Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Assis Chateaubriand

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 25.06.2015
05.10.1892 Brasil / Paraíba / Umbuzeiro
04.04.1968 Brasil / São Paulo / São Paulo
Reprodução fotográfica Romulo Fialdini

Retrato de Assis Chateaubriand, 1953
August Zamoyski, Assis Chateaubriand
Bronze
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (Umbuzeiro, PB, 1892 - São Paulo, SP,1968). Jornalista, escritor, empresário, mecenas, advogado e político. Começa a trabalhar como jornalista aos 15 anos de idade, nos jornais Gazeta do Norte, no Jornal Pequeno e no Diário de Pernambuco. Com a mesma idade, ingressa na Faculdade de Direito do Re...

Texto

Abrir módulo

Biografia
Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (Umbuzeiro, PB, 1892 - São Paulo, SP,1968). Jornalista, escritor, empresário, mecenas, advogado e político. Começa a trabalhar como jornalista aos 15 anos de idade, nos jornais Gazeta do Norte, no Jornal Pequeno e no Diário de Pernambuco. Com a mesma idade, ingressa na Faculdade de Direito do Recife, onde mais tarde ministra aulas.

Muda-se para o Rio de Janeiro em 1917. Além de advogar, trabalha para o Correio da Manhã. Destaca-se nas duas profissões com rapidez e se torna conhecido de empresários, políticos, intelectuais e artistas. Compra O Jornal em 1924, no Rio de Janeiro. A equipe inicial conta com escritores como Monteiro Lobato (1882-1948). Casa-se com Maria Henriqueta Barrozo do Amaral (1905-?) em 1926. Em 1928, cria a revista semanal O Cruzeiro, de grande circulação nacional e influência política. No fim dos anos 1920 cumpre papel importante na campanha do político Getúlio Vargas (1882-1954) para presidente. Abre a Meridional, primeira agência de notícias do Brasil, em 1930, ano em que Vargas toma o poder após golpe.1 Nessa época, funda a Diários Associados, nome do conjunto de O Jornal e de outros veículos que adquire.

Com a permanência de Vargas no estado provisório e a ausência de uma constituinte, começa grande campanha pela redemocratização do país, atitude que o leva a ser preso diversas vezes de 1932 até 1934, quando novas eleições são realizadas. Funda a Escola de Sociologia e Política com Roberto Simonsen (1889-1948) e José de Alcântara Machado (1875-1941), em 1933. Em 1935, amplia a Diários Associados e cria a Rádio Tupi. Apoia a ditadura varguista iniciada em 1937. Idealiza e promove a Campanha Nacional de Aviação em 1941, através da construção de aeroclubes e aeroportos no interior do país. Em 1947, funda o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateubriand (Masp) junto com o arquiteto e marchand italiano Pietro Maria Bardi (1900-1999). O projeto expográfico do museu é feito pela arquiteta italiana Lina Bo Bardi (1914-1992).

Em 1950, abre em São Paulo a primeira emissora de televisão brasileira e da América Latina, a Rede Tupi, inaugurada no Rio de Janeiro em 1951, ano em que Chateaubriand é eleito senador da Paraíba. Com a morte de Vargas, em 1954, ocupa a cadeira do ex-presidente na Academia Brasileira de Letras (ABL). Entre 1957 e 1960, é embaixador do Brasil na Inglaterra. Em 1960, sofre uma trombose que o deixa sem poder andar e falar. Consegue se recuperar parcialmente e permanece publicando artigos com a ajuda de uma máquina criada pela IBM. Seus negócios vão mal. Além da dívida que possui, inicia guerra contra a família Marinho, detentora da Rede Globo, e os militares envolvidos no golpe de 1964,2 que apoia apenas no início. Ao longo de sua vida publica, só nos próprios jornais, 11.870 artigos assinados.

Comentário crítico
Ao visitar Nova York, em 1946, para receber o prêmio de jornalismo Maria Moors Cabot, concedido pela Universidade de Columbia, Assis Chateaubriand é fotografado pelo jornal The New York Times que o apresenta como “[...] o milionário dono de 28 jornais, 13 rádios, 3 revistas e uma agência de propaganda, uma espécie de Hearst brasileiro”.3 Personagem de peso da história do Brasil do século XX, Chateaubriand ou Chatô, como muitos o chamam, é responsável por grandes mudanças na arte e na imprensa brasileiras. Seus feitos estão intimamente ligados à história política do país.

A carreira política oficial do dono da Diários Associados, maior conjunto de jornais e revistas no Brasil da primeira metade do século XX, começa em 1951, quando se torna senador da Paraíba. Antes disso, no entanto, já participa ativamente de decisões do plano político nacional. Ao se tornar dono de seu primeiro jornal, em 1924, pretende fazer oposição ao governo do atual presidente da república, Arthur Bernardes (1875-1955). Muitos textos do periódico são críticas diretas ao presidente, que sai do poder em 1926. Já derrotado, o ex-presidente ainda é alvo de Chatô em seu livro Terra Desumana. Fruto de vingança pessoal, só muito mais tarde o texto é considerado relevante e sério pelo historiador Wilson Martins (1921-2010) em seu livro História da Inteligência Brasileira. O episódio é uma pequena amostra das disputas travadas por Chatô, dentre as quais está a relação conturbada com o ora aliado, ora inimigo Getúlio Vargas. “A opinião pública brasileira” que “se chama Assis Chateaubriand”4 tem, sem dúvida, peso nas vitórias de Vargas – cuja campanha para a presidência em 1930, por exemplo, leva Chatô a duplicar seu número de jornais a fim de eleger o político do Rio Grande do Sul.

O poder de formar opiniões de Chatô se deve, em grande parte, ao número de jornais e revistas que o magnata adquire e controla. Admirador da imprensa norte-americana e britânica, percebe que a venda de um periódico é insuficiente para pagar seus funcionários e expandir os negócios. Convida os industriais a anunciarem em seu jornal, com a promessa de atrair mais compradores para seus produtos. A ideia é recebida com resistência. Nos anos 1920, o número de agências publicitárias no Brasil é menor do que dez. Os outdoors só surgem em 1929 e são pequenos e simples. Mas as propostas avant la lettre de Chatô, ainda que vistas com desconfiança, prosperam, e os anúncios dobram o faturamento de seu primeiro jornal.

Suas outras estratégias de venda e lucro são diversas: o formato dos textos muda e os longos artigos são substituídos por reportagens curtas e dinâmicas; os jornais e revistas fazem campanhas, como a campanha pelo uso dos cheques e a campanha nacional da aviação; há concursos e sorteios em que os leitores participam preenchendo cupons e escrevendo à redação. A Meridional, agência de notícias criada em 1930, transforma outros jornais brasileiros em compradores, que pagam para reproduzir textos da Diários Associados. Favorável à entrada do capital estrangeiro no Brasil, Chatô realiza, nos anos 1930, grandes campanhas publicitárias para produtos vindos dos Estados Unidos, como o achocolatado em pó Toddy ou os absorventes femininos Modess. Além da propaganda propriamente dita, os jornais publicam textos de especialistas elogiando os produtos.

Se o magnata tem extenso leque de relações com políticos e empresários, as relações com jovens artistas também são numerosas. Depois de fazer avaliação negativa da Semana de 22, reaproxima-se de artistas como Anita Malfatti (1889-1964), Di Cavalcanti (1897-1976), Bonadei (1906-1974) e Candido Portinari (1903-1962) e os contrata na Diários Associados. Na revista O Cruzeiro, trabalham escritores como Graça Aranha (1868-1931), Manuel Bandeira (1886-1968), Viriato Correia (1884-1967) e Jorge Amado (1912-2001). O jovem desenhista Millôr Fernandes (1923-2012) também faz parte da equipe da revista, que inaugura a seção humorística Pif Paf. A revista conta ainda com o jornalista David Nasser (1917-1980), o fotógrafo francês Jean Manzon (1915-1990), além da participação de Marcel Gautherot (1910-1996) e José Medeiros (1921-1990). A primeira reportagem da dupla é feita na Amazônia e mostra a descoberta da tribo xavante. Esgotada nas bancas, a edição da revista realiza, segundo o escritor Antonio Callado (1917-1997), “a descoberta do índio brasileiro”.5

Dentre as maiores contribuições de Chateaubriand ao país está o Masp, resultado de seu interesse pelas artes e da sua inserção nos círculos da burguesia brasileira. Interessado em construir um acervo de arte moderna no Brasil, Chatô convence Pietro Bardi a ficar no país e montar um museu. Com as dicas de Bardi, viaja e adquire diversas obras, vendidas a preços baratos por conta da crise da Europa após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em grandes jantares, apresenta as obras aos seus financiadores e discursa sobre a importância do mecenato e do financiamento das artes para o povo. Inaugurado em 1947, o Masp tem em seu acervo obras de Renoir (1841-1919), Modigliani (1884-1920), Van Gogh (1853-1890), Degas (1834-1917) e Cezánne (1839-1906), entre outros. Ao comentar sobre o novo museu de São Paulo, uma reportagem italiana fala espantada do “homem nascido no norte (sic) do Brasil”.6 Nordestino, de estatura baixa e origem pobre, Chatô sofre preconceitos durante sua vida. Possivelmente por isso e por seu humor sempre afiado, deixa uma exigência escrita aos seus possíveis biógrafos: o texto deve começar com um delírio seu, em que ele e a filha Teresa comem bispos portugueses. “O deslumbrante piquenique [...]”, continua, “seria a forma ideal de divulgar a origem do meu sangue ameríndio na Europa”.7

Notas
1 Em meio à crise econômica mundial e às disputas internas pelo poder político e econômico, o presidente eleito, Júlio Prestes, é deposto. Getúlio Vargas assume a presidência do Brasil através de um golpe de estado.
2 A ditadura militar se instaura em 1º de abril de 1964 e permanece até 15 de março de 1985. Os direitos políticos dos cidadãos são cassados e os dissidentes perseguidos.
3 O nome Hearst é referência ao norte-americano Willian Randolph Hearst (1863-1951), magnata e dono de cadeia de jornais, cuja vida inspira o filme Cidadão Kane, do diretor Orson Welles (1915-1985). A citação encontra-se em MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1994. p. 460.
4 A frase é título de reportagem do jornal L´Europeo. In: MORAIS, Fernando. idem. p. 487.
5 MORAIS, Fernando. idem. p. 420.
6 MORAIS, Fernando. idem p. 487.
7 MORAIS, Fernando. idem. Epígrafe.

Obras 2

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 7

Abrir módulo
  • Academia Brasileira de Letras Disponível em: [http://www.academia.org.br/imortais.htm]. Acesso em: 01/mar/2004.
  • BARATA, Mário. Presença de Assis Chateaubriand na vida brasileira. São Paulo: Martins, 1971.
  • BARDI, Pietro Maria. História do MASP. São Paulo: Instituto Quadrante, 1992. (Pontos sobre o Brasil, 2).
  • BARDI, Pietro Maria. Sodalício com Assis Chateaubriand. São Paulo: MASP, 1982. 131 p., il. p&b.
  • CHATEAUBRIAND, Assis. O pensamento de Assis Chateaubriand: artigos de jornais. Brasília: Fundação Assis Chateaubriand, 1995.
  • LOURENÇO, Maria Cecília França. Museus acolhem moderno. São Paulo: Edusp, 1999. 293 p., il. p&b. (Acadêmica, 26).
  • MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 732 p., fotos p.b.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: