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Enciclopédia Itaú Cultural

Wilson Bueno

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.01.2021
1949 Brasil / Paraná / Jaguapitã
30.05.2010 Brasil / Paraná / Curitiba
Wilson Bueno (Jaguapitã, Paraná, 1949 – Curitiba, Paraná, 2010). Escritor, cronista, poeta e editor. Com um estilo literário de grande inventividade formal e linguística, sua produção situa-se em posição intermediária entre conto, crônica, poesia e romance. Atua também como colunista em diversos jornais brasileiros e editor do premiado jornal li...

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Wilson Bueno (Jaguapitã, Paraná, 1949 – Curitiba, Paraná, 2010). Escritor, cronista, poeta e editor. Com um estilo literário de grande inventividade formal e linguística, sua produção situa-se em posição intermediária entre conto, crônica, poesia e romance. Atua também como colunista em diversos jornais brasileiros e editor do premiado jornal literário paranaense Nicolau.

Passa a primeira infância em Jaguapitã (PR). Bisneto de índia guarani com alemão, Bueno tem origem campesina. O pai é lavrador e a mãe costureira. Entre os 18 e os 30 anos, vive no Rio de Janeiro uma libertação sexual, literária e de valores.

Na capital fluminense, Bueno assina uma coluna no jornal Tribuna da Imprensa, publicando textos de oposição à ditadura militar da época. Os textos são tão herméticos que escapam à censura prévia do regime autoritário. No período, Bueno fica íntimo de escritores como Paulo Leminski (1944-1989) e Caio Fernando Abreu (1948-1996), que influenciam e incentivam sua produção.

Bueno volta a Curitiba em 1980. Em 1986, lança seu livro de estreia, Bolero's Bar, uma seleção de crônicas publicadas em sua coluna Conversa Vadia, do jornal Correio de Notícias, e outras produzidas durante a vivência carioca. São sobretudo narrativas da vida provinciana de Curitiba. 

Em 1987, Bueno torna-se editor-chefe do jornal literário Nicolau, cargo que ocupa até 1994. No período, o tabloide voltado para crítica literária e tradução alcança reconhecimento internacional e vence o prêmio de melhor veículo de divulgação cultural do ano, em 1987, da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), e o de melhor jornal cultural do Brasil pela International Writers Association, em 1994.

Nicolau serve como laboratório literário para Bueno, que pode testar a recepção de seus textos pela crítica e constituir uma rede de colaboradores e divulgadores de sua obra. 

Em Manual de Zoofilia (1991), o escritor cria um catálogo taxonômico ficcional. São descrições poéticas de seres, reais ou imaginários, com influência das lendas da tradição oral.

Bueno lança em 1992 a novela Mar Paraguayo, trabalho de maior reconhecimento no Brasil e no exterior. O livro é tecido por micronarrativas e atravessado pela manifestação do léxico indígena e do espanhol, configurando uma língua própria, entre o portunhol e o guarani. O encontro entre os idiomas, ora harmônico, ora conflituoso, é também a mescla dessas culturas, própria da vida na fronteira.

Seu próximo livro, Cristal (1995), é um romance curto que conta a história de Velha, uma senhora sem filhos que adota um menino órfão. Velha é obcecada pela vontade de ter uma filha, o que a leva a criar o menino adotado como se fosse mulher. Escrito num intenso exercício poético, o livro alterna a narração entre primeira e terceira pessoa, com uso frequente do discurso indireto livre.

Em Pequeno Tratado de Brinquedos (1996), Bueno apresenta um livro de 58 poemas curtos, à forma dos tankas1 japoneses. A intertextualidade com a linguagem inventiva de Guimarães Rosa (1908-1967) vem desde o título, retirado de uma entrevista do autor.

Em Jardim Zoológico (1999), o autor segue a forma do bestiário, com verbetes curtos que apresentam animais fantásticos. Com a novela Meu Tio Roseno, a Cavalo (2000), Bueno traz novamente a influência da oralidade e da cultura tradicional. Nessa narrativa breve, temos as múltiplas peripécias de Roseno, que galopa em seu cavalo pelos arredores da fronteira entre Mato Grosso do Sul, Paraná e Paraguai em busca de Doroí, prestes a parir a filha do cavaleiro. Novamente, mesclam-se portunhol e guarani num idioma híbrido, que representa também uma cultura miscigenada.

Com o romance Amar-te a Ti Nem Sei se com Carícias (2004), Bueno traz uma investigação linguística e histórica acerca do português falado no século XIX. O resultado é um texto repleto de arcaísmos e construções que podem soar cômicas aos leitores contemporâneos.

Cachorros do Céu (2005) é um livro de "fábulas desmoralizantes"2 dedicado à mãe do autor, segundo ele, mestra na arte de contação de histórias. Mais uma vez, transparecem as referências biográficas de Bueno, ligadas ao campo, à natureza e à cultura popular.

A Copista de Kafka (2007) é uma obra de gênero indefinido, entre o romance e o conto. Trata-se de uma ficção histórica que intercala eventos biográficos do autor de A Metamorfose (1915) com narrativas inspiradas na estética e nas temáticas kafkianas.

Mano, a Noite Está Velha (2011), obra de maior apelo autobiográfico do escritor, é publicada postumamente e constitui uma trama em que o real e o ficcional se tornam muitas vezes indistintos. O livro é a carta de um sexagenário a seu irmão falecido, em que o protagonista-narrador apresenta e discute eventos importantes da vida familiar de ambos. 

Escritor fronteiriço, Wilson Bueno tem vasta produção literária situada entre gêneros. Sua obra constitui uma investigação prática acerca dos limites da língua portuguesa, em sua relação com os demais idiomas e culturas que nos cercam e permeiam. O experimentalismo linguístico com base na tradição oral, na cultura popular e no passado colonial brasileiro faz de sua literatura um objeto de estudo acadêmico sobre a formação histórica da América do Sul.

 

Notas:

1. Tanka é uma forma poética japonesa, composta de cinco versos com um total de 31 sílabas, 5-7-5-7-7, respectivamente. Cf. YAMAMOTO, Cícera Rosa Segredo. Tradição e modernidade: os tankas na poética de Wilson Bueno. 2012. 106 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Três Lagoas, 2012. p. 9.

2. Cf. SOUZA, Marco Aurélio de. A história desfigurada: desterritorialização e experiência do fora em Amar-te a ti nem sei com carícias, de Wilson Bueno. 2015. 88 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2015. p. 23.

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