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Música

Alzira E

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 18.10.2014
08.09.1957 Brasil / Mato Grosso do Sul / Campo Grande
Alzira Maria Miranda Espíndola (Campo Grande MS 1957). Cantora, compositora, instrumentista. Aos 9 anos, com a irmã Tetê, compõe sua primeira canção (Aa vaa cama), registrada no disco Amme, em 1991, e, aos 10, autodidata, aprende a tocar violão. Em 1968, forma com os irmãos Tetê, Geraldo e Celito o grupo Lua Nova, que excursiona entre Cuiabá e C...

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Biografia

Alzira Maria Miranda Espíndola (Campo Grande MS 1957). Cantora, compositora, instrumentista. Aos 9 anos, com a irmã Tetê, compõe sua primeira canção (Aa vaa cama), registrada no disco Amme, em 1991, e, aos 10, autodidata, aprende a tocar violão. Em 1968, forma com os irmãos Tetê, Geraldo e Celito o grupo Lua Nova, que excursiona entre Cuiabá e Campo Grande. Em 1975, o grupo se reúne novamente sob o nome Luz Azul, apresentando composições próprias de caráter regional, entre as quais figuram algumas de Alzira. Rebatizado com o nome Lírio Selvagem e sediado em São Paulo, o conjunto grava um disco em 1978 (Tetê e o Lírio Selvagem, em que Alzira faz sua primeira aparição como cantora) e se dissolve em 1980.

Depois de trabalhar com os violeiros Almir Sater e Passoca e conhecer a chamada Vanguarda Paulista,¹ Alzira inicia carreira solo em 1986, com o LP Alzira Espíndola (3M). Nele, com participação da viola de Almir Sater, grava canções de sua autoria (como Fluir, Luzmarina, Rio Fatal e Vejo a Vida, essa última em parceria com Arrigo Barnabé) e de outros compositores da Região Centro-Oeste. Em 1988, participa com a irmã Tetê da gravação de Adeus Pantanal, de Itamar Assumpção, com quem começa uma frutífera parceria, compondo algumas das canções de seu segundo álbum, AMME (iniciais de seu nome completo), produzido pelo selo Baratos Afins em 1991. Indicado ao Prêmio Sharp 1992 de melhor cantora pop, o disco também marca a estreia de sua longa parceria com a poeta Alice Ruiz. O terceiro disco, Peçamme (Baratos Afins), é lançado em 1996. Em 1998, canta com a irmã Tetê clássicos da música sertaneja sul-mato-grossense no álbum Anahí (Dabliú). Ainda nesse ano, no álbum Olhos de Farol, Ney Matogrosso grava Bomba H, dela com Itamar Assumpção. Dessa parceira resultam Finalmente, Transpiração e Existem Coisas na Vida, todas gravadas por Ney Matogrosso. Em 2000, Alzira relê o repertório de Maysa no CD Ninguém Pode Calar (Dabliú), cuja faixa Meu Mundo Caiu é incorporada à coletânea Divas do Brasil, lançada em Portugal em 2003. Participa também do disco Pop Pantanal, do irmão Jerry Espíndola, na faixa Azeite, em que eles dividem a autoria com Itamar Assumpção. No ano seguinte, reúne-se com os irmãos para realizar o disco independente Espíndola Canta. Em 2005, grava 12 músicas compostas em parceria com Alice Ruiz, no disco Paralelas, pelo selo de Zélia Duncan, que canta em três faixas. Faz também parceria com Dante Ozzetti (Parte B), Lucina (Outra Coisa), Luhli (Chorinho Caipira) e Sueli Batista (Chapada Reluz). No mesmo ano, inicia parceria com o poeta Arruda, com quem compõe Fácil, Diz, Assim que Possível e Toda Tão, finalistas do Prêmio Visa de Composição 2006 e lançadas, com outras nove canções da dupla, em Alzira E (2007, Duncan Discos), que ela adota como novo nome artístico. Uma dessas parcerias, Chega Disso, é gravada por Zélia Duncan. Em 2011, lança com o poeta Arruda o disco Pedindo a Palavra.
 
Nota
1 Denominação dada pela imprensa paulistana a um conjunto heterogêneo de músicos e bandas que, entre 1979 e 1985, se reúnem no teatro Lira Paulistana, em São Paulo. Entre eles destacam-se Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia, Premeditando o Breque, Grupo Rumo e Língua de Trapo. Alzira chega a se apresentar nesse teatro no início dos anos 1980.

 

Comentário crítico

Inicialmente, as composições de Alzira Espíndola caracterizam-se pela fusão da música regional sul-mato-grossense com gêneros urbanos modernos. Sua primeira canção registrada em disco, Na Catarata (gravada em Tetê e o Lírio Selvagem), é uma guarânia na qual ecoam sonoridades do rock: "Eu sou um bicho pequeno aqui no rocha/ Eu tenho a terra e não penso em domá-la/ A roça grande é um mundo de raiz/ Gerando sangue, muito verde por aqui". À letra impregnada de imagens do Pantanal (presentes no figurino do grupo, com estampas de onças, tuiuiús e folhagens), soma-se uma melodia de colorações regionais, apoiada sobre o acompanhamento rítmico e o baixo típicos do gênero paraguaio, porém modernizada pela presença de instrumentos eletrônicos.

Tendo aprendido a tocar violão de ouvido, sem o aporte da teoria musical, suas melodias raramente se baseiam na escala diatônica,¹ predominantemente modais.² Tal característica a aproxima dos músicos experimentais de São Paulo da década de 1980, como Arrigo Barnabé. Com ele compõe Vejo a Vida ("Vejo a vida/ Na vida, vivo, namoro/ Sou querida/ Não fico triste, não choro"), cuja melodia, criada por ela, não tem nenhuma altura que funcione como "ponto de chegada", sendo impossível definir sua tonalidade. Além disso, a canção ressalta o desenho melódico da própria fala, sem demorar muito tempo nas vogais nem repetir células melódicas "cantáveis". Tais elementos, espontâneos na compositora, são deliberadamente pesquisados por membros da Vanguarda Paulista, como o próprio Arrigo Barnabé e o Grupo Rumo. Porém, mesmo adquirindo caráter urbano, ao longo dos anos 1980 a música de Alzira traz ainda um quê regionalista, com a utilização de gêneros como a polca e a guarânia.
O processo de criação de um estilo próprio, desvinculado de suas origens sul-mato-grossenses, só se consuma nos anos 1990, estimulado principalmente pela parceria com Itamar Assumpção. Nos trabalhos da dupla, a relação de gênero ganha destaque em canções como Man ("O que é que você tem man/ Me pega bem no jeitinho/ Vem e depois diz que não tem"; "I am a woman, man/ Woman, woman, woman/ Uma mulher"). Essa temática se intensifica na parceria com Alice Ruiz, da qual resultam canções em que se ouve uma nova voz feminina. Representantes de uma geração herdeira das conquistas feministas, mas ainda presas à imagem - tão presente na música popular - da mulher passiva e objeto da adoração masculina, Alice e Alzira criam em suas canções um discurso em que a mulher aparece como sujeito erotizado e no qual os dilemas femininos são apresentados com sensibilidade e bom humor. Em Overdose, por exemplo, a mulher fala de seu desejo sem pudores, assumindo papel ativo na relação com o homem: "Já notou que eu te amo/ ou você pensa/ que toda vez que eu ligo/ é por engano?/ (...) pra me deixar normal/ só uma overdose de você/ pra me pirar legal/ só uma dose dupla desse mal". Já em Diz que É Você, as compositoras brincam com a característica feminina de fantasiar sobre o desejo do outro: "O dia inteiro diz/ e até a noite diz/ que é você/ meu bom-senso, maljuízo/ meu desejo e o que vejo/ dizem que é você/ meu outro lado esbraveja/ veja, tenho certeza/ que é você/ (...) só você insiste em dizer/ que não é você".

Vale ressaltar ainda a influência da Alzira cantora sobre a compositora. Sem a voz aguda da irmã Tetê, a quem é por muito tempo comparada, seu canto se caracteriza pela maneira de entoar as palavras, articulando bem as consoantes de modo a dar destaque ao texto. Também na intérprete existe um lado autoral que se nota, por exemplo, na releitura do repertório de Maysa, em que substitui as orquestrações originais, pomposas, por arranjos leves e modernizados, numa interpretação sóbria, discreta, em que mostra a tristeza sem ser melodramática.

Notas
1 Escala diatônica: formada por intervalos de cinco tons e dois semitons dispostos de acordo com escala natural de dó (do/tom, ré/tom, mi/semitom, fá/tom, sol/tom, lá/tom, si/semitom, do). Essa escala está na base de toda música tonal.

2 Melodias modais: baseadas em escalas não diatônicas, também chamadas de modos.

Shows musicais 4

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Fontes de pesquisa 4

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  • ALBIN, Ricardo (coord.). Alzira Espindola. In:. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em: <www.dicionariompb.com.br/alziraespondola>. Acesso em: 10 jan. 2011.
  • ESPÍNDOLA, Tetê. Página oficial da artista. Disponível em: <www.teteespindola.com.br/>. Acesso em: 10 jan. 2011.
  • MURGEL, Ana Carolina A. de Toledo. Alice Ruiz, Alzira Espíndola, Tetê Espíndola e Ná Ozzetti: produção musical feminina na Vanguarda Paulista. Dissertação de mestrado. Campinas, IFCH-UNICAMP, 2005.
  • OLIVEIRA, Laerte Fernandes de. Em um porão de São Paulo: o Lira Paulistana e a produção alternativa. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2002.

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