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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Carmem Luz

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.04.2022
Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Carmen Luzia Ferreira (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1959). Artista multilinguagens, focada em questões da diáspora dos povos afrodescendentes, reconhecida por sua atuação em dança, teatro, cinema, políticas públicas e curadoria.

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Carmen Luzia Ferreira (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1959). Artista multilinguagens, focada em questões da diáspora dos povos afrodescendentes, reconhecida por sua atuação em dança, teatro, cinema, políticas públicas e curadoria.

Carmen Luz nasce em uma família pobre, no subúrbio do Rio de Janeiro, e toma gosto pela dança nos cultos de candomblé que frequenta com a mãe. Seu interesse pelas artes desperta na escola, aproximando-a da literatura e do teatro, atividade em que se inicia cedo. Desde os anos 1970, o foco no corpo que se move marca sua experimentação em apresentações no circuito do teatro alternativo.

No início da década de 1980, após audição com o diretor Domingos de Oliveira (1936-2019), passa a trabalhar como atriz e vê no teatro uma porta de entrada para a dança, isto é, uma forma de contornar a questão de classe que dificulta seu acesso à formação técnica na área.

Investe o que ganha de seus trabalhos em teatro na criação da Cia. Étnica de Dança e Teatro, que inaugura com a atriz e bailarina Zenaide Zen (1956-2011). Na companhia, Carmen escreve, dirige, produz e coreografa os espetáculos, embora se recuse inicialmente a assinar como coreógrafa.

Seu interesse artístico inicial é pelo corpo, mas só com a carreira em construção encontra em mestras como a bailarina Angel Vianna (1928) o incentivo para assumir as funções da dança. Mantém em seu trabalho, no entanto, o trânsito entre linguagens, misturando dança, teatro, artes visuais e audiovisual.

Em 1997, a Cia. Étnica é transferida para o Andaraí, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, e passa a coexistir com seu projeto social de oferecer oficinas de formação de técnicos, bailarinos e atores a moradores do Morro do Andaraí.

Carmen não mora na comunidade, mas a frequenta desde a juventude. Seu processo pedagógico insiste em sua colocação como estrangeira: considera-se uma artista com certos conhecimentos, que se coloca naquele espaço que não é o dela para trocar experiências com as pessoas da comunidade. Uma ideia de "quilombagem", de atuação coletiva que favoreça trânsitos, afetos e reconhecimento.

Esse tipo de pensamento é notável em seu trabalho em políticas públicas. Carmen recebe convites para dirigir o Centro Cultural José Bonifácio e, depois, o Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro. Nesses locais, inicia sua atividade como curadora, integrando gestão e programação com estratégias de aproximação das comunidades, promovendo atividades que desafiem seus públicos.

Para além da questão do repertório, a artista valoriza a reflexão sobre a comunidade que quer ocupar espaços e propõe conteúdos que alcancem além daquilo que os sujeitos esperam encontrar e daquilo cujo campo de visão o sistema procura limitar. É o que acontece no projeto Danças na Gamboa, que leva ao Centro José Bonifácio coreógrafos contemporâneos de diversas origens para trabalhar diferentes temáticas com os sujeitos que ocupam aquele espaço.

Olhar para si e olhar para o outro é um processo que se vê na assinatura artística de Carmen. Na obra Cobertores (2000), a Cia. Étnica, nesse momento composta por bailarinos formados pelos projetos no Andaraí, reflete sobre pessoas que vivem em situação de rua. O trabalho coreográfico da obra nos mostra um corpo que se move sem que seja visto: a coreógrafa parte da observação de pessoas andando enroladas em seus cobertores, que parecem se mover sozinhos. Essa construção ue sugere uma nova leitura dos parangolés do artista Hélio Oiticica (1937-1980).

Sua pesquisa adquire o viés de apropriação de referências acumuladas: aquilo que herdamos, mas também aquilo que não herdamos, mas a que temos direito, se soma àquilo que encontramos ao longo de nossa vida. Essa é uma questão que a coreógrafa vê no corpo, um problema formulado na vida cotidiana, nos encontros e desencontros dos afrodescendentes em diáspora. É a sua própria história e a sua experiência que se traduzem como temas, procedimentos e arte.

Na direção, esse processo parte da experiência pessoal dos intérpretes para falar para além deles mesmos: uma descoberta de si no próprio corpo, dos movimentos próprios, e um trabalho de subjetividade e identidade a partir de movimentos, técnica notável ao longo de seus trabalhos.

Carmen Luz produz em múltiplas áreas. O fundamental de seus trabalhos não está, entretanto, nos meios de apresentação, mas na centralidade da questão corporal e do indivíduo, que atravessa fronteiras entre os diversos campos.

O audiovisual já aparece em suas obras como elemento cênico e de projeção, mas o interesse pelo registro documental a leva aos estudos cinematográficos e ao trabalho em cinema. Seu documentário Um filme de dança (2013) circula por festivais e é reconhecido com premiações. Ele parte da problemática relação entre dança e racismo para apresentar artistas da dança negros e negras ao longo do tempo.

O formato híbrido do documentário alterna depoimentos em primeira pessoa com expressão artística dos corpos dançando, chamando a atenção para a temática da invisibilidade. O longa-metragem coloca os corpos em destaque, celebrando percursos notáveis, desde as trajetórias do Balé Folclórico da Bahia e de Mercedes Baptista (1921-2014) até chegar aos intérpretes de hoje.

A experiência afrodiaspórica permeia o trabalho de Carmen Luz enquanto tema e procedimento. Por meio da reapropriação cultural, a artista reflete sobre o corpo e os indivíduos, valendo-se de diversos meios e linguagens artísticas, recurso que caracteriza seu trabalho na dança, no teatro, no cinema, na formação, no serviço público e na curadoria.

Espetáculos 3

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