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Teuda Bara

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.01.2021
01.11.1941 Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte
Teuda Magalhães Fernandes (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1941). Atriz. Reconhecida pela longa trajetória teatral como integrante-fundadora do Grupo Galpão e por uma extensa lista de personagens atravessada por sua persona inconfundível, que a torna ícone do teatro brasileiro. Constrói uma carreira artística marcada pelo humor debochado, pela hab...

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Teuda Magalhães Fernandes (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1941). Atriz. Reconhecida pela longa trajetória teatral como integrante-fundadora do Grupo Galpão e por uma extensa lista de personagens atravessada por sua persona inconfundível, que a torna ícone do teatro brasileiro. Constrói uma carreira artística marcada pelo humor debochado, pela habilidade em jogar com atributos pessoais, como a presença corpulenta e exuberante, a eloquência e a gargalhada solta.

Nos anos 1970, estuda ciências sociais na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), enquanto trabalha em uma livraria. Inicia a prática teatral sem formação prévia no teatro-jornal da faculdade. Desinteressada pela linguagem acadêmica, em busca de uma comunicação mais popular, interrompe o curso superior no terceiro ano.

Estreia no teatro como assistente do diretor Eid Ribeiro (1943) em Fala Baixo Senão Eu Grito (1973), e funda o grupo Fulias Banana, com o ator Adyr Assumpção, que lhe atribui o nome artístico inspirado na atriz americana Theda Bara (1885-1955). No fim da década, muda-se para São Paulo para trabalhar com o encenador José Celso Martinez Corrêa (1937) em Ensaio Geral do Carnaval do Povo (1979).

Retorna no ano seguinte a Belo Horizonte e, em 1982, após participar da oficina ministrada pelo coreógrafo alemão George Froscher (1927-2015) e o ator alemão Kurt Bildstein (1928), do Teatro Livre de Munique, funda o Grupo Galpão com Fernando Linares, Antonio Edson, Eduardo Moreira e Wanda Fernandes.

Teuda atua na maior parte dos espetáculos realizados pelo grupo, desenvolvendo um teatro de raízes populares e dramaturgia clássica, estrangeira e brasileira, para rua e palco, com elementos de commedia dell’arte, circo e música. Por ser um agrupamento sem direção fixa, os atores e atrizes lançam-se em diferentes poéticas, conforme o diretor ou diretora convidado a cada trabalho.

A atriz assume o papel da ama em Romeu e Julieta (1992), com falas estridentes e grandes sacos plásticos presos sobre os seios, a balançar. Destaca-se em um elenco todo afinado à proposta de um Shakespeare barroco e mineiro, trabalho de maior repercussão na trajetória do grupo. O crítico Nelson de Sá (1968) escreve: “O Galpão é tão responsável quanto [o diretor] Gabriel Villela. Seus atores [...] falavam o texto com maior facilidade. Saltavam do bom humor mais escrachado para a tristeza mais carregada, mais sincera, mais doída. [...] Teuda Bara, a ama de Julieta, roubava a cena a toda hora”1.

O trabalho seguinte, também com o diretor de teatro Gabriel Villela (1958), Rua da Amargura (1996), rende à atriz uma indicação ao Prêmio Shell pela atuação como Virgem Maria. Em 2000, Romeu e Julieta é remontado para temporada no Globe Theatre, em Londres, e Teuda chama a atenção do encenador canadense Robert Lepage (1957), que tempos depois a convida para atuar em , espetáculo do Cirque du Soleil.

A atriz muda-se para a América do Norte em 2004 e vive entre Quebec, no Canadá, e Las Vegas, nos Estados Unidos. Sua personagem, outra ama, cuida de duas crianças órfãs que fogem de um ataque inimigo. As cenas transcorrem em espaço cênico de estrutura vertical, com perigosas travessias entre florestas e penhascos imaginários e efeitos cinematográficos. Uma superprodução com grande público em uma relação distanciada e, por isso, distinta do que a atriz está habituada no Galpão.

De volta ao Brasil, em 2007, Teuda retoma o trabalho com o grupo mineiro e as participações esporádicas em produções para o cinema e a TV. Entre elas, representa a Dona Zaira, de O Palhaço (2011), dirigido pelo ator Selton Mello (1972), e a Madalena, de As Duas Irenes (2017), do diretor Fábio Meira (1979), exibido no Festival de Berlim do mesmo ano. Atua ainda na novela Meu Pedacinho de Chão (2014), do diretor Luiz Fernando Carvalho (1960), e na série A Vila (2017), do ator e diretor Paulo Gustavo (1978).

Teuda arrisca-se ainda em outras linguagens e formatos. Em 2015, produz e atua ao lado de um dos dois filhos, Admar Fernandes, na peça Doida, adaptação do conto homônimo de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) feita por João Santos, autor também da biografia Teuda Bara – Comunista Demais para Ser Chacrete. O título do livro alude a uma resposta de Teuda ao Chacrinha, em 19722.

Em Nós (2016), dirigido por Marcio Abreu, a atriz experimenta uma linguagem contemporânea que se distancia do repertório do Grupo Galpão, baseada em improvisações dos atores, que se apresentam com seus próprios nomes. Teuda é o centro da composição dramatúrgica, e seu trabalho se sobressai em cenas como sua violenta exclusão pelo restante do grupo e o momento em que ela e o ator Eduardo Moreira despem-se e cobrem-se de escritos e lama. Sua atuação é homenageada pelo Prêmio Questão de Crítica. Em 2019, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, recebe o prêmio de melhor atuação no curta-metragem Angela.

Veterana dos palcos e das ruas, Teuda Bara tem uma trajetória de décadas de trabalho no Grupo Galpão, sem nunca deixar de se distinguir como figura singular no teatro brasileiro. Transita da comédia ao circo, do clássico ao contemporâneo, com presença marcante e habilidade na comunicação com o público.

 

Notas: 

1. SÁ, Nelson de. Diversidade: um guia para o teatro dos anos 90. São Paulo: Hucitec, 1997. p. 114-116.

2. BARA, Teuda. Chacrete comunista. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 abr. 2016. Ilustríssima. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2016/04/1763755-chacrete-comunista.shtml.

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