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Música

Nelson Cavaquinho

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.06.2020
29.10.1911 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
18.02.1986 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Nelson Cavaquinho, s.d.

Nelson Antônio da Silva (Rio de Janeiro RJ 1911 - idem 1986). Compositor, violonista, cantor. Seu primeiro contato com a música se dá nos saraus organizados pelo pai, contramestre da banda da Polícia Militar e tocador de tuba. Aprende a tocar cavaquinho por observação e acompanha o tio, violinista, com um rudimentar cavaquinho, feito com uma cai...

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Biografia
Nelson Antônio da Silva (Rio de Janeiro RJ 1911 - idem 1986). Compositor, violonista, cantor. Seu primeiro contato com a música se dá nos saraus organizados pelo pai, contramestre da banda da Polícia Militar e tocador de tuba. Aprende a tocar cavaquinho por observação e acompanha o tio, violinista, com um rudimentar cavaquinho, feito com uma caixa de charutos e cordas de arame. De origem humilde, abandona o curso primário para ajudar no orçamento familiar. Muda-se, aos 8 anos, para as imediações da Lapa e, em 1928, para a vila operária, na Gávea, onde trabalha numa fábrica de tecidos e participa das rodas de choro dos empregados.

Aos 20 anos, seu pai altera a data de sua certidão para 1910, para que possa ingressar na cavalaria da Polícia Militar, em 1932. Patrulhando o Morro da Mangueira conhece os sambistas Zé da Zilda, Carlos Cachaça e Cartola. É detido mais de uma vez ao trocar a ronda pelo samba. Seu estilo de vida boêmio o afasta da polícia aos 27 anos. Trabalha como pedreiro e passa a vender parcerias em sambas, gênero ao qual mais se dedica. Substitui o cavaquinho pelo violão, o qual toca usando apenas o polegar e o indicador.

Apesar da vasta produção não se promove em rádios e gravadoras: seu palco são bares como o Cabaré dos Bandidos, no centro da cidade. Tem seu primeiro samba, Não Faça Vontade a Ela (parceria com Rubens Campos e Henricão), lançado em 1939, por Alcides Gerardi. A partir 1943, ganha mais publicidade na voz do cantor Ciro Monteiro, que canta Apresenta-me Aquela Mulher (com Augusto Garcez e Gustavo de Oliveira), Não Te Dói a Consciência (Ari Monteiro), Aquele Bilhetinho (Augusto Garcez e Arnô Canegal, 1945), e Rugas (Augusto Garcez e Ari Monteiro, 1946). Mais tarde, a cantora Dalva de Oliveira grava Palhaço, 1952 (com Osvaldo Martins e Washington Fernandes) e Elizeth Cardoso, Amor que Morreu, 1953 (Roldão Lima e Gilberto Teixeira). Inicia em 1955 a duradoura parceria com Guilherme de Brito, com quem compõe Garça e Cinzas (com R. Gaetani), Pranto de Poeta, 1957, A Flor e o Espinho, 1957 (Alcides Caminha), Folhas Secas e Quando Eu Me Chamar Saudade, 1973.

Faz apresentações no Zicartola (1963), restaurante de Cartola e Dona Zica. Ao lado de Zé Kéti, Elton Medeiros, Jorge Santana, Cartola e Nuno Veloso, forma o grupo A Voz do Morro, que faz única apresentação em um programa de televisão. Com Clementina de Jesus, Cartola e Carlos Cachaça, grava o LP Fala Mangueira. É protagonista e tema do curta-metragem Nelson Cavaquinho, de Leon Hirszman, em 1969. No ano seguinte, lança o LP Depoimento de Poeta, dois anos mais tarde, Nelson Cavaquinho - da série Documentos, pela RCA, e, em 1973, Nelson Cavaquinho, com a participação de Guilherme de Brito.

Sua obra é difundida, entre os anos 1950 e 1970, pela interpretação de artistas como Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola, Nora Ney, Beth Carvalho, Nara Leão, Elza Soares, Elis Regina, Thelma Soares, Clara Nunes e Paulo César Pinheiro. Em 1977 grava, com Guilherme de Brito, Candeia e Elton Medeiros, o álbum Quatro Grandes do Samba. Apesar de ser um poeta marginal durante muitos anos, tem seu talento reconhecido em vida: em 1985 é lançado o álbum Flores em Vida, no qual Nelson Cavaquinho executa algumas de suas canções e é homenageado por intérpretes como Chico Buarque, Beth Carvalho, João Bosco e Toquinho.

Comentário Crítico
Nelson Cavaquinho compõe choros notáveis, como Caminhando, 1963 (com Nourival Bahia), mas a maior parte de sua obra se concentra no gênero samba-canção - também conhecido nos anos 1940 como "samba de meio de ano", por se alternar com a música de Carnaval, que então movimenta a indústria fonográfica. Nos anos 1950, com a tendência de desaparecimento dos sambas e marchinhas carnavalescos, entra em seu lugar o samba-enredo, ao passo que aumenta a presença de ritmos estrangeiros, como o bolero, nos centros urbanos. O samba-canção, surgido na década de 1920 e consolidado nos anos 1930, via teatro de revista, é também chamado pejorativamente de "música de fossa" pelo caráter romântico e sentimental, e conquista mais adeptos no pós-guerra pelo teor intimista. Com ênfase musical na melodia, o gênero apresenta outras propostas poéticas, ligadas a questões existenciais, aspecto perceptível na obra de Cavaquinho. No entanto, especializar-se no gênero é menos uma imposição mercadológica que uma opção pessoal do compositor, posto que a fama maior só chega nos anos 1960, quando o cenário da música popular se encontra bastante alterado. Note-se que ele se propõe a tocar somente suas composições, embora conheça o repertório de sua época - não por desprezo aos outros, mas por reconhecer seu lugar na música brasileira.

Segundo a linguista Bia Borges, o universo do samba-canção caracteriza-se pelas "metáforas elaboradas combinadas com o registro coloquial-vulgar; o discurso grandiloquente, o sofrimento, a expiação da culpa, o masoquismo, a cafonice formal (...) onde a redundância aumenta o índice de discursividade de uma construção que se quer poética". No entanto, Bia Borges considera que Cavaquinho, assim como o amigo e parceiro Cartola, consegue mais rendimento poético com menos informação gramatical. O artista demonstra elegância em composições como Luz Negra, 1964 (com Amâncio Cardoso), cuja melodia da primeira parte, descendente, finaliza num grave, culminando com o verso "estou chegando ao fim", de modo a unir o conteúdo à forma. Em Notícia, 1955 (Alcides Caminha e Nourival Bahia), o ressentimento do eu-lírico dá lugar a uma construção irônica, pela elipse do fato em questão, a traição do amigo: "O cigarro deixado em meu quarto é a marca que fumas / confessa a verdade / não deves negar". A simplicidade também está na maneira de interpretar suas composições: enquanto seu parceiro Guilherme de Brito utiliza recursos vocais de cantores de rádio, Cavaquinho canta como fala, projetando os versos através de sua voz rouca de boêmio inveterado, acompanhado pelo violão cujas cordas estalam.

Por meio de sua música, realiza pequenas crônicas sobre o meio em que vive (História de um Valente, 1966, com José Ribeiro de Sousa) e esboça os laços de solidariedade que são construídos entre excluídos sociais de toda ordem, ele inclusive: pobres, prostitutas, marginais, alcoólatras, mendigos. Isso é registrado em sambas como Dona Carola, 1963 (Nourival Bahia e Valto Feitosa Santos) e Caridade, 1954 (Hermínio do Vale). Dedica ainda alguns acordes a sua escola, reconhecendo-a como um espaço de solidariedade e amizade: "Mangueira é celeiro / De bambas como eu / Portela também teve / O Paulo que morreu / Mas o sambista vive eternamente / No coração da gente / Os versos de Mangueira são modestos / Mas há sempre força de expressão" (Trecho de Sempre Mangueira, 1968, com Geraldo Queirós). Suas composições explicitam sua filosofia de vida, fundamentada numa ética cristã, como em Deus Não Me Esqueceu, 1969 (Ananias Silva, Armando Bispo) e Juízo Final, 1973 (com Élcio Soares). Abraçando a religiosidade a seu modo, flexibiliza dogmas e mantém como máximas o amor e a compaixão pelo próximo: "Se viveu ou se sofreu / Isto não pertence a mim / Todos têm seu próprio eu / E o eu seu próprio fim / Não critico a ninguém / Sempre me achei feliz/ Pois se eu erro também / Nunca posso ser juiz" (trecho de Lágrima sem Júri, 1972).

Nos anos 1960, pelo sucesso do Zicartola, restaurante de Cartola e Dona Zica, e com o movimento de "ida ao povo", pelo Centro de Cultura Popular da União Nacional dos Estudantes (CPC/UNE), a obra de Cavaquinho e seus pares alcança um lugar respeitável, num momento em que a noção de "popular" e de "identidade nacional" passa por transformações significativas. A música popular brasileira vira sigla - MPB - e sinônimo de "defesa do nacional", englobando tanto a música de Cavaquinho, que, como observa o etnomusicólogo Carlos Sandroni, é lida numa chave "folclórica", quanto a bossa nova. Musicalmente, num período relativamente curto, há uma série de transformações, com novos tipos de composição, harmonização e interpretação, que se tornam mais próximos à fala. Nesse cenário, depois de anos à margem, empregando-se em outras funções para ganhar a vida (bombeiro hidráulico, meio oficial de eletricista, pedreiro), ele passa a ser músico profissional, o que melhora um pouco sua condição social. É já um músico maduro, com uma obra bem definida, quando isso ocorre.

Dentro de uma estrutura musical tradicional, Nelson Cavaquinho introduz marcas bastante peculiares. Cantando a realidade local, tange o universal, traduzindo sentimentos humanos com simplicidade, como se, por meio da música, ele pudesse adiar a hora da morte.

Obras 3

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Fontes de pesquisa 11

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  • BORGES, Bia. Samba-canção: fratura e paixão. Rio de Janeiro: Editora Codecri, 1982. 163 p.
  • CAVALCANTE, B., STARLING, H. e EISENBERG, J. (orgs.) Decantando a República. Inventário histórico e político da canção popular moderna brasileira. Vol. 1. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004. 190p.
  • COSTA, Flávio Moreira da. Nelson Cavaquinho: enxugue os olhos e me dê um abraço. Rio de Janeiro: Relume Dumará : Secretaria Municipal de Cultura, 2000. Coleção Perfis do Rio.
  • DINIZ, André. Almanaque do samba: a história do samba, o que ouvir, o que ler, onde curtir. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.
  • MATOS, Cláudia Neiva de. "O lirismo no samba. O eu poético e seus parceiros na obra de Nelson Cavaquinho". In: ULHÔA, Martha e OCHOA, Ana Maria (orgs.). Música Popular na América Latina. Pontos de Escuta. Rio Grande do Sul: Editora da UFRGS, 2005. pp. 112-133.
  • NELSON Cavaquinho. In: BOTEZELLI, J. C. (Coord.); PEREIRA, Arley (Coord.). A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes. São Paulo: SESC SP, 2000. v. 3, 256 p., il. p&b. 1 CD Sonoro.
  • NELSON Cavaquinho. Leon Hirszman (dir.). Documentário, NTSC, p&b, 13 min. Brasil, 1969. Distribuição: Petrobrás.
  • NOVAES, José. Nelson Cavaquinho. Luto e melancolia na música popular. Rio de Janeiro: Intertexto : Oficina do Autor, 2003.
  • OS GRANDES da MPB. Nº 18. Nelson Cavaquinho. O poeta do samba. Rio de Janeiro: Edições Del Prado, 1997.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vol. 2: 1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998. (Coleção Ouvido Musical).
  • SOUZA, Tárik e ANDREATO, Elifas. "Nelson Cavaquinho". In: Rostos e gostos da música popular brasileira. Porto Alegre: L & PM Editores, 1979; pp. 185-187.

Como citar

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