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Artes visuais

Ricardo Aleixo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 22.10.2021
14.09.1960 Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte
Ricardo José Aleixo de Brito (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1960). Poeta, músico, artista multimídia, performer, produtor cultural. Sua lírica é influenciada pela poesia concreta, experimentando a palavra em suas dimensões de conteúdo, sonoridade e visualidade. Na sua obra, os poemas frequentemente transitam entre linguagens como a música, a per...

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Ricardo José Aleixo de Brito (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1960). Poeta, músico, artista multimídia, performer, produtor cultural. Sua lírica é influenciada pela poesia concreta, experimentando a palavra em suas dimensões de conteúdo, sonoridade e visualidade. Na sua obra, os poemas frequentemente transitam entre linguagens como a música, a performance e as artes plásticas. Questões sociais estão presentes em seus poemas, valorizando a memória e identidade afro-brasileiras, com referências do sagrado de matriz africana, da cultura pop e do cinema.
 
A primeira formação artística de Aleixo é em música e se dá de forma autodidata na infância. Aos dezessete anos escreve suas primeiras canções e realiza suas primeiras experiências com poesia escrita, já influenciadas pela composição espacial livre a expressividade gráfica da poesia concreta. 
 
Aleixo estuda no Instituto Municipal de Administração e Ciências Contábeis, mas não chega a concluir o curso. Em 1992, publica seu primeiro livro de poemas, intitulado Festim: um desconcerto de música plástica. Desde o título, o livro aponta para a interdisciplinaridade, com a influência decisiva da música e das artes plásticas na produção do poeta.
 
Atuando paralelamente no campo da produção cultural, Aleixo é um dos responsáveis, em 1995, pela primeira edição do Festival de Arte Negra (FAN), promovido pela Prefeitura de Belo Horizonte por meio da Fundação Municipal de Cultura. O Festival traz na programação seminários e atividades formativas, além de apresentações, encontros e exposições. 

Em 1996, Aleixo publica A roda do mundo, escrito em parceria com Edimilson de Almeida Pereira (1963). O livro é composto por orikis, um gênero de poesia cantada iorubá que remonta a temáticas religiosas e mundanas. No livro, mitologias nagô-iorubá convivem com referências culturais variadas, como expresso no oriki "Cine-olho", que alude ao cinema de Dziga Vertov (1896-1954). 

A recuperação de tradições poéticas africanas aponta para outro aspecto recorrente na obra de Aleixo, que é a etnopoesia. Essa característica remete à valorização de culturas orais por meio, entre outros recursos, da tradução de elementos sonoros e corporais para o texto escrito.

No livro Trívio, publicado em 2002, o aspecto social de Aleixo tem lugar de destaque. No poema "Rondó da ronda noturna", por exemplo, o tema é a violência policial contra a população negra. O formato tradicional de publicação é invertido: o texto é escrito em caracteres brancos sobre a página negra.  

Recursos visuais como a tipografia, a composição das letras na página constituem elementos de significado, contribuindo para a interpretação do texto. O símbolo + é utilizado em lugar da palavra "mais", que pode remeter tanto aos números do extermínio do povo negro quanto à imagem das cruzes de um cemitério. A repetição do símbolo reflete a persistência de uma violência estrutural presente desde a fundação escravocrata brasileira.

Em Aleixo, o texto impresso é uma etapa da criação, não sua forma final. Os poemas não são estanques, pois se manifestam também na tradução para outras linguagens e formatos. As obras se reinventam em experimentos de vídeo e artes visuais que incluem dança contemporânea e declamação musicada. 

Um poema exemplar desses desdobramentos é intitulado “Solo”, publicado em 2010 no livro Modelos vivos. Extraídas desse poema, as palavras "Boca também toca tambor" dão nome à performance realizada por Aleixo no mesmo ano. 

A influência do jazz se apresenta no improviso e nas diferentes vocalizações do mesmo verso repetido de forma ritmada ao microfone enquanto imagens de vídeo são projetadas ao fundo. A música é criada ao vivo com o auxílio de um pedal que armazena o som captado e o reproduz posteriormente, gerando diversas camadas da voz do poeta.

No livro Mundo palavreado, lançado em 2013, o verso "Boca também toca tambor" é retomado, agora como título de um poema de ritmo cadenciado por rimas e aliterações que trata dos diversos usos da boca, de tradições orais e da cultura diaspórica africana.
 
Mesmo sem uma métrica rigorosa, a musicalidade é reforçada pela abundância de redondilhas e pelo refrão repetido ao final de cada quarteto. A transformação do verso em performance e depois em um novo poema reforça uma característica transmidiática e fluida da obra de Aleixo, em que a poesia transita por diferentes suportes, linguagens e formatos.
 
Além do trabalho artístico multimidiático, Aleixo coordena e atua em parceria com projetos culturais. É curador do festival Zona de Invenção Poesia e desenvolve projetos de pesquisa e formação no Laboratório Interartes Ricardo Aleixo (Lira), localizado no bairro Campo Alegre em Belo Horizonte.
 
Em 2017, Aleixo publica Antiboi, finalista do Prêmio Oceanos. O curto poema que dá nome ao livro estabelece relação de oposição entre o Festival Folclórico de Parintins e a vida, onde nada é garantido, nada é caprichoso, à diferença da competição entre as agremiações carnavalescas do Boi Caprichoso e do Boi Garantido.
 
A lírica de Aleixo é marcada pelo conceito expandido de poesia, que contempla a palavra em suas dimensões verbal, visual e sonora. Em sua obra, a poesia se manifesta em condição de igualdade por meio do corpo, da imagem e do som, além do conteúdo. Seus poemas mais marcantes refletem as relações de poder historicamente construídas na sociedade brasileira. 

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Ricardo Aleixo - Enciclopédia Itaú Cultural
Nascido em Belo Horizonte, Ricardo Aleixo integra uma geração que tenta criar a partir da capital mineira. Sobre sua obra, o autor cita posfácio escrito por Sebastião Uchoa Leite para seu livro Trívio, no qual ele descreve Aleixo como “inclassificável”: “Esse é o lugar que me agrada ocupar, tanto em termos de gêneros quanto de nacionalidade”, diz o escritor. À poesia, que ele desenvolve desde os 17 anos, junta-se o que ele define como um trabalho intermídia, no qual mesclam-se música, imagem, vídeo e outras formas de expressão artística. “Mais do que na perspectiva chamada de multimídia, na qual as coisas se somam quantitativamente, entendi que eu queria a soma qualitativa”, explica. Para ele, o papel do poeta contemporâneo é o de “embaralhar as cartas”. “Das artes todas, talvez a poesia seja a que está mais livre da lógica de mercado”, diz. “A visão de mundo mais desconcertante e pessoal pode ser expressa pela poesia.”

Captação, edição e legendagem: Sacisamba
Intérprete: Carol Fomin (terceirizada)
Locução: Júlio de Paula (terceirizado)

Fontes de pesquisa 12

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  • ALEIXO, Ricardo. "Um coletivo chamado Ricardo Aleixo, que chega aos 60 anos: 'Eu respirei'". Estado de Minas. Disponível em https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2021/01/22/interna_pensar,1231295/um-coletivo-chamado-ricardo-aleixo-que-chega-aos-60-anos-eu-respirei.shtml. Acesso em: 13 out. 2021.
  • ALEIXO, Ricardo. Festim: um desconcerto de música plástica. Belo Horizonte: Ed. Oriki, 1992.
  • CORONA, Ricardo. Dossiê Ricardo Aleixo com ensaio, seleção de poemas e entrevista. Revista Oroboro, nº 5. Curitiba: Editora Medusa, 2005.
  • COSTA PINTO, Manuel da. Antologia comentada da poesia brasileira do século 21. São Paulo: Publifolha, 2006. p. 20
  • FERREIRA, Laisa Barreto; ALVES, Moisés Oliveira. "O expandido em modelos vivos, de Ricardo Aleixo". In: Revista Discentis, UNEB, DCHT-XVI, Irecê, v. 7, n. 1, p. 28-41, fev. 2019.
  • FONSECA, Maria Nazareth Soares. Literatura, história e cultura afro-brasileira. Fundação Cultural Palmares, 2006. CD-ROM.
  • GUSTONI, Prisca. "Um corpo que oscila: performance, tradição e contemporaneidade na poética de Ricardo Aleixo". Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, núm. 33, pp. 25-49. Universidade de Brasília, 2009.
  • MARTINS, Aulus Mandagará. "O silêncio que nos ronda: poesia e política em dois poemas de Ricardo Aleixo". Nau literária - crítica e teoria da literatura em língua portuguesa. UFRGS. Vol.14. 2018.
  • MORAIS, Carlos Francisco de. "O passaporte diploemático de Ricardo Aleixo". Dossiê temático: os limites da poesia. v. 11, n. 02 (2018).
  • RODRIGUES, Afonso Celso Carvalho. E pluribus unum: Ricardo Aleixo, poeta interartes. Tese de doutorado. Universidade Federal de Juiz de Fora. 2013.
  • SCHERER, Telma. ""Boca também toca tambor": poesia e performance de Ricardo Aleixo". In: Revista do GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL. BOITATÁ, Londrina, n. 23, jan-jul 2017.
  • SOBRAL, Ana; OLIVEIRA, Eduardo Jorge de. "Movimentos, diásporas, conflitos: Ricardo Aleixo e Diamondog no Cabaret Voltaire". BRASILIANA: Journal for Brazilian Studies. Double Issue Vol. 8 Nos. 1-2, 2019.

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