Artigo da seção pessoas Dorival Caymmi

Dorival Caymmi

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deDorival Caymmi: 30-04-1914 Local de nascimento: (Brasil / Bahia / Salvador) | Data de morte 16-08-2008 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
Imagem representativa do artigo

Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Dorival Caymmi (Salvador, Bahia, 1914 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,  2008). Compositor, violonista, poeta, cantor. Em 1925, estuda no Colégio Olímpio Cruz. Começa a tocar violão sozinho, com alguma ajuda do pai; depois, por sugestão de um tio, compra o método do violonista Canhoto (1889-1928). Além da música, interessa-se por cinema e, em 1927, trabalha na redação do jornal soteropolitano O Imparcial.

Viaja para o Rio de Janeiro em abril de 1938. Trabalha em redações de jornais e frequenta o meio artístico, tocando violão e cantando. Recebe o convite para se apresentar no programa do compositor Lamartine Babo (1904-1963), na Rádio Nacional. É contratado pela TV Tupi e, poucos meses depois, vai para a Rádio Transmissora. Sua canção “O que É que a Baiana Tem?” faz sucesso na voz da cantora Carmem Miranda (1909-1955) no filme Banana da Terra (1939), dirigido por Ruy Costa (1909-1980). O requebrado de mãos e antebraços que caracteriza a performance da cantora é sugestão de Dorival Caymmi. A partir desse encontro, por meio dos filmes de Carmem, a figura estilizada da baiana vira ícone mundial. 

Em 1939, grava com Carmem Miranda um disco 78 rpm com as músicas: “O que É que a Baiana Tem?” e “A Preta do Acarajé”, pela Odeon. No mesmo ano, recebe o convite para integrar o elenco da Rádio Mayrink Veiga.

Em 1947, lança o livro Cancioneiro da Bahia, que reúne a obra gravada até então e temas folclóricos, com prefácio e organização de Jorge Amado (1912-2001) e ilustrações do pintor Clóvis Graciano (1907-1988). Também com Jorge Amado, compõe a trilha sonora para a peça Terras do Sem Fim, baseada no romance homônimo do escritor. Em 1948, nasce seu terceiro filho, Danilo Caymmi, que segue o caminho do pai como cantor, compositor e flautista.

Em 1964, o produtor Aloysio de Oliveira (1914-1995) promove o encontro de Dorival Caymmi e Tom Jobim (1927-1994) no álbum Caymmi Visita Tom e Leva Seus Filhos Nana, Dori e Danilo. Os compositores apresentam duas canções inéditas: “Só Tinha de Ser com Você”de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, e ”Das Rosas”, de Caymmi. Esta, em 1965, é gravada pelo cantor norte-americano Andy Williams (1927-2012).

Em 1975, “Modinha para Gabriela”interpretada pela cantora Gal Costa (1945), é composta para a abertura da novela Gabriela, baseada no romance de Jorge Amado. Em 1990, em parceria com Danilo Caymmi, compõe “Vamos Falar de Teresa” para a trilha sonora da minissérie baseada no romance Teresa Batista, também de Amado.

Em abril de 1994, a série de songbooks produzidos por Almir Chediak (1950-2003) contempla a obra do compositor com dois livros em comemoração aos 80 anos de Dorival. Em 2001, a neta, Stella Caymmi (1962), lança a biografia do avô: Dorival Caymmi – o Mar e o Tempo, pela Editora 34.

Análise

Desde o início da carreira, Dorival Caymmi utiliza harmonias e modulações de meio tom, comuns na música erudita e no jazz. Caymmi prefere a harmonia alterada, com as sétimas, as nonas e a inversão de acordes. Ao buscar sentir os acordes de forma diferente, contraria o pai, que tenta corrigi-lo1

A urbanização tardia de Salvador possibilita que a cidade consolide as tradições presentes no imaginário popular. O compositor aproveita a cultura tradicional presente na cidade, principalmente a de matriz africana, de uma Bahia ainda colonial. As histórias das pretas de sua infância são motivos de composições como “História pro Sinhozinho”: 

Peixe é esse meu filho, peixe é esse meu filho

Não meu pai

Peixe é esse mutum, manganem

É toca do mato guenem, guenem

Suê filho ê

Toca aê marimbaê

Suas letras trazem aspectos da vida baiana desconhecidos em outros lugares do país, como os balangandãs ou os pregões das baianas A música é diferente do que se ouve nos programas de rádio da época. As festas da Bahia, outra referência, acontecem durante o ano inteiro, sempre ao ar livre e ao alcance de todos. A festa de Nosso Senhor dos Navegantes, por exemplo, é contada no samba “Festa de Rua”: 

Cem barquinhos brancos  

Nas ondas do mar 

Uma galeota a Jesus levar 

Meu Senhor dos Navegantes  

Venha me valer. 

Caymmi é fã das revistas de cinema e do rádio, nos quais conhece os ídolos da época, como Mário Reis (1907-1981), Francisco Alves (1898-1952), Silvio Caldas (1908-1998) e as irmãs Carmen e Aurora Miranda (1915-2005). Nesse momento, a rádio vive a chamada Época de Ouro e, por intermédio desses intérpretes, Caymmi escuta composições de Ary Barroso (1903-1964), Noel Rosa (1910-1937), Ismael Silva (1905-1978) e Braguinha (1907-2006).

Quando chega ao Rio de Janeiro, em 1938, Caymmi possui várias músicas compostas. Entre elas, as canções praieiras (gênero inaugurado por ele) “O Mar”, “É Doce Morrer no Mar” e “A Jangada Voltou Só”; os sambas sacudidos “Você Já Foi à Bahia?” e “O que É que a Baiana Tem?”, inspirados nos sambas de roda; e composições baseadas em motivos folclóricos “A Preta do Acarajé” e “Roda Pião”. 

Mais tarde, dedica-se aos sambas-canções, bastante criticados. Acostumada a escutar os sambas de roda e as canções praieiras do compositor, alguns críticos estranham o gênero de composição, considerado como romântico, sofisticado e burguês. Na fase urbana do compositor, homenageia o amigo Carlos Guinle (1919-1956) 2, atribuindo a ele algumas parceria musicais, como em “Sábado em Copacabana”, “Valerá a Pena”, “Não Tem Solução”, “Ninguém Sabe Amar”, “Rua Deserta”. 

“Marina” (1947) é um samba-canção dessa época, gravado por quatro cantores: Dick Farney (1921-1987), Francisco Alves, Nelson Gonçalves (1919-1998) e o próprio Caymmi, derrubando a determinação das gravadoras da época de não permitir o lançamento de uma composição por mais de um intérprete. A versão de maior sucesso é a de Dick Farney, que faz da canção presença obrigatória em seus shows.

O aumento do número de boates no final dos anos 1940 e começo dos 1950 indica mais proximidade dos artistas com o público. A orquestra é substituída pelo quarteto ou apenas por piano ou violão. Caymmi sempre interpreta suas canções acompanhado do violão, dispensando outros instrumentos. A música que o novo ambiente pede é diferente do que se fazia até então. Inicia-se o processo que desemboca na moderna música popular brasileira. É o auge do samba-canção, influência do bolero que invade o país nos anos 1950.

Caymmi tem composições gravadas pelo cantor João Gilberto (1931) e é apontado como um dos precursores da bossa nova. Sambas-canções como “Nem Eu”, “Rua Deserta”, “Você Não Sabe Amar” trazem arranjos modernos, sobretudo pela utilização de acordes dissonantes e letras concisas, sem o caráter melodramático do momento. Sempre atento, um observador do cotidiano, paciente e sem pressa, raramente utiliza o violão quando compõe. Dorival Caymmi aprende com o folclore e compõe temas que, de tão populares, tornam-se folclóricos, como “Samba da minha Terra”, “Eu Não Tenho Onde Morar” , “Quem Vem pra Beira do Mar” e “Maracangalha”, sucesso no carnaval de 1956. Além de criar um gênero (canções praieiras), sua obra tem várias facetas, do samba de roda (“Roda Pião”) ao sincopado (“Doralice”) e um samba urbano baiano (“Lá Vem a Baiana”, “A Vizinha do Lado”, “Vestido de Bolero”). As poucas composições (em torno de duas centenas) são compensadas pela incidência de obras-primas, obsessivamente lapidadas, como “João Valentão”, “Saudades da Bahia” e “Dora”.

Notas

1. CAYMMI, Stella. Dorival Caymmi – o mar e o tempo. São Paulo: Editora 34, 2001. p. 58.

2.  Idem, p. 220.

Outras informações de Dorival Caymmi:

Obras de Dorival Caymmi: (41) obras disponíveis:

Todas as obras de Dorival Caymmi:

Espetáculos (3)

Fontes de pesquisa (11)

  • BOSCO, Francisco. Dorival Caymmi. São Paulo, Publifolha, 2006.
  • CAYMMI, Stella. Caymmi e a Bossa Nova. Rio de Janeiro: Editora Ibis Libris, 2008.
  • CAYMMI, Stella. Dorival Caymmi - o mar e o tempo. São Paulo, Editora 34, 2001.
  • Dorival Caymmi - disponível em http://www.dorivalcaymmi.com.br/ acessado em 05 / out / 2010
  • DVD Um certo Dorival Caymmi - em Música Brasileira 4 documentários, direção geral Aluisio Didier, Europa Filmes, 2007.
  • RISÉRIO, Antonio. Caymmi: uma utopia de lugar. São Paulo: Perspectiva, 1993
  • RISÉRIO, Antonio. Caymmi: uma utopia de lugar. São Paulo: Perspectiva, 1993
  • SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras, vol. 2: 1958-1985. São Paulo: Editora 34, 1998. (Ouvido Musical).
  • SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras.  v.1: 1901-1957. 6. ed. São Paulo: Editora 34, 2006.
  • TATIT, Luiz. O cancionista: composição de canções no Brasil São Paulo: Edusp, 1996.
  • UM CERTO Dorival Caymmi. In: Música Brasileira 4. Documentários. Direção geral Aluisio Didier. Rio de Janeiro: Europa Filmes, 2007. DVD.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • DORIVAL Caymmi. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3901/dorival-caymmi>. Acesso em: 08 de Abr. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7