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Enciclopédia Itaú Cultural

Gioconda Rizzo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.01.2020
1897
19.03.2004 Brasil / São Paulo / São Paulo
Gioconda Rizzo (São Paulo, São Paulo,1897 - idem, 2004). Fotógrafa, artesã. Primeira fotógrafa a dirigir um estúdio na cidade de São Paulo, o Photo Femina (1914-1916), especializado na produção de retratos de mulheres e crianças, com ênfase na expressão e na composição das figuras, atenuando a importância do cenário como atributo de distinção so...

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Gioconda Rizzo (São Paulo, São Paulo,1897 - idem, 2004). Fotógrafa, artesã. Primeira fotógrafa a dirigir um estúdio na cidade de São Paulo, o Photo Femina (1914-1916), especializado na produção de retratos de mulheres e crianças, com ênfase na expressão e na composição das figuras, atenuando a importância do cenário como atributo de distinção social.

Inicia seus experimentos em fotografia auxiliando o pai, o fotógrafo Michelle Rizzo (1869-1929), italiano radicado em São Paulo. Ele faz da fotografia o negócio familiar ao retornar de temporada na Itália, onde estuda com B. Lauro, retratista napolitano.

A princípio, trabalha nos processos de revelação e acabamento por meio de retoques a lápis, nanquim, pinturas decorativas ou coloração manual. Com cerca de 14 anos, captura suas primeiras imagens, sem o conhecimento do pai. Nos autorretratos de 1912 e 1913, a postura extrovertida da jovem fotógrafa evidencia o entusiasmo quanto ao jogo de representar-se, dominando todo o processo fotográfico.

O talento de Gioconda possibilita a expansão dos negócios familiares, explorando novo nicho de mercado, voltado ao atendimento exclusivo de mulheres e crianças. Assim, em 1914, nasce o ateliê Photo Femina, em uma sobreloja na rua Direita, a poucos metros do estabelecimento de Michelle. Para os trabalhos externos, a jovem fotógrafa conta com o acompanhamento da mãe. 

O ateliê próprio lhe possibilita maior liberdade na direção das tomadas fotográficas. Exemplo disso é um dos retratos de Wanda Massucci, sobrinha da harpista italiana Olga Massucci. Realizado em 1914 e publicado na revista A Cigarra1, apresentam dramaticidade na iluminação, oriunda da parte superior esquerda, e enquadramento circunscrito ao busto, ressaltando a postura e expressão facial da criança. Flores, véus e vestimentas aproximam as fotografias de Gioconda dos retratos de artistas da cena teatral, musical e cinematográfica, que divulgam seus talentos profissionais por meio da fotografia, como Sarah Bernhardt (1844-1923), fotografada por Nadar (1820-1910). 

Enquanto a maioria dos estúdios opta por retratar crianças de corpo inteiro, sem poses elaboradas que exigem maior cooperação do retratado, Gioconda adapta certos estilemas publicitários às fotografias infantis. Em outro retrato do mesmo ano, Wanda Massucci posa como um anjo em prece, apoiada sobre fragmentos arquitetônicos, seguindo a tendência dos cartões-postais de crianças em encenações ou fotomontagens. 

Embora sejam comercializadas câmeras com maior automatismo – cuja facilidade de manuseio é demonstrada por figuras femininas nas propagandas da Kodak –, Gioconda, praticante da fotografia profissional de estúdio, preserva o uso de câmeras de grande formato e negativos de vidro de diferentes dimensões. 

Atentos às novidades linguísticas e técnicas, ela e Michelle utilizam mensagens comemorativas gravadas e adereços inusitados, como a balança decorada que registra o peso do bebê no momento da tomada fotográfica. A partir de 1916, pai e filha exploram a iluminação por magnésio a fim de reduzir o tempo de exposição, recurso especialmente importante para Gioconda na retratação de crianças. 

Em relação à fotografia de estúdio produzida por mulheres nos anos 1910, Gioconda Rizzo aparece praticamente isolada no contexto paulistano. Somente no fim da década, desponta Elvira Leopardi Pastore (1876-1972), que dá continuidade ao estúdio do marido Vincenzo Pastore (1865-1918) depois de sua morte. Diferentemente do estúdio de Elvira, herdado do marido, o da jovem Rizzo tem duração efêmera: é encerrado depois de dois anos de funcionamento, quando um de seus irmãos percebe que o estabelecimento recebe não apenas senhoras da alta sociedade, mas também cortesãs. A fotógrafa prossegue então suas atividades no ateliê do pai.

As pequenas narrativas que constrói aludem a padrões compositivos típicos de pinturas mitológicas e decorativas de fins do século XIX. Elas ecoam nas imagens publicitárias de moda e cosméticos que circulam com crescente intensidade na época. O cuidado na preparação da pose faz de Gioconda uma retratista requisitada. Para a fotógrafa Stefania Brill (1922-1992), seu modo de retratar “constitui uma fusão do real, aquele ‘verdadeiro’ frente à câmera, e da representação teatral [...] quem entra no estúdio de Gioconda Rizzo, primeiro estabelecimento comercial da mulher-fotógrafa, é ou será belo, traçado segundo a estética pictórica”2. Celebridades como Zezé Leone (1902-1965), primeira Miss Brasil em 1922, e Yolanda Pereira (1910-2001), Miss Brasil 1930, procuram o ateliê Rizzo para serem fotografadas por Gioconda.

Na década de 1930, trabalha no ateliê do irmão, Armando Rizzo, e estuda técnicas de transposição de fotografias para joias com Medina, artesão espanhol estabelecido no Rio de Janeiro. Adaptando tais técnicas à porcelana, produz fotojoias e decorações tumulares para o ateliê Photo do Carmo, do italiano Sestilio Fiorelli. Sobre suas investigações e processos químicos, Gioconda deixa valiosas anotações de trabalho3.

Após encerrar suas atividades profissionais na década de 1960, realiza exposição individual em 1982 na Galeria Fotoptica, exibindo fotografias sobre papel, porcelana e fotografias coloridas com tinta a óleo, produzidas entre 1916 e 1926. 

Na fotografia de estúdio produzida por Gioconda, o cenário começa perder seu significado como  elemento de distinção social e passa a valorizar a beleza dos retratados, enquadrados em uma atmosfera pictórica.

Notas

1. A Cigarra, São Paulo, 31 dez. 1914, na seção A Formiga, dedicada às crianças.

2. BRILL, Stefania. O real e a representação nos retratos de Gioconda. O Estado de S. Paulo, São Paulo, p. 21, 30 abr. 1982.

3. Trechos das anotações de Gioconda são reproduzidos na dissertação de IBRAHIM, Carla Jacques. As retratistas de uma época: fotografias de São Paulo na primeira metade do século XX. Dissertação (Mestrado) – Unicamp, Campinas, 2005, p. 70-72.

Fontes de pesquisa 12

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  • A CIGARRA. São Paulo, 31 dez 1914.
  • BRILL, Stefania. O real e a representação nos retratos de Gioconda. O Estado de S. Paulo, São Paulo, p. 21, 30 abr. 1982.
  • FOLHA de S.Paulo. Gioconda Rizzo 81 anos expõe fotos. Folha de S.Paulo. São Paulo, 12 abr. 1982, Ilustrada, p. 21.
  • LEITE, Miriam Moreira. Retratos de família: leitura da fotografia histórica. 3. ed. São Paulo: Edusp; Fapesp, 2001. (Texto & Arte).
  • MENDES, Ricardo. Retratos do imaginário de São Paulo: fotógrafos e personagens. São Paulo: Formarte, 2001.
  • Morre a pioneira fotógrafa de SP Gioconda Rizzo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 de mar. 2004. Caderno 2, p. 3. Não catalogada
  • NAKAYAMA, Daniela. Paixão pela fotografia mantém-se aos 101 anos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 14 ago 1998, p. 80-81.
  • O ESTADO de S. Paulo. Artes visuais. O Estado de S. Paulo, 14 abr. 1982, p. 19.
  • O ESTADO de S. Paulo. Rizzo e sua filha Gioconda. O Estado de S. Paulo, São Paulo,15 maio 2012. Disponível em: https://brasil.estadao.com.br/blogs/album-de-retratos/rizzo-e-sua-filha-gioconda/?r=https://brasil.estadao.com.br/blogs/album-de-retratos/rizzo-e-sua-filha-gioconda/. Acesso em: 01 nov. 2019
  • RIZZO, Gioconda. Gioconda Rizzo, primeira fotógrafa brasileira, 1999. Entrevista concedida a Deodora Pachicoski: São Paulo, 1999. Dísponível em: https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=Nd6P_m1GP78. Acesso em: 02 out. 2019
  • SALÃO Paulista de Belas Artes 46. Catálogo de exposição. São Paulo, 1982.
  • SCHUMAHER, Maria Aparecida. Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade – biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

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