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Boris Schnaiderman

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 01.11.2018
17.05.1916 Ucrânia / a definir / Uman
18.05.2016 Brasil / São Paulo / São Paulo
Boris Chnaiderman (Úman, Ucrânia, 1916 - São Paulo, São Paulo, 2016). Tradutor, ensaísta, crítico literário, romancista e professor. Mora em Odessa com a família, que, descontente com o regime bolchevique e a presença soviética na Ucrânia, transfere-se para o Brasil em 1925. A partir da década de 1940, traduz obras do russo, com o pseudônimo Bor...

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Biografia

Boris Chnaiderman (Úman, Ucrânia, 1916 - São Paulo, São Paulo, 2016). Tradutor, ensaísta, crítico literário, romancista e professor. Mora em Odessa com a família, que, descontente com o regime bolchevique e a presença soviética na Ucrânia, transfere-se para o Brasil em 1925. A partir da década de 1940, traduz obras do russo, com o pseudônimo Boris Solomov.

Suas traduções figuram entre as primeiras realizadas, em território brasileiro, diretamente dos textos russos originais. Verte para o português as obras de Fiodor Dostoievski (1821-1881), Lev Tolstoi (1828-1910), Aleksandr Puchkin (1799-1837), Anton Tchekov (1860-1904) e Isaac Babel (1894-1940), entre outros. Formado em engenharia agronômica pela Escola Nacional de Agronomia, no Rio de Janeiro, divide o trabalho de tradutor com o de agrônomo, que exerce por insistência da família.

É convocado para a Segunda Guerra Mundial pela Força Expedicionária Brasileira (FEB), em 1944, interrompendo as duas atividades. Sua experiência como sargento de artilharia e controlador de tiro vertical resulta no livro de ficção Gerra em Surdina, editado em 1964. Passa, em 1957, a colaborar com artigos na imprensa e, três anos depois, é um dos responsáveis pela fundação do curso de língua e literatura russas na Universidade de São Paulo (USP). Na década de 1960, em consequência de sua origem e com o estigma de comunista, Schnaiderman tem problemas com a ditadura militar e é preso na Cidade Universitária, onde leciona.

No fim dessa década, os diálogos entre o tradutor e os poetas do concretismo Augusto de Campos (1931) e Haroldo de Campos (1929-2003) levam a um trabalho conjunto de tradução e apresentação da poesia moderna russa: um volume de traduções do poeta Vladimir Maiakovski (1893-1930), em 1967, e outro de antologia dos poetas russos da vanguarda, em 1968. Aposenta-se em 1979, mas mantém atividade na pós-graduação e intensifica o ofício de tradutor. Publica, em 1999, a versão de A Dama de Espadas, de Aleksandr Puchkin, em parceria com o tradutor e poeta brasileiro Nelson Ascher (1958). Recebe o título de professor emérito da USP, em 2001, e o Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras, em 2003. No ano de 2007, o governo da Rússia lhe concede a Medalha Púchkin, um reconhecimento por sua contribuição na divulgação da cultura russa.

Análise

Boris Schnaiderman tem um importante papel na tradução e apresentação de diversos clássicos russos e soviéticos. Seu livro A Poética de Maiakovski Através da Prosa traz para o português, amparadas por ensaios e notas explicativas, traduções de textos do autor russo situadas dentro do debate sobre o modernismo e as vanguardas. Esse estudo e outras traduções diretamente do russo, raras no país no final da década de 1960, ao lado de ensaios e apresentações críticas realizadas com os irmãos Campos, são os primeiros esforços sistemáticos de aproximação nacional com a cultura de países de língua russa.

O debate sobre o cubo-futurismo russo e o construtivismo, importante na constituição de parte significativa das artes brasileiras da década de 1950 e 1960, ganha com os estudos do autor sobre Maiakovski uma forte referência direta aos contextos de formação desses movimentos. São traduzidos e comentados no livro textos que problematizam a maneira como o autor soviético pensa a lírica naquele contexto específico. Também apresenta conferências, reflexões sobre os movimentos e as vanguardas, observações sobre a situação cultural em outros países que Maiakovski visita, encenações teatrais, cinema, a relação entre arte e vida e arte e política, entre outros.

Schnaiderman escreve, ainda, livros importantes sobre a cultura russa, especialmente os que tratam de Dostoievski e Mikhail Bakhtin (1895-1975). Em Os Escombros e o Mito (1997), produz pequenos ensaios em que reflete sobre a cultura e o fim da União Soviética, fazendo um balanço de aspectos centrais da vida cultural daquele país. Com a perestroika e a glasnost, diversos documentos, informações e manuscritos que foram confiscados pela KGB, a polícia secreta soviética, vem à tona, possibilitando uma reflexão sobre a abertura política e os centros de força da cultura russa. Schnaiderman recupera os momentos literários, o teatro, as artes plásticas, a poesia, as reflexões sobre teoria literária e a linguagem. A todo momento, os coteja com o presente do país por meio das publicações com que entra em contato: jornais, visitas que faz a museus e lugares russos etc. Discute, também, o processo de abertura religiosa, as questões éticas e políticas e os problemas ligados à Revolução Russa e aos seus desdobramentos posteriores, a arquitetura e o urbanismo soviético (que virou referência em grande parte o século XX), o surgimento de desdobramentos políticos da abertura e outras questões centrais para a cultura daquele país.

Em 1964 é publicado seu romance Guerra em Surdina. O personagem principal, João Afonso, é convocado e se integra à FEB para lutar ao lado dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Boris Schnaiderman elabora, por meio do personagem João Afonso, uma espécie de alter ego do autor, misturando o andamento ficcional com reminiscências dos diversos momentos da guerra - desde a convocação até os confrontos - até o retorno ao país. Por meio da variação do ponto de vista narrativo - os capítulos alternam a voz em primeira pessoa de João Afonso com um narrador em terceira pessoa - o livro relata o processo progressivo de desumanização dos personagens. São narrados a convocação no saguão do Ministério da Guerra no Brasil, os preparativos e exames, a viagem de navio, a chegada e os deslocamentos das tropas pela Europa, as batalhas e o retorno. Na volta ao Brasil, o personagem principal e muitos que o acompanharam não se integram à nova realidade.

No último capítulo, essa estrutura partida em duas vozes apresenta sua razão de ser de maneira mais enfática quando o narrador, em um ato de consolo à dor de João Afonso, se dirige a ele diretamente dizendo: “Você está só, irremediavelmente só”. Ao que o personagem responde: “Sim, estou só”. O romance termina constatando, nessa aproximação das duas vozes, a falta de sentido de uma luta por ideais que não estavam presentes na realidade nacional. E uma falta de sentido ainda maior, vivenciada pela população de baixo estrato social, quando o ditador Getúlio Vargas é derrubado e ideais aparentemente democráticos são instaurados no Brasil. Essa falta de sentido final é, no saldo do romance, a tomada de consciência da distância entre os diferentes estratos sociais e da consequente solidão de João Afonso.

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