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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Leopoldo Américo Miguez

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
1850 Brasil / Rio de Janeiro / Niterói
1902 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Leopoldo Américo Miguez (Niterói RJ 1850 - Rio de Janeiro RJ 1902). Compositor, regente, violinista, professor. Aos 2 anos, muda-se para a Espanha, terra natal de seu pai, e, aos 7, para Portugal, onde inicia seus estudos musicais no Liceu do Porto, com aulas de violino com Nicolau Medina Ribas, e de harmonia e composição com Giovanni Franchini....

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Biografia

Leopoldo Américo Miguez (Niterói RJ 1850 - Rio de Janeiro RJ 1902). Compositor, regente, violinista, professor. Aos 2 anos, muda-se para a Espanha, terra natal de seu pai, e, aos 7, para Portugal, onde inicia seus estudos musicais no Liceu do Porto, com aulas de violino com Nicolau Medina Ribas, e de harmonia e composição com Giovanni Franchini. Com 8 anos, executa a Fantasia sobre Motivos da Traviata, composta para ele pelo mestre Ribas. Na adolescência, além da música, prepara-se para o ofício do pai, que atua como comerciante. Retorna ao Brasil em 1871, aos 21 anos, trabalha como guarda-livros - profissão que se aproxima à de técnico em contabilidade atualmente - na Casa Dantas, no Rio de Janeiro. Seis anos depois casa-se com a filha de seu chefe, a pianista Alice Dantas, fato que também contribui para seus futuros negócios. Deixa seu emprego para associar-se ao pianista Artur Napoleão na empresa de piano e música Artur Napoleão & Miguez, que se torna uma editora de grande importância na época. Em 1881 abandona a empresa para dedicar mais tempo à música e à composição.

Aos 32 anos, Miguez viaja para a Europa, passa por Portugal e França e se instala em Bruxelas. Ali pode ter contato com o romantismo, principal corrente musical do velho continente no momento. Regressa ao Brasil dois anos depois, divulgando o romantismo europeu, que é, segundo o compositor alemão Richard Wagner, a "música do futuro". Dirige diversos espetáculos líricos e funda o Centro Artístico, onde reúne intelectuais tais como Alberto Nepomuceno, Coelho Neto e Luiz Castro, e promove a música wagneriana. Com o advento do governo republicano, um decreto cria o Instituto Nacional de Música no lugar do Conservatório de Música. Miguez, republicano convicto e de boas relações com o novo governo, recebe a direção do instituto. Dois dias após, em 20 de janeiro de 1890, é realizado um concurso para a escolha do novo hino nacional, vencido por Miguez entre 29 concorrentes. Entretanto, decide-se que o hino nacional continuaria sendo o de Francisco Manuel da Silva, ficando o hino vencedor do concurso oficialmente como o Hino da Proclamação da República.

Em comissão do governo brasileiro vai para a Europa, em 1895, para estudar a organização dos principais conservatórios daquele continente, localizados na Alemanha, França, Itália, Áustria e Bélgica. Dois anos mais tarde, escreve Marcha Elegíaca a Camões, por ocasião do terceiro centenário da morte do poeta, e Sinfonia em Si Bemol, para a homenagem ao marquês de Pombal. Compõe duas óperas com libretos de Coelho Neto, Pelo Amor (1897) e Os Saldunes, encenada pela Cia. de Ópera Giovani Sanzoni, no teatro lírico, em 1901. Em 1898, consegue doações e verbas para estabelecer a biblioteca do Instituto Nacional de Música e compra livros, partituras e instrumentos.

 

Comentário Crítico

Desde a proclamação da independência, em 1822, o Brasil acompanha o desenrolar de um paradoxo: o caminho pelo qual a política moderna constrói a liberdade e a igualdade entre as pessoas é o mesmo que promove uma separação radical entre as culturas do "povo" e da "elite". Os ideais divulgados na Europa passam a vigorar em formas distintas, e no Segundo Reinado, entre 1841 e 1889, a elite procura espelhar-se nos novos hábitos europeus para distinguir-se do "povo". O próprio modelo urbano e arquitetônico que passa a vigorar no Rio de Janeiro - baseado no da nova capital da modernidade, Paris - edifica a questão: em nome da modernidade e seus prédios (Theatro Municipal, Biblioteca Nacional, Escola Nacional de Belas Artes entre outros), a elite concentra-se no centro da cidade e as classes populares são expurgadas para a periferia. Tudo aquilo que lembra o atraso brasileiro (cortiços, pobres, batuques) deve ser posto abaixo ou afastado para longe.

Essas mudanças não são menos observáveis no campo da cultura: com o fim de promover concertos e manter grupos de câmara, surgem na capital do império clubes e sociedades como o Club Beethoven e a Sociedade de Concertos Clássicos (fundados em 1882 e 1883, respectivamente). Cultivam-se a ópera, o concerto, as danças e canções com piano quase em oposição a formas musicais populares, geralmente associadas aos pobres e aos negros. Cria-se assim uma dicotomia na qual a cultura das camadas populares entra como sinal de atraso e ignorância e a cultura das elites como signo de progresso e modernidade.

No fim da década de 1870, a importante editora Artur Napoleão & Miguez e, alguns anos depois, o Centro Artístico são fundados por Miguez. Ambos são assim como os clubes e sociedades pontos de encontro da intelectualidade do Rio de Janeiro, que pratica o xadrez, a leitura de peças para piano e discussões políticas entre outras atividades distintas. Ali o compositor escreve peças em estilo europeu para piano ou orquestra, sonatas, sonatinas, música de câmara e canções cultas com piano (lieder), que até então não são cultivadas na música nacional. Torna-se, assim, um pioneiro na composição brasileira do chamado "movimento romântico", que começa a fervilhar na Europa cerca de 40 anos antes.

Miguez, músico de formação europeia, é o grande divulgador do estilo de Richard Wagner no Brasil. Torna-se referência entre os compositores românticos brasileiros, que criam o hábito de viajar à Europa para conhecer o estilo ou para aperfeiçoar seu conhecimento. Não se nota em sua música nenhum traço de ritmos folclóricos ou regionais do Brasil, uma característica muito presente nos compositores da geração seguinte à sua. Nesse momento a ideologia das elites gostaria de "higienizar" seus territórios: cortiços são demolidos e afastados do centro da cidade assim como o maxixe ou a chula não devem figurar nos concertos de música erudita.

O poema sinfônico Avè Libertas, de 1890, comemora o primeiro ano de república no Brasil, e é dedicado ao marechal Deodoro da Fonseca. Nota-se que Miguez busca inspiração nos moldes europeus: assim como muitas de suas obras, a harmonia densa e os gestos românticos ligam-se ao estilo wagneriano, ao passo que a exaltação nacionalista segue o espírito libertário surgido no velho continente. É de sua autoria também a música do Hino da Proclamação da República, 1889, cujos brados de liberdade afirmam: "Nós nem cremos que escravos outrora / Tenha havido em tão nobre país", apesar de a Lei Áurea ter sido assinada há menos de dois anos. O paradoxal e característico em Miguez é que sua modernização brasileira e republicana nutre-se de ideias surgidas em solo europeu. O Hino de Proclamação da República populariza-se e ganha registro de Inezita Barroso, em 1963, do elenco da peça Liberdade, Liberdade (Nara Leão, Paulo Autran, Tereza Radial e Oduvaldo Vianna Filho), de Maria Lucia Godoy, em 1974, e do violeiro Paulo Freire, em 2003.

Fontes de pesquisa 6

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  • ALMEIDA, Renato. Historia da musica brasileira. 2 ed., Rio de Janeiro: Briguiet & Comp, 1926.
  • CORRÊA, Sérgio Nepomuceno Alvim. Leopoldo Miguéz - Catálogo de obras. ISBN: 85-88272-06-7, Academia Brasileira de Música: 2005.
  • LEOPOLDO Miguez, Ave, libertas! op. 18. Velas; Concertos, 22-C007 CD: faixa 7 22min40, 1994.
  • LEOPOLDO Miguez, Sonatas op. 14. Instituto Cultural Itaú, ATR 32066 CD: 30min52, 1998.
  • ORQUESTRA Sinfônica do Estado De São Paulo, Hinos brasileiros. Osesp, 2004.
  • SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na primeira República. 4 ed., São Paulo: Brasiliense, 1995.

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