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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Elza Soares

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 20.01.2022
23.06.1937 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
20.01.2022 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro

Sem Título, 10.03.2015
Sérgio de Castro , Elza Soares

Elza da Conceição Soares (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1937 - Idem, 2022). Cantora, compositora. Com uma voz rouca marcante, Elza contribui com importantes registros de grandes composições da música brasileira, interpretando e improvisando sobre canções de diferentes gêneros.

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Elza da Conceição Soares (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1937 - Idem, 2022). Cantora, compositora. Com uma voz rouca marcante, Elza contribui com importantes registros de grandes composições da música brasileira, interpretando e improvisando sobre canções de diferentes gêneros.

Filha de uma lavadeira e de um operário, é criada na favela de Água Santa, subúrbio de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Enfrenta a resistência do marido e do pai para cantar no rádio. Em 1953, participa do programa Calouros em Desfile, na Rádio Tupi, apresentado por Ary Barroso (1903-1964), e leva o prêmio interpretando o samba “Lama” [Paulo Marques (1925) e Aylce Chaves]. Fica viúva aos 18, trabalha numa fábrica de sabão e num hospital psiquiátrico para ajudar no orçamento da família. Torna-se cantora da Orquestra Garam de Bailes, na qual o irmão é violonista. Substitui a vedete Vera Regina na peça Jou-jou Fru-fru, contracenando com Grande Otelo (1915-1993)

Elza Soares destaca-se pelas interpretações que imprime aos sambas de várias épocas. Ao longo de mais de 60 anos de carreira, registra vários compositores do gênero e suas vertentes. Seu repertório inclui de Lupicínio Rodrigues (1914-1974) a Chico Buarque (1944), passando pelo lírico Nelson Cavaquinho (1911-1986) e pelos sambas-enredo e de quadra, no álbum Elza Carnaval & Samba (1969). Valendo-se de sua atuação cênica, coloca dinamismo em suas performances no palco.

Os sambas predominam na primeira fase da carreira, dos anos 1960 aos anos 1970. O LP O Máximo do Samba (1967), por exemplo, traz alguns clássicos do gênero, como “Conversa de Botequim” [Noel Rosa (1910-1937)] e “Atire a Primeira Pedra” [Ataulfo Alves (1909-1969) e Mário Lago (1911-2002)]. Registra também “Tenha Pena de Mim” [Ciro de Souza (1911-1995) e Babaú (1914-1993)] e é intérprete de sambalanço gravando composições como “Boato” [João Roberto Kelly (1938)] e “Telecoteco n. 2” [Nelsinho e Oldemar Magalhães (1912-1990)].

Lança os primeiros discos pela Odeon, gravadora que explora o nicho da bossa nova, e tem contato com músicos ligados a esta produção. Divide um disco com Wilson das Neves (1936-2017), grava com o baterista Milton Banana (1935-1999) e interpreta músicas de Tom Jobim (1927-2004) e Vinícius de Moraes (1913-1980). Apesar de o início de sua popularidade coincidir com o ápice da bossa nova, este movimento apenas tangencia a obra de Elza, porque seu modo de cantar não entra no padrão minimalista do movimento. Sua ligação com o jazz é mais experimental e não se configura como seu estilo único.

Tomando como referência os ícones da juventude, desenvolve a habilidade de atingir “o vibrato dolorido de Dalva de Oliveira e a limpidez aguda de Angela Maria”1. É capaz de imitar as duas cantoras com a mesma perfeição que imita os vocais masculinos de Cauby Peixoto (1931-2016) e Nelson Gonçalves (1919-1998). A rouquidão característica é explorada desde criança, de maneira intuitiva. Depois, faz uso dela de forma consciente, por meio do contato com cantores estadunidenses. Elza é pioneira no Brasil do scat-singing – técnica de improviso vocal do jazz que consiste em empregar, aleatoriamente, sílabas sem sentido textual, combinadas com sons, característica de cantores como Louis Armstrong (1901-1971). Este recurso faz com que Elza transcenda a estrutura do samba e dê lugar a fraseados jazzísticos. Por tal razão, atribui-se à cantora o epíteto de “a bossa negra”, subtítulo de seu álbum de estreia, produzido por Aloysio de Oliveira (1914-1995)

Além do samba, seu repertório contém outros gêneros, como samba-rock, tango [como a versão do choro “Fadas”, de Luiz Melodia (1951)] e funk. Em seu disco Sambas e Mais Sambas (1970), a cantora demonstra essa diversidade de gêneros. No mesmo disco, registra o “Mas que Nada” [Jorge Ben Jor (1942)]; “Recado” [Paulinho da Viola (1942) e Casquinha (1922)]; “Dá-me Tuas Mãos” [Erasmo Silva (1911-1985) e Jorge de Castro (1915)], um bolero acompanhado por arranjos de órgão; e “Tributo a Martin Luther King” [Ronaldo Bôscoli (1929-1994) e Wilson Simonal (1939-2000)], cujo canto se aproxima aos spirituals norte-americanos. 

As características musicais do repertório de Elza Soares tendem mais ao balanço do que à melancolia do blues. Isto se evidencia em trabalhos como Elza Pede Passagem (1972), em que constam alguns sambalanços como “Saltei de Banda” [Zé Rodrix (1947-2009) e Luiz Carlos Sá (1945)], “O Gato” [Gonzaguinha (1945-1991)] e “Amor Perfeito” [Billy Blanco (1924-2011)]. Na capa, a cantora não aparece como uma das divas da era de ouro do rádio, mas com penteado black power e trajando uma calça boca-de-sino. 

Por seu trabalho com diferentes orquestras, consegue imitar vozes como instrumentos musicais, tecendo diálogos com sax, pistão e flauta. Quando há possibilidade, improvisa imitando a bateria. Sua voz passa por mudanças significativas ao longo dos anos. Do início, com “Se Acaso Você Chegasse”, até o final dos anos 1970, encaixa-se na categoria mezzo-sopranos, com fluidez maior do que a de um contralto convencional. No final dos anos 1980, quando retoma a carreira, apresenta uma voz mais metálica – dialogando com os metais da orquestra –, grave com timbre que remete ao contralto. Além da extensão vocal, atingindo notas das mais graves às mais agudas, Elza alcança potência suficiente para preencher um teatro sem recorrer à amplificação por microfone.

A cantora mostra-se aberta a novas tendências musicais, transitando também pelo rap e pelas experimentações com música eletrônica, nos discos Do Cóccix Até o Pescoço (2002), Vivo Feliz (2004) e em sua participação no projeto Inusitado (2013). Está em sintonia com compositores de outra geração da MPB, não necessariamente vinculados à tradição do samba. Entre eles, Arnaldo Antunes (1960), José Miguel Wisnik (1948), Marcelo Yuka (1965) e Carlinhos Brown (1964). As composições de A Mulher do Fim do Mundo (2015) trazem questões como violência doméstica, transsexualidade, narcodependência, crise da água e morte. As sonoridades do disco abarcam gêneros como samba, rock, rap e eletrônico e trazem sua parceria com músicos da cena paulistana como Romulo Fróes (1971), Kiko Dinucci (1977) e Douglas Germano (1968). Em 2018, a cineasta Elizabete Martins Campos lança o documentário sobre a cantora My Name is Now, Elza Soares, que recebe o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro na categoria Melhor Trilha Sonora Original em 2019. 

Referência para diferentes gerações da música brasileira, Elza Soares deixa sua marca, característica de sua voz e performance em importantes composições de diferentes gêneros, além de consolidar parcerias com músicos de diferentes vertentes, criando uma obra vasta e diversa. 

Notas

1. SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Ed. 34, 2003. p. 121. (Todos os Cantos.)

Obras 4

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Espetáculos 1

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Exposições 1

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Shows musicais 1

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