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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Sérgio Ricardo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.12.2020
18.06.1932 Brasil / São Paulo / Marília
23.07.2020 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
João Lutfi (Marília, São Paulo, 1932 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020). Compositor, cantor, instrumentista, diretor de cinema, ator, poeta e pintor. Destaca-se por suas pesquisas sobre expressões da cultura popular, especialmente as nordestinas, incorporadas a diferentes linguagens artísticas, como a música, a poesia e o vídeo. 

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João Lutfi (Marília, São Paulo, 1932 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020). Compositor, cantor, instrumentista, diretor de cinema, ator, poeta e pintor. Destaca-se por suas pesquisas sobre expressões da cultura popular, especialmente as nordestinas, incorporadas a diferentes linguagens artísticas, como a música, a poesia e o vídeo. 

Sérgio Ricardo começa a estudar música aos oito anos, num conservatório de Marília. Em 1950, muda-se para o Rio de Janeiro, onde inicia a carreira profissional como pianista de casas noturnas e começa a compor e cantar. No início da carreira, estabelece um vínculo com a bossa nova ao lançar o LP A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo (1960). No disco, a canção “Zelão” se destaca por narrar a miséria de um sambista em meio à desigualdade e inicia uma tendência de temas sociais que se desenvolve entre alguns bossa-novistas.

Nos anos seguintes, Sérgio compõe trilhas sonoras para produções artísticas do Centro Popular de Cultura (CPC) (1961-1964). A relação com a entidade, dedicada à criação e divulgação de uma arte popular revolucionária, acentua o caráter engajado de seu trabalho. Também contribui para a modificação de seus princípios estéticos, que passam a se basear em ritmos e melodias populares.

Em 1963, é convidado pelo diretor de cinema Glauber Rocha (1939-1981) para compor a trilha sonora do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), baseada em cordéis escritos pelo cineasta. A adaptação desse gênero literário leva Sérgio a produzir outras trilhas, muitas para peças e filmes sobre a realidade nordestina. Em 2019, esse trabalho é relembrado com o uso da canção “Bichos da Noite” (1967) no filme Bacurau, de direção de Kleber Mendonça Filho (1968) e Juliano Dornelles (1980). A canção é originalmente criada para o espetáculo O Coronel de Macambira (1967).

Apesar do interesse declarado do compositor em comunicar-se com o público, a apresentação da música “Beto Bom de Bola” no 3º Festival da Canção (1967) da Record marca um momento de difícil recepção de seu trabalho. A letra da composição narra a tristeza de um jogador de futebol que confronta a nostalgia de um passado glorioso com a experiência de um presente hostil. Para driblar censores e tentar divulgar críticas à ditadura nos meios de comunicação de massa, Sérgio descreve, na segunda parte da música, “o quanto a vida é dura”, reiterando palavras que rimam com o final do verso, em alusão ao regime. Esse recurso e a linguagem metafórica da canção não cativam o público. As vaias, costumeiras nesses festivais, são exacerbadas e o levam a quebrar o violão e o arremessar em direção à plateia.

No festival de 1968, com o endurecimento do autoritarismo da ditadura, trechos da canção “Dia de Graça” são censurados. A música faz menções diretas a militares, guerrilheiros e estudantes mortos, e dessa vez o público apoia o artista, cantando as partes que ele é obrigado a omitir. Tal episódio consolida o sucesso do músico com as canções de protesto.

Usando preceitos estéticos e políticos desenvolvidos em sua carreira musical, Sérgio Ricardo passa a elaborar narrativas cinematográficas: produz curtas e longas-metragens ligados à realidade das favelas e dos trabalhadores rurais. Além de roteirizar, dirigir e compor as trilhas sonoras, participa das produções como ator. Seu longa-metragem A Noite do Espantalho (1974), considerado o mais original, baseia-se em cordéis escritos e musicados por ele. O roteiro da obra é elaborado em parceria com o crítico Jean-Claude Bernardet (1936), e a interpretação das canções é feita pelos músicos Alceu Valença (1946) e Geraldo Azevedo (1945). Ao se aproximar do imaginário e das formas estéticas do trabalhador rural, apresentando personagens e cenários fantásticos da literatura de cordel, Sérgio tem o objetivo de alcançar um cinema efetivamente popular.

Sem abandonar por completo o lirismo e o tema do amor herdados do contato inicial com a bossa nova, Sérgio também escreve livros de poesia e se dedica à pintura. Seus quadros oscilam entre a representação do corpo feminino e de trabalhadores populares, e variam entre formas ora mais abstratas, ora mais figurativas. 

Além da produção artística sempre em curso, no século XXI o artista se envolve na luta por direitos autorais. Participa de eventos sobre o tema e faz discursos em que critica os critérios de arrecadação e distribuição de direitos autorais praticados pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). Ao propor uma reforma na entidade, retoma uma causa já defendida desde os anos 1970 com outros artistas, como Chico Buarque (1944) e Jards Macalé (1943) ⎼ na época, obtém com eles algumas conquistas para proteger os direitos de compositores. A nova empreitada ganha o apoio de muitos representantes da classe.

A trajetória de Sérgio Ricardo torna-se um exemplo de versatilidade artística e de valorização da cultura brasileira. Além da resistência ao autoritarismo nos anos de chumbo no Brasil, sua produção evoca uma sensibilidade atenta às injustiças históricas ainda presentes na sociedade brasileira.

Espetáculos 18

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Exposições 3

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Fontes de pesquisa 13

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  • ELBAR, Jorge. A posição de Sérgio Ricardo. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 jul. 1966. Caderno B.
  • GARCIA, Walter. Radicalismos à brasileira. Revista Celeuma, n. 1, 2013, São Paulo, p. 20. Acesso em: 24 jul. 2020.
  • HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde: 1960/1970. 5. ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2005.
  • KORNIS, Mônica Almeida. Centro Popular de Cultura. FGV CPDOC. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NaPresidenciaRepublica/Centro_Popular_de_Cultura. Acesso em: 23 jul. 2020.
  • MAYRINK, Geraldo. Os dois Sérgio Ricardo. Revista Filme Cultura, Rio de Janeiro, n. 16, 1970. Disponível em: http://revista.cultura.gov.br/item/filme-cultura-n-16/. Acesso em: 08 dez. 2020.
  • MEDAGLIA, Júlio. Balanço da bossa nova. In: CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa e outras bossas. Editora Perspectiva: São Paulo, 1974.
  • MURAO, Carlo. Uma ópera no sertão. Jornal Opinião, Rio de Janeiro, 02 set. 1974.
  • Músico Sérgio Ricardo morre aos 88 anos no Rio. G1, Rio de Janeiro, 23 jun. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/07/23/morre-no-rio-o-musico-sergio-ricardo.ghtml. Acesso em: 23 jun. 2020.
  • PONTO de Partida. São Paulo: Teatro de Arte Israelita Brasileiro, 1976. 1 programa do espetáculo realizado no Teatro de Arte Israelita Brasileiro.
  • RICARDO, Sérgio. A prática do jabá e critérios de distribuição: autores e artistas estão satisfeitos? In: SÉRGIO RICARDO. Site Oficial do Artista. [S.l.], [s.d.]. Disponível em: Rio de Janeiro, julho de 2008. https://www.sergioricardo.com/#. Acesso em: 24 jul. 2020.
  • TBC apresenta Arena-Opinião. São Paulo: TBC, 1965. 1 programa do espetáculo realizado no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC).
  • TINHORÃO. Bossa nova de Noel Rosa em 1930 pode indicar caminho do povo aos bossas novas de 1962. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 abr. 1962. Caderno B, p. 7.
  • ÊSSE Mundo é Meu. São Paulo: Teatro de Arena, 1965. 1 programa do espetáculo realizado no Teatro de Arena.

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