Artigo da seção pessoas Salim Miguel

Salim Miguel

Artigo da seção pessoas
Literatura  
Data de nascimento deSalim Miguel: 30-01-1924 Local de nascimento: (Líbano) | Data de morte 22-04-2016 Local de morte: (Brasil / Distrito Federal / Brasília)

Salim Miguel (Kfarsouroun, Líbano, 1924). Contista, romancista, jornalista e roteirista. Filho de um professor libanês cujas histórias lhe despertam a primeira paixão pela literatura, Salim Miguel chega ao Brasil aos três anos, em 1927, com sua família. Instalam-se em Biguaçu (SC), cidade que frequentemente servirá de cenário em suas obras. Nas décadas de 1940 e 1950, já havendo se transferido para a capital catarinense, integra o Grupo Sul, responsável por difundir o ideário modernista no estado e editar a revista Sul, entre 1949 e 1957. No mesmo período, compõe, com a mulher, a também escritora Eglê Malheiros (1928), o roteiro do primeiro longa-metragem catarinense, O Preço da Ilusão (1957). É ainda sócio da Livraria Anita Garibaldi e chefe do escritório da Agência Nacional em Florianópolis. 

Suspeito de chefiar o Partido Comunista (PC) em sua região, permanece preso por 48 dias após o golpe militar de 19641. A experiência marca seus textos, especialmente o romance Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia, de 1994. Ao ser liberado, muda-se para o Rio de Janeiro, onde edita, entre 1976 e 1979, a revista literária de alcance nacional Ficção. Ainda em 1979, retorna ao Sul do país, reassumindo o cargo na Agência Nacional e tornando-se assessor de imprensa e editor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). De 1993 a 1996, dirige a Fundação de Cultura de Florianópolis. Aposentado a partir de então, dedica-se exclusivamente à literatura.

A mescla entre realidade e ficção, história e memória, constitui a inflexão básica da obra de Salim Miguel. Não apenas porque seus escritos retomam fatos identificáveis à biografia do escritor, mas porque a estrutura e os temas dos textos obedecem, com frequência, ao ritmo próprio da reminiscência e à problemática de um sujeito que busca compreender momentos históricos específicos da perspectiva das próprias experiências pessoais. 

Este é o caso, por exemplo, do conto "Outubro, 1930", publicado em A Morte do Tenente e Outras Mortes (1979), em que o narrador, já adulto, volta às lembranças da infância, marcadas sempre por acontecimentos relacionados à Revolução de 19302. A dificuldade da criança em compreender os fatos políticos e a movimentação deles decorrente, episódios fragmentados e com pouco sentido aos olhos do menino, soma-se à angústia despertada por sua primeira experiência de morte – a de um amigo, durante uma brincadeira.

Em "Duas Velhinhas", de Velhice e Outros Contos, lançado em 1951, a procura por entendimento diante do vazio surge como esforço coletivo. A morte das misteriosas irmãs dá vazão aos anseios do narrador por reconstituir uma história desconhecida. Logo de início a angústia diante de um tempo que não se pode recompor é dada pela narração do momento em que, procurando por um tesouro, o narrador vasculha seus objetos – que, entretanto, se desfazem ao primeiro e mais delicado toque. A narrativa, em seguida, torna-se polifônica: as vozes dos habitantes da cidade presentes ao velório se confundem, criando o que poderia ser a história – com idas, vindas e contradições – das mortas. Impressões pessoais, pormenores, lendas familiares e episódios comuns aos habitantes locais unem-se no intuito de reparar a falta de compreensão. O narrador, contudo, encontra a impossibilidade de fazê-lo: “Pouco depois, é a terra a envolver no esquecimento aquelas vidas de um mundo sumido, que não viveram. Não viveram?”.

Já em "O Gramofone", do livro A Morte... (1979), um imigrante retorna, ao ouvir canções de sua adolescência, a episódios vividos quando ainda morava no Líbano. O movimento do relato segue a melodia da música – sendo inclusive interrompido quando é preciso virar o disco. Com esse artifício, a construção do texto ultrapassa o flashback, mimetizando o movimento próprio da reminiscência, em algo que, segundo Regina Dalcastagnè, é fundamental na obra do autor: “Salim Miguel possui um estilo muito próprio de contar: busca uma aproximação, tanto na estrutura quanto na linguagem, ao processo de funcionamento da memória”3.

O romance Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia é de suas obras mais identificadas à biografia, já que retoma o período em que, após o golpe militar de 1964, esteve preso. Publicado em 1994, é, entretanto, escrito em terceira pessoa, de modo a marcar a diferença entre o que foi vivido e a criação. A respeito dessa relação nos escritos de Salim Miguel, escreve Octavio Ianni (1926-2004): “A narrativa agarra-se a fiapos esgarçados e fugazes de lembranças, mesclando vivências e sofrenças, travessias e desencantos. É como se a história se transfigurasse em memória atravessada de esquecimentos”4.

Notas:

1. A ditadura militar se instaura em 1º de abril de 1964 e permanece até 15 de março de 1985. Os direitos políticos dos cidadãos são cassados e os dissidentes perseguidos.
2. Em meio à crise econômica mundial e às disputas internas pelo poder político e econômico, o presidente eleito, Júlio Prestes, é deposto. Getúlio Vargas assume a presidência do Brasil através de um golpe de estado.
3. DALCASTAGNÈ, Regina. A posse da memória. In: MIGUEL, Salim. Melhores contos. São Paulo: Global, 2009.
4. IANNI, Octavio. Ficção e história na obra de Salim Miguel. Jornal da UBE, São Paulo, out. 2002. nº 100, p. 7. Disponível em: http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/2010/veiculos_de_comunicacao/OES/OES0210100/OES0210100_04.PDF. Acesso em: 14 dez. 2009.

Outras informações de Salim Miguel:

  • Outros nomes
    • Salim Miguel
  • Habilidades
    • Escritor
    • Jornalista

Fontes de pesquisa (3)

  • AMÂNCIO, Moacir. Andanças literárias de Salim Miguel, 80 anos. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 25 jan. 2004. Caderno Cultura, página D 7. 
  • DALCASTAGNÈ, Regina. A posse da memória. In: MIGUEL, Salim. Melhores contos. São Paulo: Global, 2009.
  • IANNI, Octavio. Ficção e história na obra de Salim Miguel. Jornal da UBE, São Paulo, out. 2002. nº 100, p. 7. Disponível em: http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/2010/veiculos_de_comunicacao/OES/OES0210100/OES0210100_04.PDF.  Acesso em: 14 dez. 2009.

Como citar?

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  • SALIM Miguel. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa4145/salim-miguel>. Acesso em: 12 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7