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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Raimundo Magalhães Júnior

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
12.02.1907 Brasil / Ceará / Ubajara
12.12.1981 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Raimundo Magalhães Júnior (Ubajara CE 1907 - Rio de Janeiro RJ 1981). Dramaturgo, tradutor, jornalista e escritor. Conhecido por sua extensa produção intelectual no teatro, no jornalismo e na literatura. É autor de mais de 30 textos teatrais e tradutor de inúmeras peças, além de grande defensor dos direitos autorais. A encenação de suas revistas...

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Biografia
Raimundo Magalhães Júnior (Ubajara CE 1907 - Rio de Janeiro RJ 1981). Dramaturgo, tradutor, jornalista e escritor. Conhecido por sua extensa produção intelectual no teatro, no jornalismo e na literatura. É autor de mais de 30 textos teatrais e tradutor de inúmeras peças, além de grande defensor dos direitos autorais. A encenação de suas revistas, comédias de costumes e peças históricas alcança êxito nas décadas de 1930, 1940 e 1950.

Em 1924, muda-se do Ceará para a cidade de Campos, no Rio de Janeiro. Inicia carreira como jornalista na Folha do Comércio. Escreve, em 1927, Espírito Encrencado, sua primeira peça de teatro, representada por Alexandrino e Merícia Rosas no Cine-Teatro Trianon. Em 1928 e 1929, respectivamente, são encenadas no Teatro Coliseu dos Recreios, as revistas Café com Milho, escrita em parceria com Luiz Maranhão, e Feijoada Completa, em coautoria com Gastão Machado.

Muda-se para a cidade do Rio de Janeiro em 1930 e, para sobreviver, exerce atividades no jornalismo e no teatro. Participa do grupo fundador do Diário de Notícias, é redator de A Noite, trabalha em jornais de grande circulação e em periódicos menores, de tendências socialistas, como A Batalha e A Esquerda. É diretor das revistas Carioca e Vamos Ler!, que lança escritores como Clarice Lispector e Fernando Sabino, e escreve matérias especiais para a revista A Noite Ilustrada.

Em 1933, duas de suas revistas são encenadas: Abafa a Banca e Cavando Ouro, a primeira escrita em colaboração com Gastão Machado e a segunda, com Gilberto de Andrade. A pesquisadora Maria Helena Werneck afirma: "O ritmo industrial rege a sua produção jornalística e teatral. Não há, verdadeiramente, cisão entre escrever para jornal e escrever para o teatro nesta época, em que as temporadas de uma peça duram uma semana, com duas sessões diárias, além da vesperal do domingo. As tiragens esgotadas das folhas diárias e semanais assemelham-se às cadeiras inteiramente ocupadas dos teatros".1

Nesse mesmo ano, Magalhães Jr. casa-se com Lucia Benedetti, escritora e autora de peças para o público infantil. Três anos depois, ele escreve o primeiro argumento para o cinema: Caçando Feras. Em 1938, Mentirosa, peça que recebe um prêmio da Academia Brasileira de Letras (ABL), é montada pela Companhia Dulcina-Odilon; O Homem Que Fica estreia pela companhia de Procópio Ferreira; e A Mulher que Todos Querem é encenada pela companhia de Jaime Costa. Faz o roteiro do filme O Culpado, de Milton Rodrigues, produzido pela Cinédia.

De 1939 a 1942, seis peças de sua autoria entram em cartaz no Rio de Janeiro e em São Paulo: O Testa de Ferro, Carlota Joaquina, Um Judeu, A Família Lero-Lero, Casamento no Uruguai e Trio em Lá Menor. A comédia dramática Um Judeu, 1939, encenada na temporada da companhia portuguesa Rey Colaço-Robles Monteiro em São Paulo e Rio de Janeiro, narra episódios da vida de Benjamin Disraeli, o famoso lord Beaconsfield, parlamentar inglês do século XIX. Carlota Joaquina, 1939, escrita e representada no regime autoritário do Estado Novo, insere-se em um modelo dramatúrgico que alia comédia e teatro histórico, receita que resulta no êxito de peças de "gêneros menos comprometidos e menos comprometedores",2 segundo o crítico Décio de Almeida Prado.

Fugindo à perseguição política da ditadura getulista, muda-se para os Estados Unidos, onde permanece de 1942 a 1945 e trabalha como assistente do Escritório de Assuntos Interamericanos de Nelson Rockfeller. É correspondente do jornal A Noite, traduz filmes da Metro e colabora com  publicações americanas, entre elas o The New York Times e o Theatre Arts. No Brasil, em meados da década de 1940, as peças Aventuras da Família Lero-Lero, Vila Rica, A Indesejável e Palmatória do Mundo são encenadas por prestigiadas companhias. Em 1946, escreve o roteiro para o filme O Cavalo 13, de Luiz de Barros, em coautoria com Henrique Pongetti.

Como tradutor oficial de Tennessee Williams no Brasil, verte para o português as peças Anjo de Pedra, A Rosa Tatuada e Gata em Teto de Zinco Quente. Traduz inúmeras obras teatrais do inglês, francês, italiano e espanhol para montagens de espetáculos das companhias Dulcina-Odilon, Eva e Seus Artistas, Teatro Maria Della Costa (TMDC) e Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), entre outras. Suas traduções são elogiadas pela crítica por sua fidelidade ao original, porém as suas adaptações não conseguem obter a mesma unanimidade.

Na peça Adolescência, de Paul Vanderberghe, encenada em 1950, por Ziembinski, uma crítica publicada na revista Comoedia destaca o exagero do adaptador: "Naturalmente a exigüidade do palco do Teatro de Bolso, onde quatro personagens se movem com certa dificuldade, obrigaram ao adaptador a mutilar o original. [...] Mas resta saber se tudo isso justifica a mutilação de quase 50% do que escreveu o autor".3 Medidas semelhantes ocorrem no texto da peça Vivendo em Pecado, de Terence Rattigan, realizada em 1953, com direção de Bibi Ferreira com a Companhia Dulcina-Odilon. Paschoal Carlos Magno comenta a adaptação de Magalhães Júnior: "Com aquela coragem que o caracteriza como tradutor e adaptador, já confessada através destas colunas, quando afirmou que numa só peça fez desaparecer nove personagens, em Vivendo em Pecado transformou o adolescente numa mocinha".4

Nos anos 1950 são representadas com sucesso as peças Essa Mulher É Minha, protagonizada no teatro por Procópio Ferreira e adaptada por Magalhães Júnior para o cinema com o título João Gangorra, personagem interpretado por Walter D'Ávila; e Canção dentro do Pão, trama baseada na adaptação de uma das histórias de Jacques le Fataliste, de Diderot. Nessa mesma década entram em cartaz também O Imperador Galante, biografia dramática de dom Pedro I, encenada pela Companhia Dulcina-Odilon; Fugir, Casar ou Morrer; e a revista Biquíni de Filó, feita em parceria com Ney Machado, que recebe o seguinte comentário de Paschoal Carlos Magno: "[...] esses dois autênticos homens de teatro muito pouco participaram da sua elaboração, pois o texto é magro, reduzidíssimo como o pouco pano que cobre as duas coristas que exibem suas formas no espetáculo a cada instante".5

Elege-se vereador do Distrito Federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) e exerce dois mandatos: 1951-1955 e 1955-1959. É indicado sete vezes para a presidência da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat), a primeira delas para o biênio 1948-1949. São publicadas diversas peças de sua autoria − algumas traduzidas e encenadas no exterior. Em 1953, publica Arthur Azevedo e Sua Época, a primeira de uma série de biografias entre as quais se destacam Martins Pena e Sua Época e As Mil e Uma Vidas de Leopoldo Fróes, que completam a edição dedicada às grandes personalidades do teatro. Publica também contos, antologias poéticas, dicionários de citações, provérbios e frases feitas.

É eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 9 de agosto de 1956. Durante muitos anos exerce a função de redator-chefe da revista Manchete. Na Rádio Nacional, escreve radionovelas e cria o programa Acredite se Quiser, que apresenta, entre outras histórias, casos de aparição de fantasmas. Participa do processo de implantação da televisão no início dos anos 1950, e é um dos diretores da TV Tupi. Faz mais alguns roteiros de filmes, entre eles, A Família Lero-Lero (1953) e Essa Mulher É Minha... e dos Amigos (1976), adaptação de duas de suas peças. Exerce o cargo de censor cinematográfico. Conselheiro do Serviço de Defesa do Direito Autoral, funda e torna-se o primeiro presidente da Associação Brasileira de Tradutores, criada em 1974.

Aos 67 anos, em entrevista a José Carlos de Oliveira, Raimundo Magalhães Júnior explica como arranja tempo para dar conta de sua atribulada vida profissional e impressionante produção intelectual: "O dia dura 36 horas, quando sabemos esticá-lo por ambas as extremidades. Uma consiste em dormir tarde. Outra consiste em acordar cedo".6 Contudo, é em uma crônica publicada em 1981, por Carlos Drummond de Andrade, intitulada O Homem que Era Trezentos, que se encontra a melhor explicação: "Eram muitos Raimundos num só, e esta imagem dele perdurou a vida inteira".7

Notas
1. WERNECK, Maria Helena Vicente Werneck. Homens de arquivo: o poder entre papéis e livros. In: Os gêneros biográficos e a noção de artista de teatro no Brasil: as biografias de R. Magalhães Júnior. Projeto integrado de pesquisa CNPq/Unirio, 1995/1998.

2. PRADO, Décio de Almeida. O teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 1996. p. 34.

3. Comoedia. Rio de Janeiro, nº 12, abril-maio 1950.

4. MAGNO, Paschoal Carlos. Vivendo em pecado no Dulcina (Ex-Regina). Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 15 maio 1953.

5. MAGNO, Paschoal Carlos. Bikíni de filó, no Alvorada. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 dez. 1951.

6. OLIVEIRA, José Carlos. O dia de 36 horas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 nov. 1974.
 
7. ANDRADE, Carlos Drummond de. O homem que era trezentos. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 dez. 1981.

Espetáculos 50

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Fontes de pesquisa 20

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  • ACERVO de Artes Cênicas. Rio de Janeiro, Cedoc/Funarte.
  • BRANDÃO, Tania. A máquina de repetir e a fábrica de estrelas: Teatro dos Sete. Rio de Janeiro: 7Letras : Faperj, 2002. 792.09 T253b
  • BRANDÃO, Tania. Uma empresa e seus segredos: Companhia Maria Della Costa. São Paulo: Perspectiva; Rio de Janeiro: Petrobras, 2009. 368p.
  • MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo. Dossiê Personalidades Artes Cênicas. Rio de Janeiro: Cedoc/Funarte.
  • MAGNO, Paschoal Carlos. Crítica teatral e outras histórias. Organização Martinho de Carvalho e Norma Dumar. Rio de Janeiro: Funarte, 2006.
  • MARTINS, Marina. O Arthur Azevedo de R. Magalhães Junior. 1997. 34 p. Monografia (Projeto Integrado de Pesquisa CNPq/Unirio. Os gêneros biográficos e a noção de artista de teatro no Brasil: As biografias de R. Magalhães Júnior − Orientadora: Profª Drª Maria Helena Vicente Werneck. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio, Centro de Letras e Artes, Escola de Teatro, Departamento de Teoria do Teatro, Rio de Janeiro, 1997.
  • MARTINS, Marina. O dia de 36 horas. Comunicação apresentada no XI Semana de Debates Científicos da Unirio. Projeto Integrado de Pesquisa CNPq/Unirio. Os gêneros biográficos e a noção de artista de teatro no Brasil: As biografias de R. Magalhães Júnior. Orientadora: Profª Drª Maria Helena Vicente Werneck. Unirio, Centro de Letras e Artes, Escola de Teatro, Departamento de Teoria do Teatro, Rio de Janeiro, 1997.
  • MICHALSKI, Yan: Ziembinski e o Teatro Brasileiro. São Paulo: Hucitec / MEC / Funarte, 1995.
  • NUNES, Mario. 40 anos de teatro. v.3. Rio de Janeiro: SNT, 1956.
  • PAIVA, Salvyano Cavalcanti de. Viva o rebolado!: vida e morte do teatro de revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
  • PRADO, Décio de Almeida. Apresentação de teatro brasileiro moderno. Crítica teatral (1947-1955). São Paulo, Liv. Martins, 1956.
  • PRADO, Décio de Almeida. O teatro brasileiro moderno. São Paulo: Martins, 1964.
  • PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso. São Paulo: Perspectiva, 1996.
  • Planilha enviada pelo pesquisador Edélcio Mostaço. Não Catalogado
  • Programa do Espetáculo - O Milagre de Annie Sullivan - 1967. Não catalogado
  • Programa do Espetáculo -Investigação da Classe Dominante - 1981. Não catalogado
  • SILVEIRA, Miroel. A outra crítica. São Paulo: Símbolo, 1976.
  • VIOTTI, Sérgio. Dulcina e o teatro de seu tempo. Rio de Janeiro: Lacerda Ed., 2000.
  • WERNECK, Maria Helena Vicente Werneck. Homens de arquivo: o poder entre papéis e livros. Projeto Integrado de Pesquisa CNPq/Unirio. Os gêneros biográficos e a noção de artista de teatro no Brasil: as biografias de R. Magalhães Júnior, 1995/1999.
  • WERNECK, Maria Helena Vicente Werneck. R. Magalhães Júnior e seus biografados: homens e seu tempo ou homens contra o tempo. Comunicação apresentada no 5º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada - Abralic, Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Rio de Janeiro, 31 jul. 1996. Projeto Integrado de Pesquisa CNPq/Unirio. Os gêneros biográficos e a noção de artista de teatro no Brasil: as biografias de R. Magalhães Júnior, 1995/1999.

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