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Música

Flô Menezes

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.05.2019
18.04.1962 Brasil / São Paulo / São Paulo
Florivaldo Menezes Filho (São Paulo SP 1962). Compositor, musicólogo, professor. Começa a estudar piano aos 5 anos. Aos 13, decidido a estudar música eletroacústica em Colônia, na Alemanha, inicia estudo de composição e alemão. Entre 1980 e 1985, é aluno de Willy Corrêa de Oliveira no Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da U...

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Biografia
Florivaldo Menezes Filho (São Paulo SP 1962). Compositor, musicólogo, professor. Começa a estudar piano aos 5 anos. Aos 13, decidido a estudar música eletroacústica em Colônia, na Alemanha, inicia estudo de composição e alemão. Entre 1980 e 1985, é aluno de Willy Corrêa de Oliveira no Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Atua ainda como pianista em concertos de música contemporânea e, como regente, é responsável pela primeira execução no Brasil do Konzert Op. 24, de Anton Webern, em 1984. Nessa época inicia suas pesquisas sobre harmonia, cujos resultados são publicados no livro Apoteose de Schoenberg (Edusp, 1987).

Aperfeiçoa-se no Estúdio de Música Eletrônica da Musikhochschule de Colônia, de 1986 a 1989, e obtém o diploma de mestre em composição eletrônica. Frequenta ainda os cursos do compositor francês Pierre Boulez, no Centre Acanthes, França, em 1988, e do italiano Luciano Berio, no Mozarteum de Salzburg, Áustria, em 1989. Sua análise da obra Visage, de Berio, vence o Concurso Internacional de Musicologia da Itália, em 1990, e no ano seguinte, é pesquisador visitante do Centro de Sonologia Computacional de Pádua, na Itália. Conquista o grau de doutor na Universidade de Liège, Bélgica, em 1992, orientado pelo compositor belga Henri Pousseur, com tese sobre a obra de Berio e as origens da música eletroacústica. E nesse ano ainda organiza os manuscritos do compositor italiano na Fundação Paul Sacher, na Basileia, Suíça.

Em 1993, torna-se professor do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde funda no ano seguinte, em parceria com a Faculdade Santa Marcelina, o Studio PANaroma de Música Eletroacústica, do qual é até hoje diretor. Cria em São Paulo o Concurso e a Bienal Internacional de Música Eletroacústica, em 1995 e 1996, respectivamente. Defende, em 1997, o título de livre-docente com a tese Atualidade Estética da Música Eletroacústica, publicada no ano seguinte. Leciona no Stockhausen-Kurse, em Kürten, Alemanha, em 1999 e 2001. Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), funda, em 2002, o PANaroma Unesp - Teatro Sonoro (Puts), teatro móvel de alta qualidade tecnológica destinado à difusão eletroacústica. Desde 2004 é professor visitante na Universidade de Colônia.

Entre os prêmios que recebe como compositor, destacam-se o da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), na França, em 1991, pela peça eletrônica Contextures I (Hommage à Berio); Tribuna Musical para América Latina y el Caribe (Trimalca) na Argentina, em 1993, por Profils Écartelés (piano e tape), também selecionada para os cursos de verão de Darmstadt em 1990; Ars Electronica, na Áustria, em 1995, por Parcours de l'Entité (flauta, percussão e fita magnética); Luigi Rossolo, na Itália, em 1996, por A Viagem sobre os Grãos (dois percussionistas e fita magnética); e Giga-Hertz-Preis, na Alemanha, em 2007, principal prêmio europeu de composição eletroacústica, por La Novità del Suono (orquestra de câmara e eletrônica em tempo real). Sua obra é interpretada por importantes grupos internacionais, como Ensemble Recherche, da Alemanha; Ictus, da Bélgica; New Century Players, dos Estados Unidos; Ensemble Orchestral Contemporain, da França; e Arditti Quartett, da Inglaterra.

Comentário Crítico
Considerado um dos mais notórios representantes da música eletroacústica internacional e um dos principais compositores brasileiros de sua geração, Flo Menezes tem uma trajetória bastante singular, desvencilhada de qualquer grupo ou movimento musical brasileiro contemporâneo ou anterior a ele, ainda que reconheça em Willy Corrêa de Oliveira seu mestre de composição. Sua obra se origina, segundo ele, do interesse pela experimentação e pela especulação em torno do som e da linguagem musical, interesse que se volta não apenas para o evento musical "puro", mas também para aquele mediado pela intelecção. Assim, desde suas primeiras peças, ele procura a união entre uma estruturação de tipo intelectual e uma realização musical que "funcione", impactando o ouvinte já na primeira audição. Nessa busca, depara-se com os compositores europeus de Darmstadt,1 que ele denomina "referências históricas da vanguarda".2 Sua obra é fortemente marcada pela influência de quatro professores e compositores dessa escola: Pierre Boulez, no campo das técnicas de estruturação musical; Henri Pousseur, quanto à harmonia; Karlheinz Stockhausen, no que diz respeito à pesquisa do material sonoro; e Luciano Berio, no tocante ao gesto musical e à construção da direcionalidade da composição, bem como à exploração da voz. A partir dessas influências, ele procura fundir o experimentalismo sonoro da música concreta3 francesa e da eletrônica4 alemã ao estruturalismo do serialismo integral.5

Embora também componha para formações exclusivamente instrumentais, sobretudo no início da carreira, Menezes é mais conhecido por sua atuação no campo da música eletroacústica,6 criando tanto peças acusmáticas (escritas para meios eletrônicos e executadas sem a presença de intérpretes) quanto mistas (baseadas na fusão de vozes e/ou instrumentos musicais e sons eletrônicos). É o caso de sua composição orquestral Pan, de 1986, cujo quarto movimento, nunca executado, mistura sons eletrônicos ao da orquestra, ou Profils Écartelés, para piano e fita magnética, de 1988.

A voz é um elemento bastante presente em suas composições. Filho de Florivaldo Menezes (1931), poeta visual próximo ao círculo da poesia concreta, e irmão de Philadelpho Menezes (1960 - 2000), introdutor da poesia sonora no Brasil, Flo procura entender o verbo como manifestação eminentemente musical. Isso o leva a criar processos composicionais baseados na palavra falada, estendendo no tempo seus fonemas e estruturas - processo que ele denomina forma-pronúncia. Em sua composição verbal7 Pan: Laceramento Della Parola (Omagio a Trotskji), 1986-1987, versão autônoma do quarto movimento da citada Pan, ele dilata o nome do personagem mitológico8 em três momentos (P, A e N), de modo que a palavra, corriqueiramente pronunciada menos de um segundo, dure sete minutos e 40 segundos. Tal procedimento é considerado por Hans Ulrich Humpert (seu professor no estúdio de Colônia, Alemanha, onde a obra é concluída) uma das invenções mais consequentes realizadas na instituição nesses anos. A forma-pronúncia também é utilizada em Phantom-Wortquelle: Words in Transgress, de 1987. A peça se inicia com a declamação, em alemão, de uma frase escrita originalmente em latim por Guido d'Arezzo ("Que tudo que seja falado torne-se canto"), à qual se seguem outras frases de diversos autores. Pouco a pouco, ao ser manipulada, a voz deixa de ser palavra até se tornar som puro. Já no Livro do Ver(e)dito, 2007, encomendada pelo Groupe de Recherches Musicales (GRM), de Paris, e estreada pela orquestra de alto-falantes Acousmonium, o processo é outro: em vez de "desverbalizar" a palavra por meio de sua extensão no tempo, monofonicamente, ele realiza a sobreposição polifônica de diversas falas, descaracterizando, assim, seu conteúdo verbal.

A radicalidade de Menezes aparece ainda no conceito de "música maximalista", termo cunhado por ele em 1983 para descrever sua peça instrumental Micro-Macro: Liedforma de Amor à Reg, encomendada pelos professores do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), onde ele é aluno, para um concerto no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Explica o jovem compositor: "A constante aparição de novas informações e a direcionalidade à cada vez maior complexidade de textura (através da memória de elementos) fazem com que Micro-Macro seja uma manifesto maximalista".9 Trata-se de crítica explícita ao minimalismo,10 corrente então em voga, a cujas reduções, repetições e sonoridades facilmente assimiláveis ele opõe uma música altamente informativa e complexa, tanto no que se refere às elaborações intelectuais (tais como a estrutura da obra) quanto a seus aspectos tangíveis, perceptíveis pela mera escuta. O objetivo da música maximalista (que não é uma invenção de Menezes, mas a nomeação de um fenômeno preexistente) é provocar no ouvinte o desejo de retornar à obra, de modo a perceber nela elementos que não poderiam ser apreendidos numa primeira escuta.

Flo Menezes é ainda conhecido por suas posturas radicais no que diz respeito à estética musical. Crítico ferrenho da indústria cultural e da "imbecilização da escuta",11 não reconhece nenhuma legitimidade na música popular urbana (que ele afirma jamais escutar, por não admitir "submeter sua escuta a propostas não radicais"12) e avalia a "usurpação" do termo música eletrônica por parte dos DJs produtores de música tecno, que ele julga de "décima quinta categoria".13 Critica o nacionalismo musical e o culto a Villa-Lobos, que ele considera um compositor de talento e autor de peças muito boas, mas medíocre no conjunto de sua obra. Por realizar um "trabalho sem concessões", recusa-se a fazer trilhas sonoras e obras funcionais, sendo raros os trabalhos em conjunto com artistas de outras áreas (é o caso de Atlas Folisepelis, composição que recebe uma "trilha visual" dos videoartistas Kiko Goifman e Jurandir Müller; ou Harmonia das Esferas, empregada pela artista Regina Johas, sua esposa, para a realização do DVD Campos do Desenho).

Notas
1 Fundada em 1946, a Escola de Verão de Darmstadt promove cursos de férias sobre a música nova, como era chamada a música serial e outras técnicas recentes de composição.

2 MENEZES, Flo. Música maximalista: ensaios sobre a música radical especulativa. São Paulo: Ed. Unesp, 2006. Tal denominação é feita em comparação aos que ele chama de "referências da vanguarda histórica" (Arnold Schoenberg, Alban Berg e Anton Webern), grupo conhecido como Segunda Escola de Viena.

3 Criada em 1948 pelo compositor francês Pierre Schaeffer (1910-1995), a música concreta propunha a utilização de sons "concretos", captados por microfones e manipulados em estúdio, como material composicional.

4 Criada em 1949 pelo compositor alemão Herbert Eimert (1897-1972), nos estúdios de Colônia, a música eletrônica propõe a utilização de sons gerados (ou sintetizados) por meio de instrumentos de rádio.

5 Técnica composicional sistematizada por Pierre Boulez na década de 1950. Trata-se de um desdobramento do serialismo criado na década de 1920 por Arnold Schoenberg, que propõe a utilização de séries (sucessão ordenada de elementos a serem utilizados como material composicional) compostas de 12 notas da escala cromática - daí esse sistema também ser conhecido como dodecafonismo. O serialismo integral expande a noção de série, originalmente restrita às alturas (notas), para diversos parâmetros musicais (como duração, intensidade, timbre).

6 Música eletroacústica: denominação genérica, cunhada por Pierre Schaeffer em 1958 para designar composições feitas com base tanto em sons externos captados e manipulados por meios eletrônicos (antigamente chamada música concreta) como em sons sintetizados, gerados eletronicamente.

7 Composição verbal: subgênero da música eletroacústica caracterizado pelo uso de sons verbais eletrônicos e manipulação da palavra falada. Entre as principais obras desse subgênero destacam-se O Cântico dos Adolescentes, 1955-1956, de Stockhausen; Thema (Ommagio a Joyce), 1958, de Berio; e Epitaph für Aikichi Kuboyama, 1961-1962, de Eimert.

8 A palavra Pan, aliás, é recorrente no trabalho do compositor, presente no nome de seu estúdio (PANaroma) e no título de várias composições.

9 Programa do Concerto do Meio-Dia, realizado no Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp) em 9 de novembro de 1983. Apud MENEZES, Flo. Música maximalista. São Paulo: Ed. Unesp, 2006. p. 7.

10 Movimento musical que propõe a exploração de eventos sonoros simples e elementares. Para tanto, utiliza recursos como a repetição (com o uso, por exemplo, de uma batida constante, quase hipnótica, colorida por mínimas variações na métrica) e a imobilidade (com o emprego de notas longas, quase estáticas).

11 MENEZES, Flo. Entrevista ao site USP Online. Encontro da Música Eletroacústica Brasileira no 39º Festival de Música Nova, em 11 de agosto de 2004. Disponível em: http://www4.usp.br/index.php/educacao/1580. Acesso em: 20 fev. 2011.

12 SILVA, Humberto Pereira da. Odisseia eletroacústica. Entrevista de Flo Menezes ao site Trópico, em 7 de julho de 2007. Disponível em: http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2880,1.shl. Acesso em: 22 fev. 2010.

13 MENEZES, Flo. Uma conversa com o compositor. Depoimento ao Centro Cultural São Paulo, em 10 de agosto de 2004. In: DONADIO, Vera Lúcia (org.). Música contemporânea brasileira I. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 2007. Coleção Cadernos de Pesquisa, v. 2.

Exposições 3

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Fontes de pesquisa 6

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  • FLO MENEZES. Sítio do artista. Disponível em: http://www.flomenezes.mus.br. Acesso em: 20 fev. 2011.
  • FLO Menezes. In:B.R.A.H.M.S. - Base de documentation sur la musique contemporaine. Disponível em: http://brahms.ircam.fr/composers/composer/2266. Acesso em: 18 fev. 2011.
  • MENEZES, Flo. "Música de palabras". Entrevista a Jaime Eduardo Oliver. Lima, Peru, Maio de 2004. In: Distancia Crítica. Ano 1, n° 2, Lima, agosto 2004, p. 30-32.
  • MENEZES, Flo. "Uma conversa com o compositor". Depoimento ao Centro Cultural São Paulo, 10/08/2004. In: DONADIO, Vera Lúcia (org.). Música contemporânea brasileira I. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 2007. (Coleção cadernos de pesquisa, v. 2).
  • MENEZES, Flo. Música maximalista: ensaios sobre música radical e especulativa. São Paulo: Editora Unesp, 2006.
  • SILVA, Humberto Pereira da. "Odisséia Eletroacústica". Entrevista de Flo Menezes ao site Tropico. 07/07/2007. Disponível em: http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2880,1.shl. Acesso em: 22 fev. 2010.

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