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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Sara Ramo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.07.2021
07.10.1975 Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte
Reprodução fotográfica Amilcar Packer

Hotel Paradise, 2004
Sara Ramo
Vídeo dv
Coleção da artista/Cortesia Galeria Fortes Vilaça (São Paulo, SP)

Sara Ramo Affonso (Madri, Espanha, 1975). Artista Visual. Com práticas múltiplas em instalação, vídeo, fotografia, escultura e colagem, a artista toma objetos cotidianos para com eles compor novos arranjos, passando pelo caos e o reordenando em novas formas de lidar com o mundo.

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Sara Ramo Affonso (Madri, Espanha, 1975). Artista Visual. Com práticas múltiplas em instalação, vídeo, fotografia, escultura e colagem, a artista toma objetos cotidianos para com eles compor novos arranjos, passando pelo caos e o reordenando em novas formas de lidar com o mundo.

Filha de mãe mineira e pai espanhol, ambos envolvidos em movimentos sociais, Sara Ramo cresce entre Araxá e Madri. Fica no Brasil de 1 mês de vida aos 6 anos de idade e volta para a Espanha. Não se interessa pela educação formal e faz cursos livres em teatro, dança e pintura. Nos anos 1990, com a reforma educacional espanhola, acompanha a implantação da formação em artes no segundo grau, na qual tem ótimo desempenho, o que a faz ingressar na Universidad Complutense de Madrid para estudar artes visuais. Muda-se para Belo Horizonte, dando continuidade à graduação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em 2002, inicia a série Como Aprender o que Acontece na Normalidade das Coisas (2002-2005), na qual pede a pessoas que lhe emprestem o banheiro de suas casas. A artista fotografa os cômodos antes de neles interferir, retirando todos os objetos guardados e dispondo-os nos espaços para fazer nova fotografia. Ao serem exibidas, as imagens revelam o choque da passagem de um mundo ordenado para outro no qual tudo que é escondido vem à tona, instaurando um caos que revela tanto a investida de um corpo que procede à modificação quanto a forma plástica de dispor todos os itens primeiro para essa pessoa e, posteriormente, para o público que a vê.

Em 2003, começa o mestrado em artes visuais na UFMG e ganha a Bolsa Pampulha, programa no qual é acompanhada por curadores, críticos e artistas convidados pelo Museu de Arte da Pampulha durante um ano. Como resultado da pesquisa artística, exibe a instalação O Jardim das Coisas do Sótão (2004), marco importante em sua carreira por se tratar de sua primeira individual em uma grande instituição e por expandir a prática iniciada no trabalho anteriormente citado. Sara Ramo recolhe os objetos abandonados no estoque do museu – antigo cassino projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) –, rearranjando-os esteticamente na configuração de um jardim, travando relações com o paisagismo do arquiteto Roberto Burle Marx (1909-2012) no exterior do prédio. A artista dá visibilidade novamente aos objetos antigos daquele lugar de plástica moderna e purista, pensando essa ação como uma pequena revolução dos seres inanimados considerados obsoletos. 

A partir de 2005, ganha visibilidade internacional, expondo trabalhos em países como França, Alemanha e China. No ano seguinte, recebe o Prêmio CNI Sesi Marcantonio Vilaça para as Artes Plásticas.

No vídeo Translado (2008) – da Coleção Itaú Cultural –, a artista aparece de costas em cena e retira diversas coisas de uma mala aberta no chão. Em 7 minutos e 45 segundos de plano único e fixo, surgem objetos de toda variedade de tamanho, fazendo a situação beirar o absurdo quando o espectador percebe que naquela bagagem não cabem todos aqueles elementos. O espaço do cômodo é totalmente ocupado e, ao fim, Sara Ramo entra na mala e a fecha cuidadosamente por dentro. Além de espelhar sua situação de mudanças frequentes entre um país e outro e seguir explorando as relações com os objetos do cotidiano, o vídeo trabalha, sob uma dimensão existencial, as questões da passagem, do desaparecimento e da morte, ao mesmo tempo que tem a leveza de utilizar uma forma muito próxima a brincadeiras infantis ou a cenas que se dão no livro Alice no País das Maravilhas (1856) e no filme Mary Poppins (1964).

Tem suas primeiras individuais internacionais nas cidades de Londres, Paris e Madri em 2009, ano em que também participa da 53 ͣ Bienal de Veneza com um vídeo e uma instalação.

Segue criando a partir de tensões entre o que se vê e o que é tornado visível, o interno e o avesso, o banal e seus deslocamentos inesperados, o familiar e o fantástico. Seus trabalhos são feitos de materiais do cotidiano, que têm seus usos e valores modificados pelo posicionamento em lugares inusitados. Ao mesmo tempo, o corpo de sua obra demanda do público bastante atenção, pois é construído para não ser imposto, mas para alcançar uma afirmação de questões éticas e políticas de maneira muito forte a partir do momento em que cada trabalho é de fato percebido pelo espectador.

Convidada para ocupar o espaço da Capela do Morumbi, em São Paulo, Sara Ramo exibe a instalação Para Marcela e as Outras (2017). Por meio de reflexões suscitadas pela convivência com mulheres trans em situação de prostituição em São Paulo, a artista abandona o vão central do espaço para trabalhar com as margens. As paredes da antiga construção de taipa são pensadas como a pele de um corpo que abriga, em cada buraco, pequenas esculturas feitas de diversos materiais cotidianos, como meias-calças, paetês, preservativos, unhas postiças e papel de bala. Há uma ideia de infiltração e resistência, de invisibilidade e da necessidade de busca e reconhecimento por parte de quem visita a exposição. Em um canto da grande sala também está um bolo de barro com 40 velas, objeto aparentemente lúdico, mas que indica a baixa expectativa de vida dessas mulheres diante da violência transfóbica no Brasil.

Por sua condição de permanente estrangeirismo, Sara Ramo tem uma percepção aguçada daquilo que passa despercebido àqueles que habitam uma cotidianidade constante. Suas obras trazem palavras de ordem e clamam por fortes mudanças.

Obras 2

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Exposições 66

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