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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Manoel de Barros

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 05.06.2020
19.12.1916 Brasil / Mato Grosso / Cuiabá
13.11.2014 Brasil / Mato Grosso do Sul / Campo Grande
Reprodução fotográfica Marcelo Buainain

Retrato de Manoel de Barros
Marcelo Buainain, Manoel de Barros

Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, Mato Grosso, 1916 - Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 2014). Poeta. Concentrando-se em temas e situações do cotidiano, surpreende o leitor com uma linguagem simples e, ao mesmo tempo, inovadora. Principalmente nos livros publicados a partir dos anos 1960, sua escrita expande os limites da língua, ao reun...

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Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, Mato Grosso, 1916 - Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 2014). Poeta. Concentrando-se em temas e situações do cotidiano, surpreende o leitor com uma linguagem simples e, ao mesmo tempo, inovadora. Principalmente nos livros publicados a partir dos anos 1960, sua escrita expande os limites da língua, ao reunir sentidos aparentemente incompatíveis em construções que extrapolam a gramática padrão.

Um de seus temas recorrentes é a infância. Realiza-se inicialmente pelo mergulho na memória, com cenas e personagens que remetem à própria infância em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Essa presença é evidente no livro de estreia, Poemas Concebidos Sem Pecado (1937), que se abre com “Cabeludinho”, composição narrativa em 11 partes, dedicada a retratar a convivência desse menino no bairro e sua descoberta como poeta. O mesmo ambiente surge nas seções seguintes do livro, concentradas em personagens pobres e singulares, como “Seu Zezinho-margens-plácidas” e a prostituta “Antoninha-me-leva”.

No segundo livro, Face imóvel (1942), a paisagem é a cidade do Rio de Janeiro, onde  vive de 1928 a 1940 e completa os estudos básicos e a formação em Direito. Mais ligados a uma poética modernista, os versos do período mostram a influência de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Murilo Mendes (1901-1975) na orientação para o exterior e na vontade de recuperar o cotidiano impessoal da cidade. Entre 1943 e 1945, o poeta realiza uma série de viagens: a Nova York, onde frequenta cursos de cinema e pintura no MoMA, a Roma, Paris, Lisboa, Bolívia e Peru. Em 1956, publica Poesias, que recua para um lirismo mais convencional, com elementos como “[...] florescer de tarde/ De amor, no cais!”.

Em seguida, com Compêndio para Uso dos Pássaros (1961), Barros atinge o que os especialistas consideram a consolidação de seu estilo. Neste livro, escrito após se estabelecer novamente no estado natal, no Pantanal mato-grossense, faz da infância fonte de imagens ou personagens e ponto de vista buscado pelos poemas e matriz da linguagem poética. “Penso que só com a desarrumação sintática se consegue atingir o criançamento do idioma”, resumiria em entrevista, aludindo à liberdade com que manipula a língua, de modo avesso à lógica: “O menino caiu dentro do rio, tibum,/ ficou todo molhado de peixe”; “Meu bolso teve um sol com passarinhos”.

O experimentalismo se torna mais intenso no título seguinte, Gramática Expositiva do Chão (1969), que diversifica os recursos empregados. Há uso intenso de enumerações, trânsito entre os registros narrativo e descritivo, criação de poemas como notas de rodapé e diálogos entre o poeta e seres animizados. Nessa obra, como sugere o título, existe a busca por elementos rasteiros, triviais, elevados à condição de poesia pelo artista, que, identificado como “desherói”, “recolhe [...] seus companheiros pobres do chão”.

Esse mesmo interesse pelas “coisas inúteis” origina a composição que dá título ao livro seguinte, Matéria de Poesia (1970), espécie de arte poética: “Todas as coisas cujos valores podem ser/ disputados no cuspe à distância/ servem para poesia”, afirma a primeira estrofe, equiparando a poesia a um jogo simples, praticado por meninos na rua. Essa visão adquire valor social quando, algumas estrofes adiante, o poeta afirma sua postura de resistência diante da realidade: “Tudo aquilo que a nossa/ civilização rejeita, pisa e mija em cima/ serve para poesia”.

O modo característico como manipula a linguagem encontra seu ponto culminante em Arranjos para Assobio (1982), de composições metapoéticas. Além de seguir definindo o valor da poesia por sua inutilidade (“A poesia é antes de tudo um inutensílio”) e sua relação com o mais baixo (“Aceita-se entulho para o poema”), o livro trabalha a gramática, a semântica e o léxico com liberdade.

Novas palavras se formam (“manhã-passarinho”), palavras eruditas e baixas convivem no mesmo verso (“A imarcescível puta preta”), verbos são tomados como substantivos e substantivos como verbos (“Dentre grades se alga, ele!”), substantivos abstratos se tornam concretos (“pulou o silêncio”). Procedimentos que se multiplicam, fazendo com que elementos de naturezas diversas se comuniquem de forma inesperada.

O Livro de Pré-coisas (1985), traz poemas em prosa que retomam o Pantanal como lugar de origem do poeta e símbolo de uma comunhão entre homem e natureza que se deseja reconstituir. Junto com O Guardador de Águas (1989), a crítica reconhece em ambos um processo de amadurecimento. Consolidados, temas e procedimentos continuam sendo trabalhados em títulos como

O Livro das Ignorãças (1993) e Livro sobre Nada (1996) – que fortalecem seu reconhecimento junto ao público – e Exercícios de Ser Criança (1999), sua estreia na literatura infantil.

Com uma produção que soma mais de vinte títulos, traduzidos para diversos idiomas, como espanhol, francês e alemão, Manoel de Barros se consolida como o poeta das insignificâncias, conquistando interessados na maneira como seus versos promovem o reencantamento do mundo.

Obras 3

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Exposições 4

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Eventos relacionados 3

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Fontes de pesquisa 14

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  • BARBOSA, Luiz Henrique. Palavras do chão: um olhar sobre a linguagem adâmica em Manoel de Barros. São Paulo: Annablume/FUMEC, 2003.
  • CARPINEJAR. Fabrício. Manoel de Barros: poesia para reciclar. Digestivo Cultural. Seção Colunas, agosto 2006. Disponível em: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2018&titulo=Manoel_de_Barros:_poesia_para_reciclar. Acesso em: 20 jul. 2007.
  • CARRASCOZA, João Anzanello. O consumo, o estilo e o precário na poesia de Manoel de Barros. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso, São Paulo, v. 13, n. 1, p. 5-16, nov 2017. Disponível em: < https://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/article/view/33491/24199 >. Acesso em: 20 fev. 2019.
  • CASTELLO, José. Inventário das sombras. 2.ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.
  • CASTRO, Afonso de. A poética de Manoel de Barros: a linguagem e a volta à infância. Campo Grande: FUCMT-Universidade Católica Dom Bosco, 1992.
  • MARINHO, Samarone. Manoel ama lembrar: uma interpretação à poética de Manoel de Barros. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014.
  • MARTINS, Bosco e DIEGUES, Douglas. Aos noventa anos Manoel de Barros se considera um songo. Cronópios-Literatura e Arte no Plural. Seção Artigos, dezembro 2006. Disponível em: http://cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=2030. Acesso em: 20 jul. 2007.
  • Morre, aos 97 anos, o poeta Manoel de Barros em Campo Grande. G1. Disponível em: http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2014/11/morre-aos-97-anos-o-poeta-manoel-de-barros-em-campo-grande.html. Acesso em: 13 nov. 2014.
  • MÜLLER, Adalberto (Org.). Manoel de Barros. Rio de Janeiro: Azougue, 2010. (Encontros).
  • OLIVEIRA, Vanderluce Moreira Machado. A reescritura poética de Manoel de Barros. Curitiba: Appris, 2016.
  • PINHEIRO, Carlos Eduardo Brefore. Entre o ínfimo e o grandioso, entre o passado e o presente: o jogo dialético da poética de Manoel de Barros. São Paulo: Casa das Musas, 2013.
  • RICCIARDI, Giovanni. Manoel de Barros. In:______. Auto-retratos. São Paulo: Martins Fontes, 1991. p.91-102.
  • SOUZA, Elton Luiz Leite de. Manoel de Barros: a poética do deslimite. Rio de Janeiro: Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj): 7Letras, 2010.
  • WALDMAN, Berta. A poesia ao rés do chão. In: Barros, Manoel. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990. p. 11-32.

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