Artigo da seção pessoas Klauss Vianna

Klauss Vianna

Artigo da seção pessoas
Dança  
Data de nascimento deKlauss Vianna: 12-08-1928 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte) | Data de morte 12-04-1992 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Klauss Ribeiro Vianna (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1928 – São Paulo, São Paulo, 1992). Preparador corporal, coreógrafo, professor, bailarino. Responsável por trazer estudos anatômicos para a sala de aula, busca compreender, por meio do corpo, o que seria “uma dança brasileira” – mote modernista de sua trajetória. É precursor dos entendimentos de Consciência/ Expressão Corporal, associados à materialidade do corpo.

Começa a estudar balé clássico, aos 20 anos, na primeira turma da escola de Carlos Leite (1914-1955), que, em 1950, transforma-se no Corpo de Baile do Teatro Mineiro de Arte, conhecido como Ballet Minas Gerais. Klauss torna-se assistente de Carlos Leite. Como bailarino, atua de 1948 a 1954, quando desenvolve suas primeiras coreografias.

Entre 1949 a 1951, estuda balé com Maria Olenewa (1896-1965), na Escola Municipal de Bailados, em São Paulo. Na década de 1950, faz parte da “Geração Complemento” 1 e inicia trajetória híbrida entre dança e teatro.

Em 1952, Klauss abre sua primeira escola de Balé. No mesmo ano, publica o texto-manifesto "Pela Criação de um Balé Brasileiro" na Revista Horizonte 2. No texto, delineia-se a preocupação modernista que marca seu percurso. Em 1955, cria Cobra Grande, seu primeiro balé, em referência à obra Cobra Norato (1931), do poeta modernista Raul Bopp (1898-1984).

Em 1959, oficializa com sua parceira Angel Vianna o Ballet Klauss Vianna, encenando obras de cunho modernista. A companhia recebe o Grupo de Teatro Experimental 3 em residência.

Depois de ministrar um curso de férias na instituição, em 1962, Angel e Klauss recebem o convite para integrar o corpo docente na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (Ufba) 4. O casal cursa Anatomia Aplicada ao Movimento, com o renomado professor Antonio Brochado e permanece na instituição até 1965. 

Klauss muda-se para o Rio de Janeiro e atua como professor de balé na Escola Municipal de Bailados até 1977 e em outros importantes estúdios e escolas na capital carioca.

No final dos anos 1960 e início dos 1970, no Rio de Janeiro, é responsável por coreografar, fazer a preparação corporal, atuar e dirigir peças teatrais, pelas quais recebe vários prêmios.

Neste período, os termos Consciência/ Expressão Corporal difundem-se, e Klauss ministra cursos em universidades e instituições culturais. Os estudos anatômicos transformam as nomenclaturas de suas aulas e tornam-se um legado para cursos de danças posteriores, nos quais músculos, ossos e funções do corpo humano passam a ser tratados. A assimilação dos estudos anatômicos ao ensino da dança se dá paralelamente ao crescimento da Educação Somática 5 .

Em 1975, ao lado de Teresa D’Aquino e Angel Vianna, Klauss funda o Centro de Pesquisa Corporal Arte e Educação, conhecido como “Corredor Cultural do Rio de Janeiro” 6. No mesmo ano, ele e a parceira criam o grupo Teatro do Movimento, atuante até 1980 e marco da história da dança no Brasil.

Entre 1976 e 1978, o coreógrafo coordena a Escola Martins Pena, com o ideal de gerir uma “escola aberta”, proposta que o acompanha ao longo da vida. Entre 1978 e 1980, dirige o Instituto Estadual das Escolas de Arte do Rio de Janeiro.

Em 1981, muda-se para São Paulo e é convidado a dirigir a Escola Municipal de Bailados. No mesmo ano, assina a preparação corporal do espetáculo Clara Crocodilo, trabalho simbólico da cena independente paulistana da época, e leciona em diversas escolas e estúdios. Entre 1982 e 1983, assume a direção do Balé da Cidade de São Paulo, no qual cria o Grupo Experimental, núcleo que propõe, no contexto de uma companhia oficial, possibilidades de investigação do movimento. Em toda a vida, o artista se encontra na fronteira entre duas tradições: uma marcada pela dança institucional e outra, pela cena independente.

Os primeiros registros de sistematização de seu trabalho são a pesquisa A Intenção dos Gestos (1985) e, sob coordenação de Marli Sarmento, o estudo Registro do Método Klauss Vianna para o Ensino da Técnica de Dança Contemporânea (1986). Em 1990, publica o livro A dança, com relatos de suas ideias e registros pessoais.

Em 1991, participa da série documental Memória Presente, produzida pela Secretaria Municipal de Cultura. Nesse momento acontece a famosa discussão entre Klauss e Rainer sobre a consolidação de uma técnica: “Acho que esse ciclo Klauss Vianna não é tão aberto quanto parece ser. Acho que tem muito cientificismo. A técnica Klauss Vianna [...] tem todo um fundamento que não é expressão corporal”, diz Rainer. Klauss responde: “A minha diferença é essa: eu não quero usar essas técnicas todas às quais você se refere como já fechadas. [...] É o estar presente naquele momento”. Mesmo negando, a princípio, a noção de técnica, nos últimos anos de vida, Klauss ministra cursos com a nomenclatura Técnica Klauss Vianna, idealizada por Rainer. Este, em 1992, funda a Escola de Dança Klauss Vianna, em São Paulo.

A carreira de Klauss Vianna é marcada pelas diferenças que a continuidade de seus estudos produz. Como o pesquisador, não cessa de se transformar. Por isso, várias linhagens de pensamento em torno de seu trabalho mantêm-se vivas, no dissenso alimentado por um percurso investigativo.


 

Notas

1.  “[...] os romancistas Ivan Ângelo (1936) e Silviano Santiago (1936), também poeta e ensaísta, lançaram a revista Complemento, que durou quatro números entre 1956 e 1958, que contava com a colaboração de críticos de cinema [Maurício Gomes Leite (1936-1993) e Flávio Pinto Vieira (1939-2008)], artes plásticas [Frederico Morais (1936)], teatro [João Marschner (1932-2002)] e música [Ezequiel Neves (1935-2010)], conhecidos como a “Geração Complemento”. In: RUFFATO, Luiz. Revistas literárias em Belo Horizonte. Rascunho, Curitiba, jan. 2012. Lance de dados. Disponível em: http://rascunho.com.br/revistas-literarias-em-belo-horizonte/. Acesso em: 3 abr. 2018.

2.  O texto pode ser lido na íntegra no Acervo Klauss Vianna. Disponível em: http://www.klaussvianna.art.br/acervo.asp#[showDet]1878. Acesso em: 3 abr. 2018

3.  “Fundado por Carlos Kroeber, Jota Dangelo e João Marschner, o Teatro Experimental exerce grande influência no panorama teatral de Belo Horizonte, de 1959 até meados dos anos 1960, ao encenar textos de autores da vanguarda europeia e norte-americana. A partir de 1966, assume posição de resistência à ditadura militar e de valorização das tradições culturais e políticas de Minas Gerais.” TEATRO Experimental (TE). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo518675/teatro-experimental. Acesso em: 5 abr. 2018.

4. A Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, criada em 1956, é pioneira, e, durante quase trinta anos, única entre as graduações em Dança no Brasil. 

5. “A Educação Somática é um campo teórico-prático composto de diferentes métodos cujo eixo de atuação é o movimento do corpo como via de transformação de desequilíbrios mecânico, fisiológico, neurológico, cognitivo e/ou afetivo [...].” In: BOLSANELLO, Débora Pereira. A educação somática e os conceitos de descondicionamento gestual, autenticidade somática e tecnologia interna. Motrivivência. Florianópolis, Ano XXIII, n. 36, p. 306-322, Jun. 2011.

6. O Centro de Pesquisa Corporal Arte e Educação surge pela necessidade de um espaço voltado à pesquisa a partir do corpo, como afirma a matéria publicada pelo jornal O Globo, em 15 de junho de 1975: “A organização de um centro de pesquisa sobre o corpo é a meta de Angel, Klauss e Teresa de Aquino, que acabam de inaugurar sua academia. Fica numa velha casa simpática na Rua Góes Monteiro em Botafogo e, apesar de ser recente, já conta com muitos alunos”. In: O GLOBO. O corpo como objeto de pesquisa. O Globo, Rio de Janeiro, 15 jun. 1975. Jornal da Família. Disponível em: http://acervo.oglobo.globo.com/consulta-ao-acervo/?navegacaoPorData=197019750615. Acesso em: 30 abr. 2018.

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Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (18)

  • MICHALSKI, Yan. Teatro sob pressão: uma frente de resistência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
  • ACERVO Klauss Vianna. Disponível em: http://www.klaussvianna.art.br/. Acesso em: 28 jan. 2013.
  • BOLSANELLO, Débora Pereira. A educação somática e os conceitos de descondicionamento gestual, autenticidade somática e tecnologia interna. Motrivivência, Florianópolis, ano XXIII, n. 36, jun. 2011. p. 306-322.
  • CASALI, Eleonora; NAVAS, Cássia. Memória presente: Klauss Vianna. Formato U-matic. São Paulo, TV Anhembi; Secretaria Municipal de Cultura, 1992.
  • ESCOLA Angel Vianna. Disponível em: http://www.escolaangelvianna.com.br/.
  • FARO, Antonio José; SAMPAIO, Luiz Paulo. Dicionário de balé e dança. Rio de Janeiro: Zahar, 1989. p.405 R792.8 F237d
  • MICHALSKI, Yan. Klauss Vianna. In: ______. Pequena enciclopédia do teatro brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro, 1989. Material inédito, elaborado em projeto para o CNPq.
  • MIRANDA, Wander Melo. Silviano Santiago e a Geração Complemento. Scripta, Belo Horizonte, v. 1, n. 2, p. 23-27, 1998. 
  • NAVAS, Cássia. Imagens da Dança em São Paulo. São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura/IMESP, 1987.
  • NAVAS, Cássia; DIAS, Linneu. Dança moderna. São Paulo, a cidade e a cultura. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1992.
  • NEVES, Neide. O movimento como processo evolutivo gerador de comunicação: técnica Klauss Vianna. 2004. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2004.
  • O GLOBO. O corpo como objeto de pesquisa. O Globo, Rio de Janeiro, 15 jun. 1975. Jornal da Família.  Disponível em: http://acervo.oglobo.globo.com/consulta-ao-acervo/?navegacaoPorData=197019750615.  Acesso em: 30 abr. 2018.
  • ONDE tem bruxa tem fada, 1980. Programa do Espetáculo. Disponível em: http://www.klaussvianna.art.br/Arquivos/396/800500-BH-ILU-PRO1-8.pdf. Acesso em: 20 jul. 2018.
  • Planilha enviada pela pesquisadora Rosyane Trotta Não Catalogado
  • RIBEIRO, Joana. Klauss Vianna: do coreógrafo ao diretor. São Paulo: Annablume, 2010.
  • TAVARES, Joana Ribeiro da Silva. A técnica Klauss Vianna e sua aplicação no teatro brasileiro. Dissertação (Mestrado em Teatro). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002. 
  • TEATRO Experimental (TE). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo518675/teatro-experimental-te. Acesso em: 5 abr. 2018. Verbete da Enciclopédia.
  • VIANNA, Klauss. Rio de Janeiro: CEDOC / Funarte. Dossiê Personalidades Artes Cênicas.

Como citar?

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  • KLAUSS Vianna. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa349623/klauss-vianna>. Acesso em: 14 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7