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Teatro

Augusto Boal

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.05.2021
16.03.1931 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
02.05.2009 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Augusto Boal, 1958

Augusto Pinto Boal (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1931 - Idem, 2009). Diretor, autor e teórico. Torna-se referência do teatro brasileiro ao expandir a prática para a conceitualização teórica, além de ser a principal liderança do Teatro de Arena e o criador da metodologia conhecida como teatro do oprimido.

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Augusto Pinto Boal (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1931 - Idem, 2009). Diretor, autor e teórico. Torna-se referência do teatro brasileiro ao expandir a prática para a conceitualização teórica, além de ser a principal liderança do Teatro de Arena e o criador da metodologia conhecida como teatro do oprimido.

Em 1950, muda-se para Nova York, onde se forma em engenharia química e dramaturgia na Universidade de Colúmbia. De volta ao Brasil em 1956, integra o Teatro de Arena, em que divide a direção com José Renato (1926-2011) e aprofunda o trabalho de interpretação, adaptando o método do diretor russo Stanislavski (1863-1938) às condições brasileiras e ao formato de teatro de arena, resultando numa interpretação naturalista. Exerce importante papel no engajamento político do grupo, iniciando um teatro voltado para discussões nacionalistas, em voga na segunda metade dos anos 1950.

Dirige Ratos e Homens (1956), do americano John Steinbeck (1902-1968), que lhe rende o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), como diretor revelação. Em 1957, seu primeiro texto é encenado: Marido Magro, Mulher Chata; nele Boal já demonstra domínio na escrita mas ainda não efetiva uma análise social profunda. 

Em 1958, encena A Mulher do Outro, de Sidney Howard (1891-1939), que agrava a crise já instalada no grupo, salvo da falência com a montagem Eles não Usam Black-Tie1. Para seguir a pesquisa de uma dramaturgia própria, Boal sugere a criação de um Seminário de Dramaturgia. As produções desses encontros compõem o repertório da fase nacionalista do grupo, presente até 1962.

Dirige Chapetuba Futebol Clube (1959), de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974). O texto investiga a operacionalidade de um pequeno time de várzea, revelando as trapaças políticas que rondam os campeonatos de futebol. Sua direção é ágil, vigorosa, e ele opta pelo realismo teatral para melhor ambientar o universo proposto pelo autor e atingir mais "energicamente" o espectador.

Em 1960, seu texto Revolução na América do Sul, com direção de José Renato, o eleva ao posto de um dos melhores dramaturgos do período no panorama paulista. No ano seguinte, completando a fase nacionalista, dirige O Testamento do Cangaceiro, de Chico de Assis (1933-2015), ainda uma abordagem dramatúrgica com base na literatura popular, com cenários e figurinos de Flávio Império (1935-1985) e com Lima Duarte (1930) no elenco.

A partir de 1962, o Arena inicia uma fase de nacionalização dos clássicos, e Boal assume a liderança do elenco. A qualidade dos espetáculos torna-se superior, como em A Mandrágora, de Maquiavel (1469-1527), que, apreciado especialmente por sua construção estética, volta a chamar a atenção para Boal como diretor.

Em 1964, ano da instauração da ditadura civil-militar (1964-1985), muda-se para o Rio de Janeiro e contribui na direção do show Opinião2, ligado ao Centro Popular de Cultura da UNE (CPC). Ao retornar a São Paulo, no ano seguinte, encontra a equipe do Arena trabalhando no projeto de reconstrução do episódio histórico do Quilombo de Palmares. Com a experiência do Opinião, Boal inicia o ciclo de musicais na companhia, integrando o elenco em torno de uma nova linguagem. Com Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) e Edu Lobo (1943) dá forma a Arena Conta Zumbi (1965), primeiro experimento com o sistema coringa e com a música como essencial à linguagem do espetáculo, interligando as cenas e enriquecendo a trama em tons líricos ou exortativos, usando eventos do passado, sem preocupações cronológicas, para criticar o presente.

Com a mesma perspectiva, novas versões do espetáculo são elaboradas, como Arena Conta Tiradentes (1967), que, do ponto de vista da linguagem, busca criar uma empatia da plateia com a personagem de Tiradentes, despertando o entusiasmo revolucionário e uma visão crítica sobre os acontecimentos. Mais uma vez, a música tem papel fundamental. Com direção musical de Theo de Barros (1943), o refrão "de pé, povo levanta na hora da decisão" pontua toda a montagem, conclamando explicitamente a plateia na resistência à ditadura. 

A Primeira Feira Paulista de Opinião (1968), concebida e encenada por Boal, trata-se de uma reunião de textos curtos de vários autores. O diretor apresenta o espetáculo na íntegra, ignorando os cortes estabelecidos pela censura, incitando a desobediência civil, e luta arduamente pela permanência da peça em cartaz, depois de sua proibição. 

Com o decreto do Ato Institucional nº 5 (AI-5), ainda em 1968, o Arena viaja para fora do país, excursionando até 1970. Boal escreve e dirige Arena Conta Bolívar, ainda inédita no Brasil, que se soma ao antigo repertório.
Preso e exilado em 1971, Boal prossegue sua carreira no exterior, inicialmente na Argentina, e desenvolve a estrutura teórica dos procedimentos do teatro do oprimido. Muda-se para Portugal, onde vive por dois anos, trabalhando com o grupo A Barraca.

Ainda na década de 1970, em sua produção teórica, lança livros como O Teatro do Oprimido e Outras Políticas Poéticas (1975) e Técnicas Latino-Americanas de Teatro Popular (1979). Com a Lei da Anistia, retorna ao Brasil em 1984 e volta a dirigir importantes espetáculos no Rio de Janeiro. A partir de 2000, sua atuação encontra-se voltada para o teatro do oprimido.

Augusto Boal une a prática dos palcos com a teoria para conceber uma dramaturgia política, mas também estética. Sua experiência no Teatro de Arena, com episódios históricos e encenações políticas, e no teatro do oprimido, mesclando arte com bandeiras sociais, faz dos palcos um ambiente de construção de narrativas e posicionamento diante da violência e censura do Estado.

Notas:

1. Texto de Gianfrancesco Guarnieri, dirigido por José Renato, que além de salvar o Arena da falência, fortalece o grupo enquanto grande revolução da cena teatral brasileira.

2. A iniciativa surge de um grupo de autores ligados ao Centro Popular de Cultura da UNE (CPC), posto na ilegalidade - Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes (1940-1976) e Armando Costa (1933-1984) reúnem-se no intento de criar um foco de resistência à situação. O evento contagia diversos outros setores artísticos, como as artes visuais, aglutinando artistas ligados aos movimentos de arte popular. Esse é o nascedouro do Grupo Opinião, que permanece combativo até 1968.

Obras 2

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Exposições 1

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Eventos relacionados 155

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Fontes de pesquisa 20

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  • ARENA conta Tiradentes. São Paulo: Teatro de Arena, 1967. 1 programa do espetáculo realizado no Teatro de Arena. Não catalogado
  • BOAL, Augusto. Currículo enviado pelo diretor.
  • BOAL, Augusto. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
  • CAMPOS, Cláudia de Arruda. Zumbi, Tiradentes e outras histórias contadas pelo Teatro de Arena de São Paulo. São Paulo: Perspectiva: Edusp, 1988.
  • CENTRO de Teatro do Oprimido-Rio. Disponível em: [http://www.ctorio.org.br]. Acesso em: 11/04/2007.
  • DIONISOS - Teatro de Arena. Rio de Janeiro: MEC-SNT , nº 24, out. 1978.
  • EICHBAUER, Hélio. [Currículo]. Enviado pelo artista em 24 de abril de 2011. Espetáculos: O Corsário de Rei - 1985; Fedra - 1985. Não catalogado
  • GUERINI, Elaine. Nicette Bruno & Paulo Goulart: tudo em família. São Paulo: Cultura - Fundação Padre Anchieta: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. 256 p. (Aplauso Perfil). 792.092 G932n
  • MAGALDI, Sábato. Um palco brasileiro, o Teatro de Arena. São Paulo: Perspectiva, 1984.
  • MICHALSKI, Yan. Augusto Boal In: Pequena enciclopédia do teatro brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro, 1989. Material inédito, elaborado em projeto para o CNPq.
  • MICHALSKI, Yan. O teatro sob pressão. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
  • MOSTAÇO, Edelcio. Teatro e política: Arena, Oficina e Opinião. São Paulo: Proposta, 1982.
  • Programa do Espetáculo - O Inspetor Geral - 1966. Não catalogado
  • Programa do Espetáculo - O Noviço - 1963. Não catalogado
  • Programa do Espetáculo -A Mandrágora - 1968. Não catalogado
  • SANTOS, Renata. A sombra de Carmem. Bravo, São Paulo, n. 20, p. 130-7, maio 1999.
  • TBC apresenta Arena-Opinião. São Paulo: TBC, 1965. 1 programa do espetáculo realizado no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Não catalogado
  • TEATRO do Oprimido (Internacional). Disponível em: [http://www.theatreoftheoppressed.org/en]. Acesso em: 11/04/2007.
  • TEIXEIRA, Isabel (Coord.). Arena conta arena 50 anos. São Paulo: Cia. Livre da Cooperativa Paulista de Teatro, [2004]. CDR792A681
  • _______________. O palco amordaçado. Rio de Janeiro: Avenir, 1981.

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