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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Juliana Notari

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 08.11.2021
13.04.1975 Brasil / Pernambuco / Recife
Juliana Notari (Olinda, Pernambuco, 1975). Artista visual, pesquisadora e professora. Sua produção é performática e multimídia, voltada para as investigações sobre os modos e as intensidades das variadas violências aplicadas ao corpo feminino.

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Juliana Notari (Olinda, Pernambuco, 1975). Artista visual, pesquisadora e professora. Sua produção é performática e multimídia, voltada para as investigações sobre os modos e as intensidades das variadas violências aplicadas ao corpo feminino.

Gradua-se em artes visuais pela Universidade Federal de Pernambuco, em 2003, e obtém o título de mestre em artes visuais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no ano de 2014, mesma instituição onde inicia seu doutorado em 2016. É contemplada com a Bolsa de Residência Artística e Produção de Obra na École Supérieure d’Art d’Aix-en-Provence, na França, no ano de 2009, e com o Prêmio Funarte Mulheres nas Artes Visuais, em 2013.

Atuando majoritariamente entre as cenas carioca e pernambucana, com incursões também na cena paulista e mais pontualmente na França, Notari articula em sua produção contrastes entre a sensorialidade de certos materiais, a eroticidade e a abjeção de alguns gestos e substâncias. Tanto na performance Symbebekos (2002), em que Notari abre caminho por um conjunto de louças de vidros quebrados, quanto na série performática Diário de Bandeja, desenvolvida entre 2004-2008, os objetos e o ambiente acolhedor de quartos burgueses e de mesas de jantar são rearticulados pela artista como locais de risco, de negociações e de conflitos dos desejos.

Tomando a feminilidade no sentido simbólico e em sua condição intrínseca com a corporalidade das mulheres, Notari elabora também peças performáticas, objetos, esculturas e desenhos, em que as normativas da subjetividade feminina (que nos referenciais da artista é elaborada por valores católicos e conservadores, agrários) surgem atravessadas por violências tanto ofensivas à sua dignidade quanto potencializadoras de desejos, como no happening Janta (2002), em que Notari cozinha e serve uma refeição luxuosa sobre uma mesa de cabelos humanos, e em Desmantelo (2003), em que a artista ateia fogo em praça pública numa mesa e em grandes bolas feitas de cabelo humano.

Nessa ambivalência de violências, que se manifestam em sua obra ora como transgressão ofensiva, ora como processo de ruptura de regimes, Notari elege a imagem da ferida como recorrente alegoria dessas dicotomias. Em trabalhos como Dra. Diva (2006), Spalt-me (2009 e 2016), e na escultura land-art (ou earthwork) Diva (2021), a imagem da ferida funde-se a outras significâncias ligadas à feminilidade, como cabelos, pelos pubianos e, principalmente, às fendas corpóreas, em especial a vagina.

Na performance Dra. Diva, Notari golpeia exaustivamente uma parede branca, criando nela buracos e fendas que posteriormente são preenchidos por sangue de boi e um espéculo (aparelho utilizado para exames ginecológicos mais invasivos), que abrem a cavidade vaginal e expõem a interioridade uterina. Spalt-me, na versão de 2009, é uma variação desse primeiro gesto performático, pois ali Notari também golpeia uma parede branca com martelo, mas, nessa versão, os dejetos vazam de seu interior e revelam uma ferida previamente instalada, antiga, em meio aos escombros da construção. Na versão de 2016, a artista exibe uma ferida monumental na parede externa de edifícios em algumas cidades europeias, por meio de uma plotagem fotográfica da fenda-vagina-buraco criada em 2009.

As proposições de Dra. Diva e Spalt-me convergem efetivamente para a grande escultura Diva, inaugurada em 2021 no espaço cultural Usina de Arte, em Pernambuco. Na lateral de um montículo do espaço cultural, uma antiga usina de açúcar desativada, Notari escava, assistida por uma equipe de trabalhadores do local, uma enorme fenda vaginal, que depois recebe um molde de cimento pintado de vermelho. Com essa obra, Notari afirma-se como uma das poucas artistas mulheres  brasileiras a trabalhar com a monumentalidade escultórica em locais abertos e de vegetação natural, enaltecendo a corporalidade feminina em uma parte anatômica historicamente rechaçada pelos regimes patriarcais. A obra tem uma recepção polêmica tanto no meio crítico quanto leigo, desencadeando comentários exaltados sobre a relevância de tal projeto, muitos atravessados por misoginia e discurso de ódio – algo que, indiretamente, corrobora a força de sua proposição e a crítica ao machismo que atravessa a obra da artista.

Ainda que hesite em se definir como uma artista feminista, a produção poética de Juliana Notari aciona uma série de tópicos de movimento político nas artes, como as relações com o corpo, as violências de gênero, as formas de manifestação dos desejos, mas sempre com obras formalmente bem articuladas com as questões conceitualistas e mesmo telúricas, não deixando de lado a herança cultural católica e coronelista do Nordeste brasileiro.

 

Exposições 74

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Fontes de pesquisa 5

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  • ALEXANDRAKIS, F.; TRIZOLI, Talita. O simbolismo da vulva e da vagina na arte feita por mulheres. Nexo Jornal, 8 jan. 2021. Disponível em: www.nexojornal.com.br. Acesso em: 18 jul. 2021.
  • DINIZ, Clarissa; CAMPOS, Marcelo; CASSUNDE, C. E. B. À Nordeste. Serviço Social do Comércio. Administração Regional no Estado de São Paulo. Catálogo expositivo. São Paulo: Sesc, 2019.
  • LESAGE-MÜNCH, Anne-Sophie; GUEZ, Salomé. Land Art: Un sexe féminin en béton armé de 33 m de haut fait scandale au Brésil. Connaissance des Arts, 7 jan. 2021. Disponível em: https://www.connaissancedesarts.com/. Acesso em: 18 jul. 2021.
  • VERAS, Luciana. Juliana Notari. Revista Continente, 2 set. 2019. Disponível em: www.revistacontinente.com.br. Acesso em: 5 jul. 2021.
  • WILMERSDORF, Pedro. ‘Ela abriu feridas profundas', diz criadora de 'vulva gigante' em parque de Pernambuco. O Globo, 4 jan. 2021. Disponível em: www.oglobo.com.br. Acesso em: 5 jul. 2021.

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