Artigo da seção pessoas Lúcia Murat

Lúcia Murat

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deLúcia Murat: 1949 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Lúcia Murat (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1949). Cineasta. Sua carreira cinematográfica é marcada por filmes que tratam da ditadura no Brasil, da repressão militar e da tortura. Em 1967, ingressa na faculdade de economia e torna-se militante do movimento estudantil. Em 1968, é presa pela primeira vez no congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna, São Paulo. Após a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em dezembro deste mesmo ano, entra na clandestinidade e parte para a guerrilha. Em 1971, é presa novamente sendo torturada no Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Sai da prisão em 1974 e passa a escrever artigos para periódicos como o Jornal do Brasil e as revistas Opinião e Movimento. Em 1978, capta as imagens do documentário Pequeno Exército Louco (1984) sobre a luta da guerrilha na Nicarágua. Após sair da prisão, é  processada  pelo Estado por suas atividades como militante até ser anistiada em 1979.

No início dos anos 1980, dirige documentários para a TV Educativa e Bandeirantes. No final da década, dirige Que Bom Te Ver Viva (1989), sobre ex-presas políticas torturadas na ditadura.  Durante a década de 1990, dirige documentários em curta e média metragens para a TV Manchete, sempre tematizando a problemas do Brasil, como Reforma Agrária (1991) e 18 do Forte (1995). Após o fim da Embrafilme, na retomada do cinema brasileiro, dirige Doces Poderes (1996). A partir de então, dedica-se integralmente a realização de longas-metragens para o cinema, tais como Brava Gente Brasileira (2000) que retrata a relação conflituosa entre portugueses e índios no século XVIII, Quase Dois Irmãos (2004), Uma Longa Viagem (2011), A Memória que me Contam (2012). 

Análise

A filmografia de Lúcia Murat trata de temas autobiográficos, relacionando sua trajetória de vida com fatos históricos do país. As obras apresentam temas políticos de caráter humanista, referidos a sua  formação cultural e política de esquerda nos anos 1960. O tema da memória é marcante e baseia-se na relação entre sua experiência, a história contada em retrospectiva e o tempo presente. Que Bom Te Ver Viva, por exemplo, articula depoimentos de ex-presas políticas torturadas, e comentários ficcionais de uma ex-presa  [Irene Ravache (1944)], para condensar na personagem o que se assiste nos depoimentos: a experiência traumática vivida na ditadura, as marcas desse passado no tempo presente, e os projetos de futuro. 

O vínculo entre a época da ditadura e a da democracia, retorna na ficção Quase Dois Irmãos. O filme centra-se na amizade entre Jorginho, negro e morador da favela, e Miguel, branco de classe média, e suas famílias no Rio de Janeiro. A narrativa aborda a atuação da militância de esquerda durante o regime militar, estabelecendo as consequências no presente. Nesse sentido, Quase Dois Irmãos chama a atenção para os valores que separam esta militância das classes pobres, e o machismo cultural que os aproxima. A distância entre as classes e seus efeitos, aparece simbolizada no reencontro e convívio de Miguel, um dos presos políticos, com Jorginho, um dos comuns, na prisão de Ilha Grande nos anos 1970. A classe média entra em contato com as drogas e a marginalidade ao mesmo tempo em que a população do morro aprende a se organizar. Após conflitos de valores entre as duas classes na prisão, o grupo de Miguel constrói um muro que o separa dos presos comuns. Jorginho escolhe ficar ao lado destes e funda a facção criminosa “Comando Vermelho”. A opressão de gênero perpassa todo o filme, com foco no conflito de classe.

Outras informações de Lúcia Murat:

  • Habilidades
    • Cineasta

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Eventos relacionados (3)

Fontes de pesquisa (8)

  • BERGER, Christa. A contribuição do cinema para a memória da ditadura brasileira. Comunicação e Educação: revista do Departamento de Comunicações e Arte da USP, São Paulo, v. 14, n. 3, p. 30-36, 2009. Disponível em: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9125.v14i3p29-36. Acesso em: 14 jun. 2016.
  • CALEGARI, Lizandro Carlos. Testemunho, trauma e identidade em Que bom te ver viva, de Lúcia Murat. Amerika - Mémoires, Identités, Territoires, Rennes, n. 8, 2013. Disponível em: http://amerika.revues.org/4054.  . Acesso em: 14 jun. 2016.
  • MURAT, Lúcia. Quase Dois Irmãos. (entrevista). Revista de Cinema, São paulo, v. 9, n. 91, p. 46, nov./ dez. 2008.
  • MURAT, Lúcia. Informar o coração sem anestesia. (entrevista). Cinemais, Rio de Janeiro, n. 3, p. 67-74, jan./ fev. 1997.
  • NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • PEREIRA, Miguel. Carri e Murat: memória, política e representação. Significação: revista de cultura audiovisual, v. 36, n. 32, p.189-201, 2009. Disponível em: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-7114.sig.2009.68098.  Acesso em: 14 jun. 2016.
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2012.
  • XAVIER, Ismail. Cinema nacional: táticas para um tempo sem estratégias. Comunicação e Educação (Revista do Departamento de Comunicações e Arte da USP) - n.18(2000), p. 82- 86. Disponível em: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9125.v0i18p81-86  Acesso em: 14 jun. 2016.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LÚCIA Murat. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa371773/lucia-murat>. Acesso em: 21 de Out. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7