Artigo da seção pessoas Livia Garcia-Roza

Livia Garcia-Roza

Artigo da seção pessoas
Literatura  
Data de nascimento deLivia Garcia-Roza: 1940 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Livia Garcia-Roza (Rio de Janeiro, Rio de janeiro, 1940). Romancista, contista e psicanalista. Sua obra se estende por universos ficcionais que dialogam com a psicologia. Sempre em formato de prosa, ela lida com os dilemas sentimentais e afetivos da contemporaneidade, ao mesmo tempo que tangencia a denúncia de causas sociais, como a violência doméstica, o papel do idoso na sociedade e os conflitos entre gerações.

Filha de um advogado e uma harpista, Livia encontra-se desde cedo imersa no universo das letras e das artes. Ainda durante a juventude faz incursões pelo teatro, mas escolhe a psicanálise como atividade profissional. Conclui a pós-graduação em psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e exerce a análise clínica por muitos anos, tarefa que influencia sua expressão ficcional.

A estreia na literatura se dá com o livro Quarto de Menina (1995), no qual já se observam marcas que perpassam toda a obra da autora: a narrativa do ponto de vista da criança, o humor, a caricatura do cotidiano familiar e relatos sobre os impulsos sexuais. Embora tenha sido categorizado pela Fundação Nacional para o Livro Infantil e Juvenil como “livro altamente recomendável” aos mais jovens, o romance é de difícil classificação. Ele retrata as descobertas da infância, mas é possível ler uma voz literária feminina a lidar com os mistérios do corpo e o despertar dos desejos. Por isso mesmo, a obra comunica-se com públicos variados. A narradora é uma pré-adolescente que descreve a sua visão sobre a própria família: os pais, divorciados, são fonte de conflitos obscuros, que ela se esforça para compreender por meio de sua própria lógica.

Para além de romances, Livia Garcia-Roza desenvolve histórias curtas. Em Restou o Cão e Outros Contos (2005), há retratos do cotidiano em narrativas cujo formato se assemelha às crônicas do jornalista recifense Nelson Rodrigues (1912-1980) e do escritor mineiro Rubem Fonseca (1925-2020). Recursos literários como a oralidade reforçam o valor realístico da escrita da autora. Um dos temas centrais do livro é a reação humana ao medo, sentimento que se define como motor de várias preocupações dos personagens: a vaidade, a raiva, o ciúmes, o tédio e a inveja.

Há entre os contos do livro as seguintes situações: uma menina que se prostitui questiona um cliente sobre a sua aparência; um marido abusivo violenta a esposa por não concordar com a roupa que ela usa; um rapaz tímido tenta conquistar a amiga do irmão mais velho. Tais indivíduos respondem a conflitos existenciais cada um à sua maneira. A linguagem explora ora a perspectiva do próprio sujeito que vive a ação, ora a voz dos agentes que influenciam essa ação. Dessa forma, a obra subverte a diferença entre narrador e personagem, em discursos que espelham o vetor e as consequências dos sentimentos humanos.

Livia representa literariamente mecanismos psicológicos documentados pela teoria da psicanálise, como o recalque, a projeção, o espelhamento e a castração. Isso ocorre, por exemplo, em Milamor (2008), em que a autora mergulha no tema do envelhecimento e aborda a visão da mulher sobre a terceira idade. O livro narra a história de uma mãe que passa a morar com a filha após a perda do marido, em uma relação que se desenvolve influenciada por um conflito de gerações. O leitor acompanha a narrativa a partir da visão da mãe, enquanto os laços familiares se deterioram. A protagonista busca se analisar na tentativa de resgatar sua identidade, usando recursos de autoanálise que requerem ferramentas como o memorialismo, o fluxo de consciência e a autopercepção dos processos cognitivos. Ao colocar a voz de uma mulher idosa em primeiro plano, o texto também contribui para a discussão sobre dois aspectos da contemporaneidade: as questões de gênero e o lugar do idoso.

Outra característica importante na obra de Garcia-Roza é a subversão da lógica de histórias infantis, pela qual a autora dá um novo propósito à tradição literária. Em Era Outra Vez (2009), ela faz isso ao desenvolver com humor um tema fundamental para os estudos de psicanálise: as narrativas populares e os contos de fadas. Nesse livro, as conhecidas lendas tomam um rumo diferente do habitual. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, conversa pelo telefone com o Lobo Mau; ele se justifica dizendo que não tem vontade de comer a Vovozinha e demanda que a história seja recontada. A mãe da menina se assusta quando o animal chega à casa delas pedindo esclarecimentos; a filha, ao contrário, tenta resolver a situação, dialogando com o Lobo. Percebe-se que os papéis se invertem: o lobo não é mais o vilão de quem a criança foge, o adulto é quem tem medo do monstro, e a Chapeuzinho Vermelho deve assumir a responsabilidade e tomar as rédeas da situação. Isso permite repensar tais narrativas, cujos significados sempre estiveram ligados aos anseios humanos mais profundos e ao senso de moralidade.

Por serem capazes de identificar a extravagância psicológica por trás de ações humanas e expressá-la por meio de cenas do cotidiano ou surrealistas, os escritos de Livia Garcia-Roza recebem notoriedade no cenário de literatura brasileiro, sendo reconhecidos como o ponto de convergência entre a linguagem literária e a psicanálise clínica.

Outras informações de Livia Garcia-Roza:

  • Outros nomes
    • Lívia Garcia Roza
  • Habilidades
    • Escritora
    • psicanalista

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Fontes de pesquisa (4)

  • ALVES, Cristiane da Silva. Novos tempos, vozes antigas: os narradores velhos na narrativa ficcional brasileira do século XXI ou de como ficou difícil ouvir os velhos ou de como a ficção enfrenta o tabu da velhice. Tese (Doutorado em Letras). Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.
  • CAVALCANTI, Camillo. O Medo em Restou o Cão, de Livia Garcia-Roza. Cadernos do CNLF, Vol. XVI, No 04, t. 1 – Anais do XVI CNLF, p. 959.
  • GONTIJO, Raquel Lenne Borges Gontijo; SILVA, Olívia Aparecida. A Incomunicabilidade e a Fluidez das Relações Amorosas em Milamor, de Lívia Garcia-Roza. Revista Porto das Letras, Vol. 02, Número Especial, 2016.
  • XAVIER, Elódia. Livia Garcia-Roza e o Paradoxo Familiar. Estudos Linguísticos e Literários, n. 59, jan. a jun. 2018, Salvador: p. 94-99.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LIVIA Garcia-Roza. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa404760/livia-garcia-roza>. Acesso em: 18 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7