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Lívio Tragtenberg

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 11.06.2020
1961 Brasil / São Paulo / São Paulo
Lívio Romano Tragtenberg (São Paulo, São Paulo, 1961). Compositor, produtor musical e saxofonista. Filho do sociólogo e educador Maurício Tragtenberg (1929-1998) e da atriz Beatriz Tragtenberg (1935). Autodidata, começa a tocar bateria e a ler sobre teoria musical aos 13 anos. Conhece os poetas concretistas Décio Pignatari e irmãos Haroldo e Aug...

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Biografia

Lívio Romano Tragtenberg (São Paulo, São Paulo, 1961). Compositor, produtor musical e saxofonista. Filho do sociólogo e educador Maurício Tragtenberg (1929-1998) e da atriz Beatriz Tragtenberg (1935). Autodidata, começa a tocar bateria e a ler sobre teoria musical aos 13 anos. Conhece os poetas concretistas Décio Pignatari e irmãos Haroldo e Augusto de Campos, de quem recebe grande influência. A fim de se dedicar integralmente à música, abandona o segundo ano do ensino médio e passa a compor trilhas para curtas-metragens. Em 1980, grava seu primeiro disco, Ritual, que revela sua verve experimental.

Dedica-se à música dramática, compondo o balé-cantata O. de A. do Brasil (1984), encomendado pela Prefeitura de São Paulo para lembrar os 30 anos da morte de Oswald de Andrade, e as óperas Inferno de Wall Street (1987, com apoio do Prêmio Vitae) e Tatuturema (1991, com bolsa da Fundação Guggenheim), ambas sobre textos do poeta maranhense Sousândrade. Escreve sobre música no jornal Folha de S.Paulo, reunindo alguns dos textos na coletânea Artigos Musicais (Ed. Perspectiva, 1990).

Leciona no curso de música da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre 1990 e 1998. Em Contraponto: Uma Arte de Compor (Edusp, 1994), com base na experiência docente, procura diminuir a distância entre teoria e prática musicais. Em 1997, a convite da Cinemateca de São Paulo, cria com Wilson Sukorski uma trilha para o filme mudo São Paulo, Sinfonia da Metrópole (1929), de Rudolpho Lusting e Adalberto Kemeny.

Após 20 anos observando músicos de rua, em 2004, reúne 16 deles na Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo. Coletivamente, criam os espetáculos Neurópolis (2004), que resulta no disco homônimo de 2007, e Não Vendemos Fiado (2011). A mesma proposta é explorada pelo compositor no Rio de Janeiro, em Miami, Berlim e Bruxelas. Em 2005, reúne músicos populares da Grécia, Espanha, Marrocos, Sérvia, Brasil, Itália, França, Líbano e Turquia para criar a multiétnica Orquestra Mediterrânea.

Desde 2007, é curador da Jornada de Cinema Silencioso, em que convidados sonorizam ao vivo filmes mudos. Para o evento, cria em 2008 a Blind Sound Orchestra, formada por músicos cegos. É autor da trilha de diversos filmes, como Um Céu de Estrelas (1996) e Hoje (2011), de Tata Amaral, Brava Gente Brasileira (2000), de Lúcia Murat, Contra Todos (2004), de Roberto Moreira. Também é compositor e diretor musical de várias peças teatrais e de espetáculos de vídeo e dança. A criação sonora em espetáculos dramáticos é objeto de seu livro Música de Cena (Ed. Perspectiva, 1999).

No decorrer da carreira, grava 16 álbuns, entre eles Temperamental (1993), com Wilson Sukorski, ópera interativa composta de poemas de Décio Pignatari; Anjos Negros (1994), que traz sua obra Orfeu Suíte; Coleção de Novas Danças Brasileiras (2003), em que relê cantigas populares de diversas regiões do país; e Sonoroscópio (2004), trilha do documentário homônimo de Kiko Goifman sobre os sons de São Paulo. Em 2012, organiza o livro O Ofício do Compositor Hoje (Ed. Perspectiva), em que 14 nomes apresentam um panorama da cena musical brasileira contemporânea.

Análise

Avesso aos rótulos de músico ou artista multimídia, Lívio Tragtenberg prefere autodefinir-se como de-compositor, palavra que reforça o viés apropriativo de seu trabalho. Frequentemente, conjuga a música com outras linguagens, como teatro, cinema, poesia e artes visuais. Na fronteira entre o erudito e o popular, o jazz e a música contemporânea, o acústico e o eletrônico, sua obra se caracteriza pela variedade de formas (operística, sinfônica, camerística), materiais (instrumental, vocal, eletroacústico) e meios (disco, concerto, peça, filme, vídeo, instalação).

O gosto pela composição nasce com o interesse pela teoria, e não tanto com a prática musical. Inspira-se em diferentes compositores de vanguarda, como o francês Erik Satie, cuja obra questiona a função e o lugar da música e dos músicos; o norte-americano Charles Ives, que explora as diferentes potencialidades do som; o austríaco Arnold Schoenberg, de quem herda o gosto pelas estruturas; e o norte-americano Frank Zappa, cuja obra se encontra a meio caminho entre a música contemporânea, o jazz e o rock.

Suas obras instrumentais procuram experimentar timbres, formas e ritmos. Em Bazulaques Brasileiros, conjunto de 12 peças para piano preparado, insere diversos materiais - como borrachas, pregos e buchas plásticas - entre as cordas do instrumento, que são percutidas com as mãos, baquetas variadas e até um batedor de ovos, equipamentos baratos e cotidianos. A obra, composta com Marcelo Brissac e registrada a quatro mãos pelos compositores no disco homônimo (1998), explora ritmos populares brasileiros numa linguagem bastante percussiva.

Sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica, Tragtenberg explora frequentemente a manipulação sonora. A improvisação e a interatividade também são marcas de seu trabalho, que busca a colaboração de não músicos. Em 2010, na 29ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, enclausura-se numa jaula para denunciar a "falência do artista-gênio".1 A obra, intitulada Gabinete do Dr. Estranho, convida o espectador a gravar sua voz num microfone instalado do lado de fora da jaula. Em tempo real, o artista manipula os sons e os devolve ao visitante, numa "colaboração criativa" em que "a figura do artista [é mostrada] em constante processamento e estranhamento do mundo, e vice-versa".2

Tragtenberg faz duras críticas à indústria cultural, não apenas em sua obra ensaística, mas também em seu trabalho artístico, como o realizado com a Orquestra de Músicos das Ruas. Ignorados pelos transeuntes de São Paulo, esses artistas anônimos - alguns migrantes, representantes da cultura popular tradicional, como emboladores e sambistas; outros oriundos de importantes comunidades imigrantes, como japoneses e latinos - só são aplaudidos quando sobem num palco. O grupo revela a dimensão social e política da obra de Tragtenberg, que se dá não por meio de um trabalho social, mas por uma intervenção artística na cidade, revelando a pluralidade de suas vozes e escancarando sua diversidade.

Notas

1. VAZ, Juliana. Bienal tem obras feitas de carne e osso. Folha de S.Paulo, 3 out. 2010. p. E8.
2. Catálogo da 29ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo. São Paulo: Fundação Bienal, 2010.

Exposições 7

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Eventos relacionados 19

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Fontes de pesquisa 11

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  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996.
  • EICHBAUER, Hélio. [Currículo]. Enviado pelo artista em 24 de abril de 2011. Espetáculo: Anjo Negro - 1994.
  • MARIZ, Vasco. "Lívio Tragtenberg". In: História da música no Brasil. 6ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, p. 484.
  • Programa do Espetáculo - Barca dos Mortos - 1999.
  • Programa do Espetáculo - No Alvo - 1996.
  • Programa do Espetáculo - Um Céu de Estrelas - 1996.
  • TRAGTENBERG, Lívio. Artigos musicais. São Paulo: Perspectiva, 1990.
  • TRAGTENBERG, Lívio. Entrevista concedida a Teresinha Prada e Heloisa Duarte Valente. In: Revista Intermídias.com, ano 1, n. 4. Disponível em: <www.intermidias.com/anterior/fr_entrevista.htm>. Acesso em: 20 jan. 2012.
  • TRAGTENBERG, Lívio. Música de cena. São Paulo: Perspectiva, 1999.
  • VAZ, Juliana. "Bienal tem obras feitas de carne e osso". Folha de S. Paulo, 03/10/2010, p. E8.
  • VEIGA, Edison. "O maestro da metrópole". O Estado de S. Paulo, 27 de maio de 2009. <www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-maestro-da-metropole,394265,0.htm.

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