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Literatura

Antônio Carlos Villaça

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.09.2016
31.08.1928 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
28.05.2005 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Antônio Carlos Rocha Villaça (Rio de Janeiro RJ 1928 - idem 2005). Ficcionista, memorialista, ensaísta e jornalista. Descendente do escritor português Ramalho Ortigão (1836 - 1915), Antonio Carlos Villaça nasce no bairro carioca de Botafogo, cresce na Tijuca, e estuda em colégios deste bairro. Ingressa no curso de direito da Pontifícia Universid...

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Biografia
Antônio Carlos Rocha Villaça (Rio de Janeiro RJ 1928 - idem 2005). Ficcionista, memorialista, ensaísta e jornalista. Descendente do escritor português Ramalho Ortigão (1836 - 1915), Antonio Carlos Villaça nasce no bairro carioca de Botafogo, cresce na Tijuca, e estuda em colégios deste bairro. Ingressa no curso de direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ), local em que conhece Tristão de Athayde (1893 - 1983), de quem se torna grande amigo. Resolve seguir a vida religiosa no Mosteiro de São Bento e na Ordem Dominicana, mas desiste em 1954. Um dos motivos da desistência é seu interesse em dedicar-se integralmente à literatura. Sua obra de estreia é um ensaio histórico sobre o barão do Rio Branco. Profere palestras, faz traduções e publica crônicas em jornais cariocas. O primeiro livro publicado é o elogiado O Nariz do Morto (1970), obra memorialista baseada na vivência do autor nos mosteiros que frequenta, e que recebe, no mesmo ano, o Prêmio Jabuti. A volta ao ensaísmo acontece em dois livros influenciados pelo interesse religioso: a História da Questão Religiosa (1974) e O Pensamento Católico no Brasil (1975). Ainda na década de 1970, reúne seus estudos críticos em livros como Encontros (1974), Literatura e Vida (1976), entre outros. Nos anos 1980, aventura-se também na literatura infantil, com a publicação de A Descoberta do Morro (1984), e volta aos estudos biográficos, com trabalhos sobre Manuel Bandeira (1886 - 1968)  e Tristão de Athayde. Morre no Rio de Janeiro em 2005. Alguns de seus textos são publicados postumamente em O Livro dos Fragmentos.

Comentário Crítico
Antonio Carlos Villaça pertence ao grupo de intelectuais católicos, como Alceu Amoroso Lima e Augusto Frederico Schmidt (1906 - 1965), para os quais a ação artística se exerce atrelada à reflexão religiosa. Mesmo não se definindo como "pensador católico", como, por exemplo, Gustavo Corção, é inegável, ao debruçar-se sobre a obra do autor, o reconhecimento de como problemas estéticos e preocupações religiosas comungam muitas vezes de forma bastante crítica, para não dizer audaciosa, em seus textos.

É o que acontece, por exemplo, em O Nariz do Morto (1970). Embora tenha já publicado outras obras, é nesse livro de memórias que Villaça aplica os principais elementos que caracterizam sua contribuição para a literatura brasileira. O volume recupera uma tradição memorialista que remonta a Joaquim Nabuco (1849 - 1910). Mas, como nota Wilson Martins, nele o autor reinventa o gênero, construindo uma narrativa em que mescla suas inquietações religiosas e estéticas a construção de perfis de personalidades literárias, políticas e eclesiásticas, muitas vezes de forma crítica e ácida.

Dividida em "Antes do Mosteiro", "No Mosteiro", "Depois do mosteiro", e com uma seção final intitulada "Sigismundo", a obra adota certo tom melancólico, proveniente das leituras que Villaça faz de filósofos existencialistas, e constrói com ele uma linguagem de forte influxo modernista. Sem o derramamento estilístico de Antonio Vieira ou Rui Barbosa (1849 - 1923) - oradores da predileção de Villaça -, os acontecimentos e personagens são apresentados em prosa límpida, feita de orações breves, escritas como se tivessem sido proferidas por um narrador que as rememora ao mesmo tempo que tece o discurso, fato certamente advindo da conhecida aptidão do autor como conferencista. Há também marcas de fluxo de consciência, sobretudo, nos momentos em que a rememoração se alia ao ato de remoer, às vezes com profundo sofrimento, as causas que afastam o autor da carreira religiosa, como ocorre em "No Mosteiro", ou também na seção final, "Sigismundo". É também na última parte que se reconhecem claramente as motivações da opção de Villaça pela vida de literato e "místico contemplativo" em detrimento da vida de homem da igreja.

Na mesma chave memorialista estão as obras O Anel, de 1972, na qual o mesmo fluxo de consciência está presente, mas agora como recurso que dá forma à estrutura narrativa; O Livro de Antônio (1974), que conta, entre outros acontecimentos, o seu encontro com o filósofo francês de orientação católica Jacques Maritain (1882 - 1973); e Monsenhor (1975), em que habilmente cria um narrador em terceira pessoa, no qual busca sintetizar suas inquietações religiosas e as transformações da Igreja Católica na segunda metade do século XX. As questões presentes em Monsenhor também levam Villaça a escrever dois ensaios: História da Questão Religiosa (1974) e O Pensamento Católico no Brasil (1975).

Embora mantenham a qualidade literária, essas obras, segundo Wilson Martins, não chegam a alcançar a força do livro de 1970, O Nariz do Morto. Contudo, reconhece em livros posteriores, Degustação (1994) e Os Saltimbancos de Porciúncula (1996), e já anunciado em O Livro de Antônio (1974), um elemento de destaque: o viés de moralista, não no sentido puramente ético do termo, mas sim no do escritor que, "à maneira de um Chateubriand ou de um La Bruyère", observa os fatos e os comenta filosoficamente. A diferença, no entanto, estaria no fato de que Villaça nomearia os personagens observados, como faz com Alceu Amoroso Lima, Graciliano Ramos (1892 - 1953), Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira (1886 - 1968), entre tantos outros com quem trava conhecimento.

A partir principalmente de Degustação, as narrativas de Villaça tornam-se cada vez mais breves, configurando-se como instantâneos do cotidiano de personalidades da segunda metade do século XX. Não à toa, uma publicação póstuma de memórias do escritor recebe o nome de O Livro dos Fragmentos (2005), com lembranças que envolvem tanto o padre Hélder Câmara quanto Getúlio Vargas.

O memorialismo de Villaça sintetiza sua relação visceral com a literatura. Relação espelhada fortemente em Manuel Bandeira, que representa para o escritor ideal ético e estético - um exemplo de forma de viver e forma de compor. Bandeira integra um conjunto de 21 artigos, retirados de jornais, sobre escritores brasileiros publicado com o título Itinerário de Pasárgada: Temas e Voltas, de 1975. Compõem ainda o livro textos sobre Cassiano Ricardo (1895 - 1974), Cecília Meireles (1901 - 1964), Otávio de Faria, entre tantos outros que fazem parte da vida e da literatura de Antônio Carlos Villaça.

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