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Teatro

Paulo César Bicalho

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 08.05.2017
10.04.1939 Brasil / Minas Gerais / São Gotardo
Paulo César Bicalho Franco (São Gotardo, Minas Gerais, 1939). Diretor, pesquisador, professor, autor, iluminador e cenógrafo. Conhecido pela ousadia de linguagem em seus espetáculos e pela criatividade como diretor. É pesquisador dos processos e métodos sobre o trabalho do intérprete. Polêmico e irreverente, desenvolve um teatro que reflete sua ...

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Biografia

Paulo César Bicalho Franco (São Gotardo, Minas Gerais, 1939). Diretor, pesquisador, professor, autor, iluminador e cenógrafo. Conhecido pela ousadia de linguagem em seus espetáculos e pela criatividade como diretor. É pesquisador dos processos e métodos sobre o trabalho do intérprete. Polêmico e irreverente, desenvolve um teatro que reflete sua relação com a sociedade, sempre enfrentando dogmas e transgredindo regras.

Inicia sua trajetória artística em 1960, como aluno de Giustino Marzano no Teatro Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais (TU/UFMG). Dois anos mais tarde, deixa a escola e funda, em parceria com a atriz e produtora Matilde Biadi, o grupo Teatro Arlequim, que depois se transforma em Teatro Equipe. O espetáculo de estreia do grupo é também a primeira direção de Paulo César, O Sol Gira ao Redor da Terra, de Andrej Widrizinsky, peça sobre a imposição de princípios e verdades pela Igreja.

Dirige seu segundo trabalho: A Mandrágora, de Maquiavel, em 1964. Ao mesmo tempo, engaja-se no movimento de resistência política contra a ditadura, como membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e participa do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC/UNE).

Monta, em 1965, Os Justos, de Albert Camus, peça até então inédita no Brasil. Na encenação do texto, que relata as dúvidas e contradições de um grupo revolucionário russo, é sensível a influência de Bertolt Brecht: para minimizar a carga emocional dos diálogos, o diretor projeta-os antes da fala dos atores. Nessa época, aposta no desenvolvimento de um polo teatral propriamente mineiro, independente do eixo Rio-São Paulo.

Em 1969, promove a estreia brasileira de A Noite dos Assassinos, de José Triana, montagem influenciada por Jean Genet e pela vanguarda europeia, em que utiliza elementos até então não experimentados em Minas Gerais, como a operação da luz e a manipulação de móveis e objetos pelos atores em cena, o que revela os diferentes pontos de vista das personagens sobre a cena. A peça causa polêmica não só pela inovação da linguagem, mas também por sua agressividade. Uma crítica de José Antônio de Souza dá a dimensão exata da importância dessa montagem para o teatro mineiro do período: "Um dos espetáculos mais importantes do país, A Noite dos Assassinos é até agora em Minas a consequência mais feliz desse processo, dessa insatisfação contra a cena acadêmica e a forma de comunicação acomodada. Aquela que realiza da maneira mais bem acabada até agora a insatisfação da geração nova no processo de renovação do teatro mineiro".1

Paulo César Bicalho monta, em 1976, O Filho do Boi Coringa, de Bley Barbosa, um espetáculo que busca o espírito debochado, leve e dinâmico do autor, trazendo para a cena a leitura urbana que o autor faz do meio rural. No ano seguinte, assume a coordenação do setor de teatro do Festival de Inverno da UFMG.

Trabalha na montagem de Dona Beja, em 1980, com a colaboração dramatúrgica de Mario Prata (1946) e textos inspirados nas improvisações dos atores. O mote do espetáculo é a ideia de que dona Beja - apelido de Ana Jacinta de São José, um dos grandes mitos da história de Minas Gerais que vive na cidade de Araxá, no século XIX -, nunca teria existido de fato e seria apenas uma invenção dos anos 1940 para promover a prática do jogo na cidade.

Em 1982, adapta e dirige O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, texto que espelha as angústias afetivas da geração do diretor e faz uma radiografia de Belo Horizonte no momento em que a cidade começa a assumir ares cosmopolitas. Otto Lara Resende considera primorosa a forma como o livro é encenado.2 A montagem é um grande sucesso de público e crítica em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília. Para o crítico Yan Michalski (1932-1990): "As imaginativas soluções da direção são responsáveis por vários momentos de impacto. Mas não é a noção de impacto que caracteriza a relação do espectador com aquilo que vê em cena, e sim a de um agridoce lirismo, de uma dolorida saudade das lembranças de um tempo que não voltará mais".3 Sábato Magaldi (1927-2016) também elogia o trabalho: "Sob o prisma da montagem, O Encontro Marcado participa das concepções avançadas, que informam a autêntica vanguarda brasileira. Não se vê um desejo de invenção gratuita, para brilho do encenador. Todos os recursos visam a servir ao texto, dentro de uma estética não ostensiva. [...] O Encontro Marcado prova que Minas Gerais está madura para exportar uma boa montagem, sem perder a condição de sede de um grupo permanente de teatro".4

Paulo César Bicalho monta, em 1987, o texto Tutte Cabrero - O Jogo do Vale Tudo, do argentino Roberto Cossa, dando continuidade à opção por uma dramaturgia "terceiro-mundista", iniciada com A Noite dos Assassinos.

Em 1989, encena Jorge Dandã - O Burguês Enganado, de Molière, numa montagem que privilegia o jogo teatral. Segundo o crítico Marcello Castilho Avellar: "Molière teria se apaixonado pelo espetáculo. [...] É um agudo elogio à esperteza, uma demonstração de que a versão dos fatos é muito superior aos fatos, que a verdade perde cada vez mais sua posição dentro de um mundo onde a hipocrisia é soberana, onde as aparências contam mais do que a essência, onde as regras sobrepujam os valores".5 Depois desse espetáculo, Paulo César Bicalho dedica-se à formação de atores no TU/UFMG, na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e no Centro de Pesquisa da Universidade Fundação Mineira de Educação e Cultura (Fumec).

Com sua filha Papoula Bicalho, em 1999, dirige o espetáculo de sua autoria Ó: A Família do Seu Nelsinho Tem Insônia!, um retrato da família contemporânea, tendo o universo de Nelson Rodrigues como referência - suas obsessões, seus mitos e preconceitos, capturados pelos atores com base na observação ativa de parentes e amigos. A escritora mineira Adélia Prado, em carta endereçada ao diretor, comenta: "Vi nesta peça o que raramente vejo em teatro, o corpo generosamente doado à expressão pura. Fiquei no princípio temerosa, no meio incomodada e ao final feliz! Direção e atores conseguem que você se reconheça na economia de tudo que lhe é oferecido. Não é assim a arte verdadeira?"6 

No espetáculo seguinte, Kaf Kaf Kafka - Uma Comédia Pós-Contemporânea: Você Ri no Mês Seguinte, que estreia em 2001, também em parceria com Papoula Bicalho, Paulo César participa dos processos de ensaio e atua como dramaturgo, investigando a linguagem de Franz Kafka. Explora a condição humana de seus personagens por meio de situações-limite e do patético de suas contradições, aprofundando o uso e as possibilidades do Método das Ações Físicas.

Em 2006, adapta e dirige, em mais uma parceria com Papoula, o romance O Último Vôo do Flamingo, experimentando a direção de atores voltada para a apreensão do universo poético e político de Mia Couto. Sobre o espetáculo, Mia Couto se manifesta no debate após a apresentação: "[...] o coração que eu tinha colocado nesse texto está presente de uma maneira muito forte, muito intensa. E eu estou muito comovido. Fiquei feliz que vocês não tentassem fazer uma coisa africana. Vocês fizeram uma coisa que é brasileira, que é assumidamente vossa. Mesmo que o cenário e provavelmente o tempo, a pausa, o silêncio sejam uma coisa que eu reconheço como meus também. Mas quem sabe quanto da África existe no Brasil, não é? A África está dentro de vocês".7

Além da atividade artística e da carreira docente, Paulo César Bicalho coordena o conselho editorial da coleção Teatro Brasileiro, da Hamdan Editora. Sua trajetória inclui contribuições ao Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de Minas Gerais (Sated/MG), como diretor de aperfeiçoamento do profissional de teatro e membro de comissões de estudos. É também um debatedor assíduo sobre a formação do ator, seja nas escolas e faculdades, seja em grupos de teatro.

Notas

1 SOUZA, José Antônio de. A Noite dos Assassinos e o teatro mineiro. Estado de Minas, Belo Horizonte, 1969.

2 BERNARDES, Luiz Carlos. Fernando, Otto e os Paulos se encontram. Estado de Minas, Belo Horizonte, 1982.

3 MICHALSKI, Yan. Angústias mineiras de 1940 e de sempre. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1982.

4 MAGALDI, Sábato. No palco, a aventura de Fernando Sabino. Com competência. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 26 out. 1982.

5 AVELLAR, Marcello Castilho. Jorge Dandã - o burguês enganado, diversão deslumbrante. Estado de Minas, Belo Horizonte, 8 abr. 1989.

6 PRADO, Adélia. Carta endereçada a Paulo César Bicalho, 1999.

7 COUTO, Mia. In: Voo poético e cultural pela África contemporânea na companhia de Mia Couto. Belo Horizonte: Teatro João Ceschiatti, 2 jul. 2007.

Espetáculos 46

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Fontes de pesquisa 20

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  • A Noite dos Assassinos. Estado de Minas, Belo Horizonte, 2 ago. 1969.
  • AROEIRA, Marileine. Vá ver Xexelenta, a oncinha que precisava de psiquiatra. Estado de Minas, Belo Horizonte, 10 fev. 1970.
  • ARREGUY, Clara. Vale tudo, o jogo da vida. Estado de Minas, Belo Horizonte, 16 mai. 1987.
  • AVELLAR, Marcello Castilho. Jorge Dandã - O Burguês Enganado, diversão deslumbrante. Estado de Minas, Belo Horizonte, 8 abr. 1989.
  • BERNARDES, Luiz Carlos. Dona Beja, teatro virando cometa?. Estado de Minas, Belo Horizonte, 5 out. 1980.
  • BERNARDES, Luiz Carlos. Fernando, Otto e os Paulos se encontram. Estado de Minas, Belo Horizonte, 1982.
  • BICALHO, Paulo César. Os anos heróicos do Teatro Arlequim e do Teatro de Equipe. Belo Horizonte: 1987. Entrevista concedida a Jota D'Ângelo.
  • BRANDÃO, Ronaldo. Vendo a Mandrágora. Diário de Minas, Belo Horizonte, 29 out. 1964.
  • CHRYSTUS, Miriam. Toda a força do Filho do Boi Coringa. Estado de Minas, Belo Horizonte, 10 nov. 1976.
  • COUTO, Mia. In: Vôo Poético e Cultural pela África Contemporânea na Companhia de Mia Couto. Teatro João Ceschiatti, Belo Horizonte, 2 jul. 2007.
  • FILHO, João Etienne. O Encontro Marcado, a peça. Suplemento Literário, ano XVIII, Nº 893. Belo Horizonte, 1983.
  • IGLÉSIAS, Francisco. Carta endereçada a Paulo César Bicalho. Belo Horizonte, 11 ago. 1969.
  • LEIRADELA, Cunha de. Tute Cabrero, uma orquestra de câmara. Jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, 1987.
  • MAGALDI, Sábato. No palco, a aventura de Fernando Sabino. Com competência. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 26 out. 1982.
  • MICHALSKI, Yan. Angústias mineiras de 1940 e de sempre. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1982.
  • MOTA, Morgan. Vejam A Noite dos Assassinos. Jornal Diário da Tarde, Belo Horizonte, 20 ago. 1969.
  • PRADO, Adélia. Carta endereçada a Paulo César Bicalho. 1999.
  • SOUZA, José Antônio de. A Noite dos Assassinos e o teatro mineiro. Estado de Minas, Belo Horizonte, 1969.
  • Tute Cabrero e o nu no teatro. Estado de Minas, Belo Horizonte, 3 jun. 1987.
  • Violência no teatro é tema de debates hoje com psicólogos. Estado de Minas, Belo Horizonte, 10 ago. 1969.

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