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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Antonio Carlos Viana

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.01.2021
05.06.1944 Brasil / Sergipe / Aracaju
14.10.2016 Brasil / Sergipe / Aracaju
Antonio Carlos Mangueira Viana (Aracaju, Sergipe, 1944 – idem, 2016). Contista, tradutor e professor. As narrativas de Antonio Carlos Viana têm uma marca própria: curtas e de linguagem enxuta, são construídas em torno de revelações ou reviravoltas e apresentam desfecho quase sempre surpreendente, desmascarando personagens ou retratando, por meio...

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Antonio Carlos Mangueira Viana (Aracaju, Sergipe, 1944 – idem, 2016). Contista, tradutor e professor. As narrativas de Antonio Carlos Viana têm uma marca própria: curtas e de linguagem enxuta, são construídas em torno de revelações ou reviravoltas e apresentam desfecho quase sempre surpreendente, desmascarando personagens ou retratando, por meio dessas figuras, as consequências da opressão e da miséria. 

Em 1974, estreia na literatura com Brincar de Manja, conjunto de 14 contos em torno sobretudo da infância e suas descobertas, nos quais predominam narradores em primeira pessoa. Com influência do realismo mágico, o volume é marcado pela presença do insólito: no conto que dá título ao volume, por exemplo, a morte do irmão do narrador é escamoteada por eventos como a transformação da escola em um barco que sai à deriva, levando professora e alunos. Já o conto “Parábolas dos Gatos ao Amanhecer” retrata a agonia de gatos que morrem em um vilarejo após a partida de um casal. 

Em 1976, Viana torna-se professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), instituição na qual conclui o curso de letras. Faz mestrado em teoria literária na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS) sobre a obra do escritor Nelson Rodrigues (1912-1980), que considera uma de suas influências. Cursa doutorado em literatura comparada na Universidade de Nice, na França, pesquisando as poéticas de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e do francês Paul Valéry (1871-1945). 

Em 1981, lança Em Pleno Castigo. De 1989 a 1990 participa do grupo responsável pela implementação do curso de pós-graduação em letras da UFS. Concilia a produção literária com as atividades de docente. Publica O Meio do Mundo (1993), mas decide se afastar do mercado editorial, alegando descontentamento com a qualidade das publicações e afirmando que só voltaria a publicar por grandes editoras. Em 1995, aposenta-se na universidade e cria, em Aracaju, um curso preparatório de redação. 

Publica O Meio do Mundo e Outros Contos (1999), que reúne 30 narrativas recolhidas nos livros anteriores. Além do universo infantil, aborda temas como o envelhecimento, a repressão do desejo sexual, a solidão que persiste no interior dos relacionamentos. Na narrativa que dá título ao volume, “O Meio do Mundo”, o personagem Tonho conta como se deu sua iniciação sexual: menino, é conduzido pelo pai, no meio do sertão nordestino, à casa de uma carvoeira que se prostitui, vivendo aí o rito de passagem para a maturidade. 

Enquanto para meninos como Tonho o início da vida sexual se dá por imposição sexual, meninas como a protagonista de “Barba de Arame” sofrem abuso sexual. Nessa narrativa do livro seguinte, Aberto Está o Inferno (2004), a personagem sem nome, que vive em uma região de mangue, aceita o abuso praticado por um desconhecido que lhe promete construir uma latrina, vendo nele a imagem de Jesus. 

Os contos de Viana se apresentam ora em primeira pessoa, ora em terceira, e expõem sem sentimentalismo as consequências da opressão e da miséria para as personagens. Nesses casos, predomina o olhar solidário sobre as personagens, cujo ponto de vista frequentemente irrompe na narrativa por meio do discurso indireto livre. É o que acontece, por exemplo, na seguinte passagem, a respeito de um dos episódios de abuso em “Barba de Arame”: “Ele falou que sim, ia mandar fazer uma latrina bem joia para ela e a mãe [...]. Só foi ruim a barba e o cheiro de vinho estragado que vinha de sua boca”. 

A violência velada está no cerne de muitos eventos narrativos, que em geral surgem casualmente, permitindo ao autor explorar a dinâmica de famílias, vizinhanças, vilarejos e cidades. No conto que dá título a Cine Privê (2009), seu Manuel, faxineiro de um cinema pornográfico, limpa cabines e vive a privação do próprio desejo no casamento – relação marcada por culpas e ressentimentos. Desse mesmo livro, “Eliazar, Eliazar” tem em comum com “Meu Tio Tão Só”, da coletânea de 1999, a trajetória de um protagonista homossexual que se suicida por sofrer preconceito e exclusão. 

Já a violência patente surge em contos como “Santana Quemo-Quemo” e “Duas Coxinhas e um Guaraná”, que abrem o livro de 2009. O primeiro narra a ação de despejo que leva à loucura a mãe do narrador; no segundo, o narrador conta o assassinato da própria mãe. A morte, aliás, é tema recorrente e está presente em quase todos os textos de Cine Privê. A concisão da linguagem leva o poeta e professor Paulo Henriques Britto (1951) a considerar Viana “o João Cabral do conto”. 

Em Jeito de Matar Lagartas (2015), a velhice se torna tema preponderante e se manifesta de diferentes formas: a solidão de Ineide em “Roteiro da Solidão”; a dificuldade de aceitar os sinais da passagem do tempo no corpo em “Dona Katucha”; a fúnebre festa de aniversário de um ancião em “Professor Locarno”; a redescoberta do próprio corpo e do desejo em “Florais”. Ainda assim, persistem as características e as predileções de volumes anteriores, como mostra “Cara de Boneca”, um dos mais conhecidos contos de Viana, no qual o narrador relembra episódios de sua puberdade relacionados a seu Lilá, carroceiro que sofre pacificamente diversas formas de humilhação, servindo os meninos do local em uma espécie de iniciação à masculinidade. 

Povoada de figuras ingênuas e crianças que sofrem as consequências da miséria e das injustiças brasileiras, e também de adultos que as reproduzem quase sempre sem consciência, a literatura de Antonio Carlos Viana explora em linguagem contida eventos que geram surpresa e comoção. Por essa combinação, o autor é considerado um dos principais contistas da literatura brasileira.

Debates 1

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Mídias (2)

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Antônio Carlos Viana e Letícia Wierzchowski - Jogo de Ideias (2004) - Trecho
Os escritores Letícia Wierzchowski e Antônio Carlos Viana falam sobre o que os impulsiona a escrever e as principais características de suas obras. Wierzchowski explica a influência da memória em seu livro A Casa das Sete Mulheres, que originou a minissérie homônima produzida pela Rede Globo. Ela conta que tem muito interesse por questões como a linhagem familiar e a descendência. Já o contista e ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Viana diz que começou a escrever por acaso, fascinado pelo livro A Paixão Segundo G.H, de Clarice Lispector. "Queria escrever como ela", relata.
Entrevista concedida ao jornalista Claudiney Ferreira, para o programa Jogo de Ideias, do Itaú Cultural, gravado na Casa de Cultura Mário Quintana, em novembro de 2004, em Porto Alegre/RS.
Antônio Carlos Viana – Encontros de Interrogação (2004)
Nascido em Aracaju, o escritor e professor universitário Antonio Carlos Viana fala sobre suas origens, a mudança com a família para o Rio de Janeiro aos sete anos e sua formação. Para Viana, a vontade de ser escritor nasce das leituras de Érico Veríssimo, José de Alencar e Machado de Assis. Seu primeiro livro, Brincar de Manja (1974), recebe críticas positivas, que lhe dão forças para seguir na carreira literária. Segundo ele, sua literatura se caracteriza por lembranças da infância e adolescência e por uma preocupação com os que estão à margem da sociedade. Ao término do vídeo, Antonio lê um trecho do conto "Quando Meu Pai Enlouquece", do livro Aberto Está o Inferno (2004).

Depoimento gravado em São Paulo/SP, em novembro de 2004.

Créditos
Presidente: Milú Villela
Diretor-superintendente: Eduardo Saron
Superintendente administrativo: Sérgio Miyazaki
Núcleo de Enciclopédia
Gerente: Tânia Rodrigues
Coordenação: Glaucy Tudda
Produção de conteúdo: Camila Nader, Lucas Rosalin (estagiário)
Núcleo de Audiovisual e Literatura
Gerente: Claudiney Ferreira
Coordenação: Kety Nassar
Produção audiovisual: Camila Fink
Captação, edição e legendagem (Libras): Sacisamba
Intérprete: Erika Mota (terceirizada)
Locução: Júlio de Paula (terceirizado)

Fontes de pesquisa 13

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