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Enciclopédia Itaú Cultural
Dança

Eugenia Feodorova

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.02.2017
17.10.1923 Ucrânia / a definir / Kiev
16.07.2007 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Eugenia Feodorova (Kiev, Ucrânia 1923 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007). Bailarina, professora e coreógrafa. Desde a infância, é estimulada pela família a dedicar-se às artes. Com suas irmãs, Katarina e Tatina, organiza em casa pequenos espetáculos teatrais com textos de escritores russos. Aos seis anos, ingressa na Escola Coreográfica Est...

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Biografia
Eugenia Feodorova (Kiev, Ucrânia 1923 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007). Bailarina, professora e coreógrafa. Desde a infância, é estimulada pela família a dedicar-se às artes. Com suas irmãs, Katarina e Tatina, organiza em casa pequenos espetáculos teatrais com textos de escritores russos. Aos seis anos, ingressa na Escola Coreográfica Estatal de Kiev, formando-se no método de balé clássico da bailarina e professora russa Agrippina Vaganova (1879 - 1951). Sua vida profissional começa, por volta de 1940, no Ballet da Ópera Nacional de Kiev1. Torna-se solista da companhia, mas interrompe sua carreira em 1941, quando tropas nazistas invadem a União Soviética (atual Rússia). Perde seus pais e uma das irmãs que foram levados mortos no campo de concentração. Ela escapa porque, no dia em que prenderam seus pais, estava ensaiando no teatro. "Minha irmã mais velha, Kátia, enrolou seus dois filhos em cobertores, e com eles, em pleno inverno, fugiu de trenó para Vinnitza [...]. Pouco depois, meus pais e Tânia, a caçula, foram assassinados pelos nazistas. Os três juntos no mesmo dia. Escapei porque estava ensaiando no teatro"². Posteriormente, é presa e enviada a um campo de concentração na Alemanha, lá permanecendo por dois anos. Com o término da guerra, passa a residir na Alemanha3. Em Munique, por volta de 1945, entra para a Companhia Orlikovsky, do coreógrafo russo Vaslav Orlikovsky (1921-1995), tornando-se primeira-bailarina. Com a companhia, realiza turnê pela Tchecoslováquia, Polônia e Bélgica. Em 1950, participa como primeira-bailarina do Théâtre Royal de Liége, Bélgica. É nesse país que inicia sua carreira de professora, ministrando aulas de balé na escola de Madame Alexeieva, em Bruxelas. Segue para a Itália e integra, como primeira-bailarina, professora e coreógrafa, a companhia Ballet do Teatro Scala de Milão (cerca de 1951), fazendo turnê pela Espanha. Exerce a função de professora na escola da dinamarquesa Madame Karen Taft, em Madri. Viaja para Paris e tem aulas com mestres russos, entre eles Olga Preobajenska (1871-1962) e Alexandre Volinine (1882-1955). Também dá aulas de dança entre 1952 e 1953 na cidade.

Conhece a bailarina brasileira Laura Proença (1939) e, por seu intermédio, é apresentada à bailarina e professora brasileira Dalal Achcar (1937). Achcar convida Feodorova a trabalhar no Brasil como professora e coreógrafa da companhia que pretende criar: o Ballet do Rio de Janeiro. Chegando à cidade em 1954, inicia suas atividades com os alunos da academia de Dalal, preparando a apresentação da versão completa de O Quebra-Nozes (1892), que estreia em 1956, no Teatro João Caetano. Inaugura sua própria escola, em 1957, trabalhando com a técnica de Vaganova. De 1958 a 1961, ocupa as funções de maître de ballet4 e coreógrafa no Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.5 Em 1959, remonta a versão completa de O Lago dos Cisnes (1895), pela primeira vez apresentado na América do Sul. Coreografa, em 1961, o segundo e o quarto ato do espetáculo O Descobrimento do Brasil6, ainda no BTMRJ. Sua escola se muda do Leblon para Copacabana, e lá estabelece a sede da Fundação Brasileira de Ballet (FBB) em 1961, sendo sua idealizadora. De 1964 a 1967, reassume sua função no Corpo de Baile Municipal carioca. É convidada, em 1974, a dirigir, na Ópera de Berlim, a temporada do Berliner Ballet. Leciona no Joffrey Ballet, em Nova York em 1980, 1985 e 1991. Nesse mesmo ano, é eleita vice-presidente do Conselho Brasileiro de Dança (CBD). Recebe vários prêmios e homenagens, destacando-se a medalha de ouro da Associação de Críticos Teatrais (1958), o Prêmio TV Tupi de Melhor Coreógrafa (1959), o troféu Nijinsky (1960), o Prêmio de Melhor Coreógrafa do Estado da Guanabara (1661), a medalha dos 70 anos do Theatro Municipal (1979) e a medalha de mérito artístico da dança do Conselho Brasileiro de Dança (1986).

Em 2001 é publicado o livro Eugenia Feodorova: a Dança da Alma Russa, escrito por Maribel Portinari (1939).

Comentário crítico
Bailarinos profissionais e amadores, colegas de trabalho, críticos e admiradores chamam-na de Dona Eugenia, a ucraniana que chega ao Brasil no dia do suicídio de Getúlio Vargas (1882-1954), então presidente do país. É nesse movimento de luto que Dona Eugenia desembarca em terras brasileiras, onde imprime no ensino da dança clássica o método7 de Agrippina Vaganova, o qual aprende nos anos de sua formação. Feodorova começa a lecionar na escola de Dalal Achcar e seu nome se espalha pelas salas de aula cariocas, sendo comentado e divulgado entre os bailarinos. Nesse período, além dos alunos da própria academia, figuras renomadas do mundo da dança clássica, como Armando Nesi, Aldo Lotufo (1925-2014), Bertha Rosanova (1930-2008), David Dupré (1928-1973), Eleonora Oliosi (1939), Jorge Siqueira, Maria Angélica e outros bailarinos do corpo de baile, são presenças constantes na classe da mestra. Na década de 1950, na cidade do Rio de Janeiro, a dança já possui seu lugar na administração pública. Há uma escola e um corpo de baile.

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro, inaugurado em 1909, recebe diversas companhias estrangeiras, entre elas: em 1913, Os Ballets Russes, de Serge Diaguilev (1872-1929); em 1916, Isadora Duncan (1878-1927); em 1918, a companhia de Anna Pavlova (1881-1931); e em 1921, a Cia. de Leonide Massine (1896-1979), todas retornando em outros períodos. É numa dessas apresentações que a bailarina russa Maria Olenewa (1896-1965) decide permanecer no Brasil, sendo ela responsável pela criação da escola e do corpo de baile oficial carioca. A técnica da dança russa se estabelece com primazia na cidade a partir de estrangeiros, que estiveram à frente da escola e do corpo de baile, como o tcheco Vaslav Veltchek (1897-1968), o russo Igor Schwezoff (1904-1982), a russa Nina Verchinina (1912-1995), a franco-russa, hoje cidadã brasileira, Tatiana Leskova (1922). É Dona Eugenia, que pertence a essa filiação, quem apresenta ao Brasil as versões completas para os balés de repertório, O Quebra-Nozes e O Lago dos Cisnes, este último quando ela assume a direção do corpo de baile, afirmando o apuro de seu estilo técnico e habilidade coreográfica nas remontagens. Essas duas obras são aclamadas pelo público e pela crítica. O pesquisador Eduardo Sucena (1920-1994) refere-se ao trabalho de Feodorova à frente da companhia da cidade afirmando:

Nossos bailarinos foram valorizados e sabiamente aproveitados. Não houve necessidade de estrelas importadas. Todo o fulgor foi conquistado por seus esforços e dedicação, orientados pela grande mestra que soube reconhecer seus valores e dar-lhes a oportunidade esperada e merecida8.

Dona Eugenia, ao longo de sua trajetória artística, tem na profissão de maître de ballet e pedagoga da dança seu emblema maior. A Academia de Ballet Eugenia Feodorova sempre esteve repleta de grandes nomes da dança clássica nacional, muitos consagrados pelos ensinamentos de Dona Eugenia, tais como: Eleonora Aragão, Isolina Sodré, Nair Moussatché, Norma Pinna, Roberto de Oliveira e Rosália Verlangieri. O aprimoramento técnico é o que os profissionais e estudantes da dança buscam em suas aulas, que vão além dos passos e belas sequências, pois a maestra os estimula aos estudos e à leitura. São aulas multidisciplinares que abrangem ensinamentos sobre anatomia, história da arte e discussões políticas visando formar bailarinos com visão crítica, a mesma que, para Feodorova, é extremamente importante para ser um mestre:

Os mestres devem estar sempre se atualizando. Mantendo contato com os centros de formação de professores. Recebo material, revistas, livros, partituras para as aulas. A arte evolui sem parar. É indispensável acompanhar essa evolução9.

 É nessa perspectiva que Feodorova inaugura a Fundação Brasileira de Ballet (FBB), entidade oficial que tem por função profissionalizar os bailarinos e criar meios de difundir a dança brasileira no país e no exterior. Seu objetivo pauta-se na criação de uma escola de balé e de um corpo de baile. De 1961 a 1974, a FBB realiza vários espetáculos em diversas cidades brasileiras, tendo como primeiros bailarinos Bertha Rosanova, Maria Angélica, Aldo Lotufo, Jorge Siqueira e Armando Nesi. Vigor, empenho e determinação são palavras-chave para fazer aula com a mestra, que salienta que para dançar balé é preciso de muito esforço físico e chegar ao limite de rendimento máximo, pois "aula leve não serve para profissional" .

Notas  
1 Atual Ballet Nacional da Ucrânia.

2 PORTINARI, Maribel. Eugenia Feodorova: a dança da alma russa. Rio de Janeiro: Funarte: Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 2001. p.22

3 Há divergência de informação, nas poucas fontes existentes, com relação ao país ao qual Feodorova segue após a guerra. Segundo Sucena (1989:404), ela parte para a França; já Portinari (2001:27) escreve que é a Alemanha o país de destino de Feodorova. Aqui, optou-se por essa última informação.

4 É responsável pela rotina de ensaios de uma companhia. Às vezes também atua como diretor, coreógrafo e professor.

5 Atual Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (BTMRJ).

6 Com música de Heitor Villa-Lobos e libreto de Circe Amado. O primeiro e o terceiro ato foram coreografados por Tatiana Leskova.

7 Método que se estabelece na década de 1920, sendo sistematizado em 1934.

8 SUCENA, Eduardo. A dança teatral no Brasil. Rio de Janeiro: Fundacen, 1989. p. 306.

9 PORTINARI, Maribel. Eugenia Feodorova: a dança da alma russa. Rio de Janeiro: Funarte: Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 2001. p.47.

10 Idem, p. 33.

Espetáculos 2

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Fontes de pesquisa 5

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  • DANÇA perde a professora Feodorova. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 18 de jul. 2007. Caderno 2, p. 6. Não Catalogada
  • FARO, Antonio José. Pequena história da dança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.
  • FARO, Antonio José; SAMPAIO, Luiz Paulo. Dicionário de balé e dança. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.
  • PEREIRA, Roberto. A formação do balé brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003.
  • PORTINARI, Maribel. Eugenia Feodorova: a dança da alma russa. Rio de Janeiro: Funarte: Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, 2001.

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