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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Helena Ignez

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.08.2022
23.05.1939 Brasil / Bahia / Salvador
Helena Ignez Pinto de Mello e Silva (Salvador, Bahia, 1939). Atriz, roteirista, diretora de cinema. Trabalha em teatro e algumas produções televisivas, mas constrói a parte mais significativa da carreira no cinema, em filmes de linguagem experimental e temática provocativa, notadamente na época do cinema marginal. Busca contestar as diretrizes t...

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Helena Ignez Pinto de Mello e Silva (Salvador, Bahia, 1939). Atriz, roteirista, diretora de cinema. Trabalha em teatro e algumas produções televisivas, mas constrói a parte mais significativa da carreira no cinema, em filmes de linguagem experimental e temática provocativa, notadamente na época do cinema marginal. Busca contestar as diretrizes tradicionais da sociedade, retratando o cotidiano dos oprimidos e defendendo a liberdade de expressão, que se manifesta, entre outros aspectos, na ousadia estética de seu estilo de atuar.

Oriunda de uma família tradicional de Salvador, Helena frequenta a alta sociedade soteropolitana até a juventude e chega a estudar direito, mas abandona o curso e ingressa na Escola de Teatro da Universidade

Federal da Bahia (UFBA), onde conhece diretores de teatro e de cinema, entre eles Glauber Rocha (1939-1981), com quem se casa. Na época, participa de reuniões das Ligas Camponesas, movimento formado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), que defende a reforma agrária e a melhoria das condições de vida no campo.

Em 1959 faz sua estreia como atriz no curta-metragem Pátio, de Glauber. Na sequência, atua em filmes do Cinema Novo, como A grande feira (1961), de Roberto Pires (1934-2001), e O padre e a moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), com o qual conquista o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília pelo papel de Mariana, a mulher que vive uma paixão proibida por um vigário.

Nos anos seguintes, conhece dois cineastas fundamentais em sua trajetória, com os quais se torna uma atriz de vanguarda: Julio Bressane (1946) e Rogério Sganzerla (1946-2004). Em filmes considerados marginais, Helena dá vida a personagens fortes e debochadas, como nas produções de Sganzerla, em que dá vida à pistoleira Janete Jane, que causa a desgraça do personagem-título, em O bandido da luz vermelha (1968); e à Ângela Carne e Osso, que se autodefine como a “ultrapoderosa inimiga número um dos homens”, em A mulher de todos (1969), numa atuação que lhe rende outro prêmio de melhor atriz em Brasília.

A personagem  ngela subverte as convenções do que seriam os papéis de mulher e homem. Usa bota de cowboy, gravata, chapéu e calça. Pilota moto, se relaciona com outra mulher. Sempre em posição de domínio. Ajusta a camisa molhada para valorizar os seios. Helena usa seu corpo como um corpo político a serviço da anarquia, por meio de seus figurinos e de suas atuações, como analisa a pesquisadora Tatiana Trad.

A atuação em A mulher de todos rompe com o realismo então vigente na produção cinematográfica nacional. Para o pesquisador belga Jean-Claude Bernardet (1936), Helena inova por se apoiar mais no potencial performático do que na composição da personagem. Segundo ele, a atriz é audaciosa e se torna um marco feminista da época.

Seu modo de atuar ajuda a dar forma aos filmes mais arriscados de Sganzerla e Bressane, na visão do crítico Thiago B. Mendonça. Esse processo se acentua quando a atriz cria com eles a produtora Belair, que realiza sete filmes no período de alguns meses. Num deles, Cuidado madame (1970), de Bressane, há uma cena em que a personagem de Helena ironiza o regime militar (1964-1985): “De regime já basta o que eu faço”, diz. O funcionamento da Belair é interrompido por perseguição política. Helena tem a vida monitorada pela ditadura e, em 1970, busca exílio no exterior, onde acaba mergulhando na espiritualidade.

Retoma a carreira nos anos 1990, quando, de volta ao Brasil, faz papéis secundários em minisséries televisivas – como Teresa Batista (1992), de Vicente Sesso (1933) – e espetáculos teatrais – como Anjo negro (1994), de Nelson Rodrigues (1912-1980).

Helena, que sempre trabalha de forma autoral, sendo ao mesmo tempo atriz e coautora dos filmes, torna-se diretora nos anos 2000. Dirige dois curtas documentais e logo envereda pela ficção, com narrativas incomuns.

Em Ralé (2015), promove uma colagem de histórias de personagens que vivem uma vida alternativa. Em vez de representar papéis definidos num roteiro, eles se apresentam em suas características, desejos, estilos, farsas. O filme traz à tona causas importantes para a diretora, como a questão indígena, a liberação sexual, o feminismo e o casamento gay. Segundo o jornalista José Geraldo Couto (1957), Ralé encara questões do seu tempo, sobretudo a afirmação de liberdades individuais, com o espírito insurgente do cinema marginal. A própria Helena interpreta Jarda, a hippie que acredita em Deus e que representa o futuro de Sonia Silk, sua personagem em Copacabana, mon amour (1970), de Sganzerla.

A moça do calendário (2017) tem uma trama bem definida: as desventuras do mecânico Inácio, que está na base da pirâmide social desde que rompeu com o pai latifundiário e anda fascinado por uma garota cuja foto estampa um calendário. O personagem milita no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A jornada dele conduz a uma crítica social. É um filme de autora, segundo o crítico Inácio Araújo, uma comédia sobre um tema sério, que retoma o espírito popular dos primeiros filmes com Sganzerla. No mesmo ano, Helena recebe o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro pelo conjunto da obra.

Em 2019, com cerca de 60 anos de carreira, Helena lança mais um documentário, o longa Fakir, e é indicada ao Prêmio Shell de melhor atriz pela peça Insônia – Titus Macbeth, dirigida por André Guerreiro Lopes (1975).

Helena Ignez é uma artista revolucionária. Atuando, escrevendo e dirigindo, cria histórias e personagens que cutucam as feridas da sociedade que, para ela, precisam ser tocadas para o mundo ser mais justo. Adota um tom debochado para abordar questões sociais e políticas e torna-se ícone da busca feminina por autonomia e liberdade.

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