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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Zeni Pereira

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.08.2022
09.11.1924 Brasil / Bahia / Salvador
21.03.2002 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Zenith Pereira de Castro (Salvador, Bahia, 1924 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002). Atriz. Ao longo de meio século de atuação, entre os anos 1940 e 1990, trabalha em importantes produções de teatro, teledramaturgia e audiovisual, frequentemente representando personagens coadjuvantes, com perfil maternal e servil, que revelam consequências d...

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Zenith Pereira de Castro (Salvador, Bahia, 1924 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002). Atriz. Ao longo de meio século de atuação, entre os anos 1940 e 1990, trabalha em importantes produções de teatro, teledramaturgia e audiovisual, frequentemente representando personagens coadjuvantes, com perfil maternal e servil, que revelam consequências do racismo no espaço conferido a atrizes negras nas artes brasileiras do século XX.

Nascida em Salvador, na Bahia, muda-se com a família para a cidade do Rio de Janeiro ainda na infância. Aos 14 anos, aproxima-se da indústria artística ao cantar em programas de calouros da rádio Mayrink Veiga. Formada em artes cênicas, sua estreia no teatro acontece na montagem de Anjo negro (1948), peça escrita por Nelson Rodrigues (1912-1980).

Nos anos 1950, integra o Teatro Experimental do Negro (TEN), ao lado de Ruth de Souza (1921-2019) e Léa Garcia (1933). Atua em peças como Aruanda (1948), uma mistura de balé, opereta e tragédia, com música de Gentil Puget (1912-1949) e pontos de candomblé, dirigida por Abdias do Nascimento (1914-2011) e escrita por Joaquim Ribeiro (1925-1973). Sobre esse trabalho, o crítico Gustavo Dória (1910-1979) registra, no jornal O Globo, que “Zeni Pereira [...], como Tia Zefa, se mostra uma atriz de rara qualidade [...] e como sabe segurar o espetáculo em suas mãos, fazendo com que o seu papel se torne o principal!'1.

Ainda nessa fase, contracena com Cacilda Becker (1921-1969) em Paiol velho (1951), de Abílio Pereira de Almeida (1906-1977), no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), e representa Clio, a mãe do personagem-título de Orfeu da Conceição (1956), de Vinicius de Moraes (1913-1980), no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com elenco vindo do TEN e cenário de Oscar Niemeyer (1907-2012).

É também na década de 1950, com a abertura das primeiras emissoras de televisão no país, que ingressa na teledramaturgia. Faz uma participação de poucos meses como Tia Anastácia, em O Sítio do Pica-Pau Amarelo (1952-1963), de Monteiro Lobato (1882-1948), na TV Tupi. Entretanto, as oportunidades de trabalho na televisão escasseiam. Enquanto isso, no teatro, representa Agripina em Vamos brincar de amor em Cabo Frio (1965), ao lado de Dulcina de Moraes (1908-1996), Claudio Cavalcanti (1940-2013), Jardel Filho (1927-1983) e Dirce Migliaccio (1933-2009).

Estreia no cinema em Orfeu da Conceição (1959), dirigido por Marcel Camus (1912-1982), vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Participa de chanchadas como Samba em Brasília (1960), de Watson Macedo (1918-1981), no papel de Dona Maria, de filmes populares como O picapau amarelo (1973), de Geraldo Sarno (1938-2022), novamente no papel de Tia Anastácia, e O trapalhão na ilha do tesouro (1975), do cineasta croata radicado no Brasil J. B. Tanko (1906-1993), no qual interpreta Tia Jurema. Em Quando o carnaval chegar (1972), filme musical de Cacá Diegues (1940), tem uma cena memorável na qual celebra a chegada do filho, personagem de Antônio Pitanga (1939), ao morro, com um entusiasmado abraço.

Na TV Tupi, faz sua primeira novela, O doce mundo de Guida, de Aparecida Menezes, em 1969. Entretanto, nenhuma outra personagem traz a mesma popularidade de Januária, também conhecida como Bá, que cuidava da protagonista no sucesso Escrava Isaura (1976-1977), de Gilberto Braga (1945-2021), na TV Globo.

A personagem, uma cozinheira escravizada, é mais uma entre várias, na trajetória da atriz, identificada ao estereótipo da mammy2. Entretanto, na trama, sua personagem é insubmissa nos diálogos e, conforme observa o professor Guilherme Moreira Fernandes, a única a apresentar práticas religiosas africanas, ainda que representadas de maneira discreta3.

Na linha de personagens que enfrentam discussões, Zeni representa a feirante Corina, de Dona Xepa (1977), que se envolve em brigas com a protagonista, interpretada por Yara Côrtes (1921-2002). Nos anos 1980 e 1990, atua em outras produções bem-sucedidas de Gilberto Braga, como Vale tudo (1988-1989) e Pátria minha (1994-1995). Nesta última, sua personagem Isaura, por exemplo, é descrita como “cozinheira de mão cheia, muito simpática, mas de temperamento forte”4.

Trabalha em produções cinematográficas com artistas internacionais, ainda que em pequenos papéis, como no filme Gabriela (1983), de Bruno Barreto (1955), em que contracena com o ator italiano Marcello Mastroiani (1924-1996) em filmagens no Brasil. Participa ainda dos filmes Feitiço do Rio (1984), dirigido pelo estadunidense Stanley Donen (1924-2019) e protagonizado pelo ator inglês Michael Caine (1933), e Running out of luck (1985), protagonizado pelo cantor inglês Mick Jagger (1943).

Frente às restrições que o racismo impôs a atrizes negras no audiovisual e na teledramaturgia brasileiras, Zeni Pereira consolida sua carreira, dedicando-se a aproveitar ao máximo o potencial de pequenos papéis, personagens coadjuvantes, escritas com base em modelos de exclusão racial e social. Dessa maneira, deixa sua marca na encenação brasileira para teatro, TV e cinema.

Notas

1. DORIA, Gustavo. Aruanda. In: TEATRO EXPERIMENTO DO NEGRO. Teatro Experimental do Negro: Testemunhos. Rio de Janeiro: GRD Edições, 1966.

2. Mammy é a pronúncia característica para mommy (mamãe) por pessoas negras no sul dos Estados Unidos no século XIX. É um estereótipo associado às mulheres negras que realizavam o trabalho doméstico e afetivo, com suposta vocação para servir e cuidar, incluindo amamentar, cozinhar, limpar e aconselhar, em casas de famílias brancas. O discurso afetivo encobria as relações de poder exploratórias. Exemplo é Hattie McDaniel (1893-1952), que representou dezenas de personagens dentro desse padrão, inclusive no filme …E o vento levou (1939), pelo qual se torna a primeira atriz negra a receber um Oscar.

3. FERNANDES, Guilherme Moreira. Ciclo abolicionista nas telenovelas da Globo: rupturas e continuidades de estereótipos. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 39., 2016, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: ECA/USP, 2016. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nacional2016/resumos/R11-1986-1.pdf. Acesso em: 10 nov. 2021.

4. PERSONAGENS. Memória Globo, 29 out. 2021. Disponível em: https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/novelas/patria-minha/personagens. Acesso em: 11 nov. 2021.

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