Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Salim Miguel

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.01.2021
30.01.1924 Líbano
22.04.2016 Brasil / Distrito Federal / Brasília
Salim Miguel (Kfarsouroun, Líbano, 1924). Contista, romancista, jornalista e roteirista. Filho de um professor libanês cujas histórias lhe despertam a primeira paixão pela literatura, Salim Miguel chega ao Brasil aos três anos, em 1927, com sua família. Instalam-se em Biguaçu (SC), cidade que frequentemente servirá de cenário em suas obras. Nas ...

Texto

Abrir módulo

Salim Miguel (Kfarsouroun, Líbano, 1924). Contista, romancista, jornalista e roteirista. Filho de um professor libanês cujas histórias lhe despertam a primeira paixão pela literatura, Salim Miguel chega ao Brasil aos três anos, em 1927, com sua família. Instalam-se em Biguaçu (SC), cidade que frequentemente servirá de cenário em suas obras. Nas décadas de 1940 e 1950, já havendo se transferido para a capital catarinense, integra o Grupo Sul, responsável por difundir o ideário modernista no estado e editar a revista Sul, entre 1949 e 1957. No mesmo período, compõe, com a mulher, a também escritora Eglê Malheiros (1928), o roteiro do primeiro longa-metragem catarinense, O Preço da Ilusão (1957). É ainda sócio da Livraria Anita Garibaldi e chefe do escritório da Agência Nacional em Florianópolis. 

Suspeito de chefiar o Partido Comunista (PC) em sua região, permanece preso por 48 dias após o golpe militar de 19641. A experiência marca seus textos, especialmente o romance Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia, de 1994. Ao ser liberado, muda-se para o Rio de Janeiro, onde edita, entre 1976 e 1979, a revista literária de alcance nacional Ficção. Ainda em 1979, retorna ao Sul do país, reassumindo o cargo na Agência Nacional e tornando-se assessor de imprensa e editor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). De 1993 a 1996, dirige a Fundação de Cultura de Florianópolis. Aposentado a partir de então, dedica-se exclusivamente à literatura.

A mescla entre realidade e ficção, história e memória, constitui a inflexão básica da obra de Salim Miguel. Não apenas porque seus escritos retomam fatos identificáveis à biografia do escritor, mas porque a estrutura e os temas dos textos obedecem, com frequência, ao ritmo próprio da reminiscência e à problemática de um sujeito que busca compreender momentos históricos específicos da perspectiva das próprias experiências pessoais. 

Este é o caso, por exemplo, do conto "Outubro, 1930", publicado em A Morte do Tenente e Outras Mortes (1979), em que o narrador, já adulto, volta às lembranças da infância, marcadas sempre por acontecimentos relacionados à Revolução de 19302. A dificuldade da criança em compreender os fatos políticos e a movimentação deles decorrente, episódios fragmentados e com pouco sentido aos olhos do menino, soma-se à angústia despertada por sua primeira experiência de morte – a de um amigo, durante uma brincadeira.

Em "Duas Velhinhas", de Velhice e Outros Contos, lançado em 1951, a procura por entendimento diante do vazio surge como esforço coletivo. A morte das misteriosas irmãs dá vazão aos anseios do narrador por reconstituir uma história desconhecida. Logo de início a angústia diante de um tempo que não se pode recompor é dada pela narração do momento em que, procurando por um tesouro, o narrador vasculha seus objetos – que, entretanto, se desfazem ao primeiro e mais delicado toque. A narrativa, em seguida, torna-se polifônica: as vozes dos habitantes da cidade presentes ao velório se confundem, criando o que poderia ser a história – com idas, vindas e contradições – das mortas. Impressões pessoais, pormenores, lendas familiares e episódios comuns aos habitantes locais unem-se no intuito de reparar a falta de compreensão. O narrador, contudo, encontra a impossibilidade de fazê-lo: “Pouco depois, é a terra a envolver no esquecimento aquelas vidas de um mundo sumido, que não viveram. Não viveram?”.

Já em "O Gramofone", do livro A Morte... (1979), um imigrante retorna, ao ouvir canções de sua adolescência, a episódios vividos quando ainda morava no Líbano. O movimento do relato segue a melodia da música – sendo inclusive interrompido quando é preciso virar o disco. Com esse artifício, a construção do texto ultrapassa o flashback, mimetizando o movimento próprio da reminiscência, em algo que, segundo Regina Dalcastagnè, é fundamental na obra do autor: “Salim Miguel possui um estilo muito próprio de contar: busca uma aproximação, tanto na estrutura quanto na linguagem, ao processo de funcionamento da memória”3.

O romance Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia é de suas obras mais identificadas à biografia, já que retoma o período em que, após o golpe militar de 1964, esteve preso. Publicado em 1994, é, entretanto, escrito em terceira pessoa, de modo a marcar a diferença entre o que foi vivido e a criação. A respeito dessa relação nos escritos de Salim Miguel, escreve Octavio Ianni (1926-2004): “A narrativa agarra-se a fiapos esgarçados e fugazes de lembranças, mesclando vivências e sofrenças, travessias e desencantos. É como se a história se transfigurasse em memória atravessada de esquecimentos”4.

Notas:

1. A ditadura militar se instaura em 1º de abril de 1964 e permanece até 15 de março de 1985. Os direitos políticos dos cidadãos são cassados e os dissidentes perseguidos.
2. Em meio à crise econômica mundial e às disputas internas pelo poder político e econômico, o presidente eleito, Júlio Prestes, é deposto. Getúlio Vargas assume a presidência do Brasil através de um golpe de estado.
3. DALCASTAGNÈ, Regina. A posse da memória. In: MIGUEL, Salim. Melhores contos. São Paulo: Global, 2009.
4. IANNI, Octavio. Ficção e história na obra de Salim Miguel. Jornal da UBE, São Paulo, out. 2002. nº 100, p. 7. Disponível em: http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/2010/veiculos_de_comunicacao/OES/OES0210100/OES0210100_04.PDF. Acesso em: 14 dez. 2009.

Fontes de pesquisa 3

Abrir módulo

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: