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Literatura

Aurélio Buarque de Holanda

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.03.2015
03.05.1910 Brasil / Alagoas / Passo de Camaragibe
28.02.1989 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Aurélio Buarque Cavalcanti Ferreira (Passo de Camaragibe, AL, 1910 - Rio de Janeiro, RJ, 1989). Lexicógrafo, filólogo, tradutor, crítico literário, escritor e professor. Passa a infância em Porto das Pedras, Alagoas, e inicia os estudos em Maceió. Cursa os preparatórios no Liceu Alagoano e, desde os 15 anos, atua como professor. Em 1930, aproxim...

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Biografia
Aurélio Buarque Cavalcanti Ferreira (Passo de Camaragibe, AL, 1910 - Rio de Janeiro, RJ, 1989). Lexicógrafo, filólogo, tradutor, crítico literário, escritor e professor. Passa a infância em Porto das Pedras, Alagoas, e inicia os estudos em Maceió. Cursa os preparatórios no Liceu Alagoano e, desde os 15 anos, atua como professor. Em 1930, aproxima-se de um grupo de intelectuais com forte influência no Nordeste, do qual fazem parte, entre outros, José Lins do Rego (1901-1957), Graciliano Ramos (1892-1953) e Rachel de Queiroz (1910-2003). Aos 21 anos, adota o nome Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, incorporando o sobrenome da família materna. Ingressa na Faculdade de Direito do Recife em 1932 e conclui o curso quatro anos depois. A morte do pai, em 1935, lhe serve de inspiração para o conto O Chapéu do Meu Pai, publicado em 1941, no volume Dois Mundos. Entre 1936 e 1937, dá aulas de português, literatura e francês no Colégio Estadual de Alagoas. Após ocupar cargos na Prefeitura de Maceió, como o de oficial de gabinete e de diretor da Biblioteca Municipal, transfere-se para o Rio de Janeiro em 1938, e passa a trabalhar como professor de língua portuguesa no Colégio Pedro II e no Instituto Rio Branco. A partir de 1939, atua na imprensa carioca: primeiramente como secretário da Revista do Brasil, período em que se aproxima do tradutor e linguista húngaro Paulo Rónai (1907-1992) - com quem publica, a partir de 1945, os dez volumes de Mar de Histórias: Antologia do Conto Mundial -, e entre 1947 e 1960 produz textos para a coluna O Conto da Semana, do suplemento literário do jornal carioca Diário de Notícias. A convite de Manuel Bandeira (1886-1968), realiza, em 1940, sua primeira colaboração com dicionários - atividade responsável por sua notoriedade -, levantando brasileirismos para o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Ainda em razão de seu contato com o Ministério das Relações Exteriores, existente desde 1938, ocupa, de 1954 a 1955, a cadeira de estudos brasileiros na Universidade Autônoma do México (Unam). Bacharel em direito, autodidata, elege-se para a Academia Brasileira de Filologia, em 1956. Publica, em 1958, Enriqueça o Seu Vocabulário, reunião de verbetes divulgados na revista Seleções Reader's Digest desde 1950. Na década de 1960, integra a Comissão Machado de Assis, responsável pelo estabelecimento de textos originais do autor. Ingressa na Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1961, ocupando a cadeira número 30. Seu trabalho fundamental, Novo Dicionário da Língua Portuguesa, conhecido popularmente como "Dicionário Aurélio", sai em 1975.

Comentário crítico
Considerado pelo também lexicógrafo Antonio Houaiss (1915-1999) "a figura mais importante da língua portuguesa nos últimos 150 anos", Aurélio Buarque de Holanda Ferreira produz o mais popular dicionário brasileiro, o Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Lançado em 1975, integra um ciclo de obras responsáveis pela consolidação da independência brasileira nesse campo.

Até então, há no Brasil obras de complemento aos trabalhos realizados em Portugal, como é o caso do Dicionário de Vocábulos Brasileiros, de Visconde de Beaurepaire Rohan (1812-1894), de 1889, e as duas primeiras exclusivamente brasileiras: Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, de Laudelino Freire (1873-1937), publicado entre 1939 e 1944, e Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de Gustavo Barroso (1888-1959) e Hildebrando Lima (1904-?), finalizado em 1938, com o qual Buarque colabora, sendo responsável pelo levantamento de vocábulos exclusivamente brasileiros.

As fontes adotadas para a confecção do Novo Dicionário é o que o diferencia das publicações anteriores, já que, para elaborar o que define como "um dicionário moderno, vivo", o autor se vale não apenas de textos literários clássicos, mas também da linguagem empregada na imprensa e na mídia (jornais, revistas, televisão e rádio), da fala popular e de linguajares diversos (regionais, profissionais, giriescos).

A atenção de Buarque à linguagem é traço relevante em todas as atividades que realiza. Assim, nos ensaios dedicados a Machado de Assis (1839-1908), Eça de Queirós (1845-1900) e Simões Lopes Neto (1865-1916), situados, segundo Paulo Rónai, "nos confins da filologia e da estilística", o autor fundamenta suas reflexões sobre as obras literárias em delicados exames dos estilos empregados nos textos.

No que diz respeito ao autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o filólogo procura mostrar como a "hesitação no estilo", manifesta em formulação binária e ambivalente e no emprego constante de partículas como "mas", "ou", "talvez", "pode ser", traduz "a luta interior - a fisionomia moral de Machado de Assis". Já a presença de expressões de língua francesa em Eça de Queirós é interpretada tanto como sintoma da ação civilizatória exercida pela França quanto como prova do profundo conhecimento que o autor português detém de textos clássicos. E, ao estudar a prosa do escritor gaúcho Simões Lopes Neto, Buarque problematiza a forma como os escritores regionalistas retratam os falares populares brasileiros.

Também à poesia dedica-se esse estudioso da língua. É sua a análise minuciosa, embora concisa, dos procedimentos formais empregados na Canção do Exílio. A ausência de qualificativos, as repetições e as escolhas lexicais são os principais fatores em que se baseia sua leitura da composição de Gonçalves Dias (1823-1864). Dos ensaios dedicados a versos e reunidos em Território Lírico, de 1958, Rónai destaca seu "caráter pioneiro": "Depois de esses artigos haverem saído na imprensa é que principiam a surgir análises de poesia", escreve o linguista húngaro. Exemplar desses estudos em que, segundo Augusto Meyer, está a "filologia a serviço da estilística" é "Três versões de um poema de Verlaine", no qual Buarque avalia as traduções feitas por Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), Guilherme de Almeida (1890-1969) e Onestaldo de Pennafort (1902-1987) da Chanson d'Automne do poeta francês. Aqui pesam as escolhas lexicais, o ritmo e a versificação dos brasileiros.

Como tradutor, Buarque é reconhecido sobretudo pelo trabalho realizado ao lado de Rónai para a elaboração da coletânea Mar de Histórias: Antologia do Conto Mundial. Composta de dez volumes, a obra se inicia em 1945 e termina de fato em 1990, com mais de 240 textos selecionados, que incluem desde um conto policial egípcio escrito há cerca de 4 mil anos, A História de Rampsinitos, até trabalhos do irlandês James Joyce (1882-1941), passando, ainda, pelas fábulas do grego Esopo (620-560 a.C.) e pelos contos do italiano Giovanni Bocaccio (1313-1375). As traduções, realizadas em sua maior parte diretamente do texto original (grego, latim, francês, espanhol, italiano e alemão), são responsáveis pela introdução no Brasil de autores como o dinamarquês Holger Drachmann (1846-1908) e o sueco Per Hallstrom (1866-1960).

O lexicógrafo atua ainda como contista, publicando Dois Mundos, livro dividido entre contos, retratos e quadros - num esforço de marcar as diferenças com que surgem as reminiscências de sua infância. "No entanto", pondera Moacir Amâncio, "o resultado final apaga essa linha. Como se percebe no decorrer da leitura, memória e ficção se fundem e produzem outra coisa: literatura."

A importância da memória para esses escritos pode ser exemplificada por O Chapéu de Meu Pai, conto considerado pela crítica um de seus mais bem realizados. Desenvolvido em dois planos temporais, o texto tem como ponto de partida um chapéu dependurado no porta-chapéus - que o narrador observa durante o velório de seu pai. Aos poucos, e sem obediência a nenhuma cronologia, vai sendo composto o retrato do homem morto. Utilizando sobretudo o presente do indicativo, e não formas verbais pretéritas, a narração condensa e eterniza os fatos vividos por seu Manoel, suas características psicológicas e breves acontecimentos da cidade em que mora. Assim, embora, como afirma Amâncio, seja "inútil buscar nele originalidade temática, formal", o conto revela, por sua estrutura e construção, o perfeito domínio exercido pelo autor sobre a técnica e a linguagem literárias

Fontes de pesquisa 4

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  • BRAGA, Rubem. Mestre Aurélio entre as Palavras. In: ______. A Traição das Elegantes. Rio de Janeiro: Record, 1989.
  • IVO, Lêdo. Aurélio: uma Galáxia de Palavras. In: ______. A República da Desilusão. Rio de Janeiro: Topbooks, 1994.
  • MACEDO, Gilberto de. Vida e Obra de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira. Recife: Massangana, 1982.
  • RÓNAI, Paulo (org., estudo e notas). Seleta em prosa e verso de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Rio [de Janeiro] : Livraria J. Olympio Editora, 1979.

Como citar

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