Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Julio Bressane

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.01.2020
1946 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Júlio Eduardo Bressane de Azevedo (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1946). Cineasta e escritor. Em seus filmes, de estrutura poética e ensaística, usa com frequência a omissão narrativa no lugar de tramas claras, recorrendo a trocadilhos e citações e à música como elemento fundamental. É um dos nomes do chamado Cinema Marginal, tendência dos anos...

Texto

Abrir módulo

Júlio Eduardo Bressane de Azevedo (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1946). Cineasta e escritor. Em seus filmes, de estrutura poética e ensaística, usa com frequência a omissão narrativa no lugar de tramas claras, recorrendo a trocadilhos e citações e à música como elemento fundamental. É um dos nomes do chamado Cinema Marginal, tendência dos anos 1960 e 1970, marcada pela independência criativa e pelo baixo orçamento1.

Inicia carreira em 1965 como assistente de direção de Walter Lima Jr. (1938) no longa-metragem Menino de Engenho. Estreia como diretor no ano seguinte com os curtas-metragens documentais Lima Barreto – Trajetória e Bethânia Bem de Perto. Em 1967, dirige o primeiro longa-metragem, a ficção Cara a Cara, obra bastante influenciada pelo Cinema Novo, em especial pelos filmes de Glauber Rocha (1939-1981), referência presente no gesto desvairado do protagonista ao final. Na trama, um funcionário público que reside com a mãe idosa no subúrbio torna-se obsessivo por uma jovem da zona sul carioca, a ponto de chegar à violência.

Em 1969, funda com Rogério Sganzerla (1946-2004) a produtora Belair. O modelo de realizações de baixo custo permite lançar no mesmo ano O Anjo Nasceu e Matou a Família e Foi ao Cinema, retirado das salas pela censura, que engaveta o filme. O drama de violência familiar sem razão clara, com sequência de tortura e assassinatos, atrai o público e o olhar do regime militar. Filho de general, Bressane depõe e é ameaçado de prisão, acusado de manter ligações como o militante político Carlos Marighella (1911-1969). Decide exilar-se em Londres na companhia de Sganzerla e da atriz Helena Ignez (1939). Ali realiza Memórias de um Estrangulador de Loiras (1971), sobre um assassino em série, dessa vez com o deboche marcante de sua obra.

De volta ao Brasil no final de 1972, busca recriar a proposta da Belair de um cinema rudimentar na produção, mas criativo no conceito. Nas realizações que se seguem, cabe o interesse pela chanchada e pelos mitos de viagem, incorporando as experiências registradas pelo diretor em países do Oriente e no México. Com O Gigante da América (1980), faz a primeira parceria com a Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme)2. Não há trama nesse filme, mas uma sequência de quadros nos quais se vê o protagonista em um hospício ou transatlântico, por exemplo. Ao dispor de orçamento maior, o diretor fortalece elementos que lhe são caros, como a luz. Cita com frequência uma apreciação do cineasta francês Abel Gance (1889-1981) para valorizá-la: “Cinema é a música da luz”.

As referências contidas na frase sintetizam o período inaugurado por Tabu (1982). Trata-se de obra sem narrativa definida, que aposta na reunião ficcional entre os músicos Lamartine Babo (1904-1963) e Mário Reis (1907-1981) com o escritor Oswald de Andrade (1890-1954), intermediada pelo cronista João do Rio (1881-1921). O quarteto interage enquanto caminha sem destino pelas ruas do Rio de Janeiro. À música sempre presente, somam-se musas e ninfas, com erotismo e sensualidade que passam a marcar a produção do diretor.

Esses aspectos são somados ao apreço pela literatura, por meio de outras criações. Brás Cubas (1985) é definidor disso ao adaptar o clássico de Machado de Assis (1839-1908), ressaltando a verve irônica e o jogo de palavras tão fundamentais ao diretor. O interesse por captar um Brasil atrasado, antiquado, tem eco na história do protagonista que, morto, revisa sua vida para concluir uma existência quase nula.

Busca no movimento concreto3 a inspiração para renovar a obra do padre português Antônio Vieira (1608-1697) em Sermões (1989), com colaboração do poeta e tradutor Haroldo de Campos (1929-2003), um dos fundadores da tendência.

Em 1996, publica o livro de ensaios Alguns, no qual discute seu cinema e os interesses prediletos. Em 2005, com o livro Fotodrama, analisa o cinema alheio, como Limite (1931), de Mário Peixoto (1908-1992), e a obra do casal francês Jean-Marie Straub (1933) e Danièle Huillet (1936-2006). Essa ampla referência ensaística se reflete em Filme de Amor (2003), no qual a encenação é trabalhada a partir de pinturas clássicas e do mito das três graças, mas com um homem no lugar de uma delas. O trio, então, se encontra em apartamento do subúrbio para beber, conversar e buscar o prazer, com intenção de esquecer o mundo lá fora. Com A Erva do Rato (2008) recupera certo tom escatológico explorado à época do cinema marginal. A história se desenrola em um ambiente soturno, onde um casal levado a conviver na mesma casa por um acontecimento trivial tem em comum uma fantasia sobre a morte. Enquanto ela escapou de um assassinato, o rapaz demonstra uma personalidade patológica, evidenciada pelo ataque cruel a um rato.

Em Educação Sentimental (2013), volta-se à fase feminina e, a partir de mito grego, explora a trama de uma mulher mais velha que acolhe um adolescente como seu ouvinte e pupilo. Sedução da Carne (2018), originado de um sonho do cineasta, é mais econômico: uma jovem viúva tem longas conversas com um papagaio enquanto é observada por grandes porções de carne.

Ao trabalhar com contextos diversos, por meio de motivações autorais, Júlio Bressane cria uma obra vasta, que se torna uma das mais notáveis e coerentes do cinema nacional.

Notas

1. O Cinema Marginal é um movimento inovador da linguagem cinematográfica, afinado – e ao mesmo tempo contrário em diversos aspectos – com o Cinema Novo, com o qual coexiste nos anos de 1960 e 1970. Diferentemente da preocupação realista e da crítica social deste, pauta-se por um tom descontraído, voltado à paródia e ao sentido carnavalesco da cultura brasileira.  

2. Empresa estatal de apoio à produção e distribuição existente entre 1969 e 1990

3. Tendência a partir da metade dos anos 1950, o concretismo propõe na literatura o fim dos versos e da sintaxe tradicional.

Obras 3

Abrir módulo

Exposições 3

Abrir módulo

Eventos relacionados 4

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 7

Abrir módulo
  • BERNARDET, Jean Claude. Cinema Marginal? Folha de S.Paulo, São Paulo, 10 jun. 2001. Caderno Mais! Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1006200107.htm. Acesso em: 27 dez. 2019
  • BERNARDET, Jean Claude. O vôo dos anjos: Bressane, Sganzerla. São Paulo: Brasiliense, 1991.
  • BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 27., 2006, São Paulo, SP. 27a. Bienal de São Paulo: guia. Curadoria Lisette Lagnado; versão em inglês Alberto Dwek, Alison Entrekin, Christopher Ainsbury, Luiz Roberto Mendes Gonçalves, Regina Alfarano; tradução Ann Robertson, Robert Culverhouse, Carlos Eugênio Marcondes de Moura, Michael Sleiman, Odile Cisneros, Susana Vidigal. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2006. 700 BI588sp 27/2006 guia
  • BRESSANE, Júlio. Alguns. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  • BRESSANE, Júlio. Fotodrama. Rio de Janeiro: Imago, 2005.
  • CINEMATECA BRASILEIRA. Base de dados Filmografia Brasileira. Disponível em: http://cinemateca.org.br/filmografia-brasileira/. Acesso em: 27 dez. 2019
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: