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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Aguinaldo Camargo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 11.08.2022
1918 Brasil / São Paulo / Campinas
1952 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Aguinaldo de Oliveira Camargo (Franca, São Paulo, 1918 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1952). Ator, militante. Pioneiro do teatro negro no Brasil e um dos fundadores do Teatro Experimental do Negro (TEN), foi agrônomo, advogado e ator, além de comissário da polícia e colaborador de jornais. Multifacetado, dedica-se ao projeto artístico de inse...

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Aguinaldo de Oliveira Camargo (Franca, São Paulo, 1918 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1952). Ator, militante. Pioneiro do teatro negro no Brasil e um dos fundadores do Teatro Experimental do Negro (TEN), foi agrônomo, advogado e ator, além de comissário da polícia e colaborador de jornais. Multifacetado, dedica-se ao projeto artístico de inserir a cultura negra na dramaturgia brasileira.

Nascido em Franca, no interior paulista, aproxima-se do teatro na época da escola. Cresce na cidade de Campinas, onde conhece Abdias do Nascimento (1914-2011) por intermédio de um amigo em comum, Geraldo Campos de Oliveira. Em 1938, os três organizam o 1º Congresso Afro-Campineiro, uma inédita reunião de ativistas negros para debater a exclusão racial na arte e nos espaços públicos.

Com interesses intelectuais em diversos campos do conhecimento, diploma-se em agronomia e em direito, é requisitado em campo para trabalhos científicos e, ainda, exerce a função de comissário de polícia em Bangu. Entretanto, faz do teatro sua principal forma de expressão estética e política, privilegiada pelo encontro com Abdias do Nascimento.

Em 1944, eles fundam o TEN, com o projeto de estabelecer o primeiro grupo teatral de integrantes negros dedicado ao que se entendia por “alta cultura”, em oposição ao humor de outras formações para os palcos, como o grupo amador Os Comediantes. Camargo se envolve nas ações políticas e artísticas do TEN voltadas à conscientização racial e à luta por direitos da população negra.

No mesmo ano, estreia nos palcos na montagem da peça Palmares, de Stela Leonardos (1923), encenada pelo Teatro de Estudantes, com colaboração do TEN e direção de Paschoal Carlos Magno (1906-1980), que reúne mais de duzentas pessoas em cena. Em depoimento sobre a ocasião, afirma: “foi das mais fortes emoções da minha vida (...) entrar em cena, no Theatro Municipal, diante de um grande público. Dependia dessa primeira exibição o futuro de nosso movimento”.1

Em 1945, funda também, com Abdias e Sebastião Rodrigues Alves, o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, no Rio de Janeiro, e participa da organização da Convenção Política do Negro Brasileiro, em São Paulo. Em paralelo, escreve para o jornal da União dos Homens de Cor, do qual é secretário geral.

No mesmo ano, protagoniza a primeira montagem do TEN, O imperador Jones, com texto do dramaturgo estadunidense Eugene O’Neill (1888-1953). Com presença de profissionais negros nas diversas etapas do processo criativo, o projeto efetiva uma contribuição estética fundamental para o teatro do país, por “oferecer uma poética realmente vinculada às raízes e à diversidade brasileiras, resgatando a cultura de matriz africana”.2

O personagem, Brutus Jones, é um homem negro que foi escravizado, comete um crime e foge para uma ilha onde se torna imperador, adotando uma conduta gananciosa. No papel, Camargo enfrenta o descrédito de parte da crítica em relação ao seu porte físico, então comparado ao do ator Paul Robeson (1898-1976), que havia representado o personagem nos Estados Unidos. O TEN também encontra resistências entre a intelectualidade artística brasileira, predominantemente branca, que se sustenta na falta de formação profissional em teatro dos integrantes e no mito da democracia racial para questionar a legitimidade de um teatro negro.

Abdias do Nascimento ressalta o ineditismo da ação: “Aguinaldo Camargo entrou no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde antes nunca pisara um negro como intérprete ou como público”.3 Mesmo as críticas positivas reproduzem estereótipos sobre a negritude associados ao exotismo e ao primitivismo. Entretanto, a repercussão entusiasmada reconhece a inteligência, a cultura e a capacidade do ator em alcançar a complexidade psicológica do personagem e de envolver o público.

Em 1946, encerrada a Era Vargas (1937-1945), que coibia a militância política, Camargo preside a Convenção do Negro Brasileiro no Rio de Janeiro, cujo manifesto propõe políticas afirmativas de igualdade racial. No jornal A senzala, clama pela união da população negra para o enfrentamento do preconceito, defendendo que não se trata de um movimento separatista. Busca unidade e mobilização para encontrar saídas aos problemas enfrentados pela população negra pós-abolição.

Ainda no TEN, dirige Todos os filhos de Deus têm asas (1946), também de Eugene O’Neill, com Ruth de Souza (1921-2019) e Abdias do Nascimento no elenco. Atua em Terras do sem fim (1947), com texto de Jorge Amado (1912-2001), e representa Manassés (o esperado filho do rei Ezequias) no sucesso O filho pródigo (1947), de Lúcio Cardoso (1912-1968), outra vez ao lado de Ruth. O crítico Roberto Brandão escreve: “Ambos [...] são puros talentos naturais [...] não apenas por esta intuição que o talento lhes fornece [...], mas também por obra de se darem a estudos e observações de autodidatas”.4

Ao mesmo tempo, leciona nos cursos organizados pelo TEN, ensinando iniciação à cultura geral a uma plateia de profissionais como operários, empregadas domésticas e funcionários públicos, engajado na inserção social e cultural dessa população. No cinema, participa de Também somos irmãos (1949), um dos primeiros filmes a abordar de modo explícito o racismo, dirigido por José Carlos Burle (1910-1983).

Ao se destacar pela qualidade de sua atuação, Camargo rompe barreiras que o racismo estrutural excludente impunha a artistas negros, ocupando posições de exceção e abrindo caminho dramático para os atores negros. Com expressiva trajetória nos campos da arte, da educação e das políticas sociais e postura ativista que encontra formas diversas de comunicação para ideias e práticas antirracistas, contribui para a afirmação da cultura negra no país e para as mudanças na história do teatro brasileiro.

Notas
1. SILVA, Júlio Cláudio da. Relações raciais, gênero e memória: a trajetória de Ruth de Souza entre o Teatro Experimental do Negro e o Karamu House (1945-1952). 2011. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2011. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/teses/Tese-2011_Julio_Claudio_Silva.pdf Acesso em: 2 out. 2021.

2. LEÃO, Fernando Antônio Fontenele; MACENA FILHA, Maria de Lourdes. Teatro Experimental do Negro: contribuições ao teatro brasileiro. In: CONGRESSO NORTE NORDESTE DE PESQUISA E INOVAÇÃO, 7., 2012. Anai [...]. Tocantins: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Tocantins, 2012. Disponível em: https://propi.ifto.edu.br/ocs/index.php/connepi/vii/paper/view/1216. Acesso em: 1 out. 2021.

3. NASCIMENTO, Abdias do. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Estudos avançados, São Paulo, v. 18, n. 50, p. 209-224, 2004. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/B8K74xgQY56px6p5YQQP5Ff/?lang=pt. Acesso em: 1 out. 2021.

4. FERREIRA, Claudia Monique Silva. A encenação da primeira peça escrita especialmente para o Teatro Experimental do Negro: “O Filho Pródigo”, de Lúcio Cardoso. In: CONGRESSO {VIRTUAL} DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UNICAMP, 28., 2020, Campinas. Resumos [...]. Campinas: Unicamp, 2020. Disponível em: https://www.prp.unicamp.br/inscricao-congresso/resumos/2020P16741A9983O3060.pdf. Acesso em: 2 out. 2021.

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