Não Caia | Lia Rodrigues Cia de Dança. Da Quarta Parede. São Paulo, 2016. Disponível em: https://daquartaparede.wordpress.com/2016/10/26/para-que-o-ceu-nao-caia-lia-rodrigues-cia-de-danca/. Acesso em: 25 set. 2019
  • RODRIGUES, Lia. Entrevista concedida a Nayse Lopez, iDança.doc, 2012. Disponível em: https://youtu.be/bigkn-p7Q-Y. Acesso em: 25 set. 2019
  • RODRIGUES, Lia. Entrevista concedida a Regina Zappa, Estação Sabiá / TV 247, 23 set. 2019. Disponível em: https://youtu.be/SiRMqbz3qoM. Acesso em: 25 set. 2019
  • RODRIGUES, Lia. Lia Rodrigues. Entrevista concedida a Henrique Rochelle, crítico de dança. São Paulo: [s.n.], 2019.
  • SOTTER, Silvia. Dança feita de ideias, corpos e indignação. O Globo, 14 jul. 2000.

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