Artigo da seção pessoas Carlos Moraes

Carlos Moraes

Artigo da seção pessoas
Dança  
Data de nascimento deCarlos Moraes: 1936 Local de nascimento: (Brasil / Rio Grande do Sul / Caçapava do Sul)

Carlos Moraes (Caçapava do Sul, Rio Grande do Sul, 1936). Professor, mestre de balé, bailarino, diretor artístico e coreógrafo. Inicia seus estudos em dança com Tony Petzhold (1914-2000) em 1957, em Porto Alegre. Estuda com Marina Fedossejeva (1918-1984) pelo método Vaganova, quando, em 1961, segue para o Rio de Janeiro, integrando o Ballet do Theatro Municipal. 

Durante toda a década, tem aulas com as mestras Tatiana Leskova (1922) e Eugenia Feodorova (1923-2007). Tem aulas da técnica do alemão Kurt Joos (1901-1979) com a chilena Malucha Solari (1920-2005) e o norte-americano William Dollar (1907-1986). Aprende a técnica do mexicano José Limón (1908-1972) e da norte-americana Martha Graham (1894-1991) com Gilberto Motta (1933), Jazz com Lennie Dale (1934-1994) e dança afro-brasileira com Mercedes Baptista (1921-2014). É contratado pela TV Excelsior e TV Globo, como coreógrafo.

Como bailarino, participa da reinauguração do Teatro Castro Alves, em Salvador (1967), tendo entre os coreógrafos, o ex-bailarino do New York City Ballet, Arthur Mitchell (1904-1983). 

Bailarino convidado do Ballet Brasileiro da Bahia (BBB), criado sob direção artística de Dalal Achcar (1937), excursiona pelo Brasil com Coisas Brasileiras. Em 1971, é convidado pela coreógrafa para lecionar balé clássico na Escola de Balé do Teatro Castro Alves (Ebateca), em Salvador. Também o faz para o grupo Viva Bahia, da etnomusicóloga, Emília Biancardi (1932). 

Em 1972, coreografa O Guarani, tornando-se diretor do BBB e da Ebateca. Em 1973, sob direção e com música de Emília Biancardi, cria Viva Bahia em seu núcleo parafolclórico.

Na década de 1970, cria outras obras para o BBB, como Visões da Bahia, Bahia de Ontem, Hoje e Sempre, Corte de Oxalá e A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água. Excursiona por todo o Brasil, América Latina e Europa com esses espetáculos.

Em 1975, volta ao Rio de Janeiro e torna-se maître-de-ballet do Theatro Municipal. Vai para São Paulo em 1979, onde permanece até 1986, convidado para o mesmo cargo, no Balé da Cidade. Em 1981, na fundação do Balé Teatro Castro Alves (BTCA), torna-se maître-de-ballet, coreografando alguns balés, como Saurê (1982), um dos mais importantes. Entre 1985 e 1987, assume a direção artística do BTCA. 

De 1971 a 2008, na formação de balé clássico em Salvador, ensina em academias, como Ebateca e Advanced Ballet e remonta balés de repertório. Entre eles: Giselle, O Lago dos Cisnes, A Bela Adormecida e La Fille Mal Gardée.

Em 1998, recebe medalha de Honra ao Mérito por serviços prestados à dança na Bahia.

Entre 2000 e 2005, assume o cargo de coreógrafo da Orquestra Afro-Baiana do Pelourinho, sob direção de Emília Biancardi e, entre 2004 e 2007, assume a direção da Companhia Ilimitada, pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. 

As aulas de Carlos Moraes geram encontros de todos tipos, entre praticantes de balé, danças modernas, danças populares, capoeira, danças afro-brasielras. Alunos homens, mulheres, iniciantes, avançados, negros e brancos, pobres e abastados. Dentre seus alunos Ângela Dantas, Clyde Morgan (1940), Lia Robatto (1940), Lila Martins e Matias Santiado. A convite de Laís Salgado Góes, renomada bailarina e diretora do Departamento de Dança da Universidade Federal da Bahia (1970-1973), leciona no curso de Dança da mesma universidade. 

Análise

Carlos Moraes é um mestre, aberto a todos os estilos de dança: clássica, moderna, regional, afro-brasileira e jazz. Como bailarino e coreógrafo, caracteriza-se pelo estilo que incorpora a experiência popular e o candomblé.  

Nas criações artísticas no BBB e em outras companhias, esse estilo revela-se em diversos aspectos. Na trilha sonora, destacam-se atabaques, berimbaus, pandeiros, cânticos e ritos afro-brasileiros e populares. Nos figurinos e adereços, aspectos primitivistas, vestidos de baianas e roupas referentes às danças populares. Faz um apanhado histórico da colonização portuguesa e da ascendência africana no Brasil.

Os balés de repertório usam danças folclóricas nas coreografias. São as danças demi-caráter ou danças a caráter. Moraes estiliza exemplos do folclore baiano para trabalhar os cruzamentos entre o cotidiano e o religioso, o espetacular e o trivial.

A fonte folclórica estilizada pela dramaturgia do balé é composta por entidades do candomblé, figuras míticas e personagens locais. No primeiro grupo, Ogum, Yemanjá, Oxum; no segundo, o boi do bumba-meu-boi e, no terceiro, as baianas, os capoeiristas, os vendedores de coco e as lavadeiras do Abaeté. A carnavalização das fontes folclóricas pode representar uma luta tribal no maculelê, um balanço jocoso com Oxum, ou uma ginga acrobática com a capoeira.

Os encontros com Dalal Achcar e Emília Biancardi são decisivos em seu percurso artístico. Conhece a primeira no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, quando atua como bailarino, e ela, coreógrafa em balé clássico. Achar indica Moraes para o cargo de professor da Ebateca e de coreógrafo e diretor do BBB. Já Emília Biancardi, etnomusicóloga e criadora parafolclórica, apresenta a Moraes elementos da cultura baiana e estimula demandas coreográficas para seus grupos entre os anos 1970 e 2000.

Na primeira criação, A Morte do Pescador (1971), para a Ebateca, arrisca uma transgressão impensada para a época. Convida para o papel principal um bailarino negro de classe popular, que conhece dando aulas informais de dança para o grupo Olodumaré. O bailarino Flexa faz o papel do pescador, seduzido por uma sereia, interpretada por uma bailarina branca de família abastada, Tânia Duran. O próprio Teatro Castro Alves, onde a obra é encenada, não permitia a entrada de grupos folclóricos.

Nas coreografias de Moraes, a cultura africana coexiste, nos anos 1970, com os primeiros blocos afros, como o Ilê Aiyê, em ato de afirmação da negritude. Além disso, os terreiros de candomblé passam a ser protegidos pela lei federal nº. 6.292, o que faz dos balés de Moraes coparticipantes da visibilidade negra na produção cultural brasileira. Durante a ditadura militar, o trabalho com o Balé Brasileiro da Bahia, torna-se representante da identidade nacional, com apoios financeiros do poder público do estado e da federação e felicitado pelo general e ex-presidente Emílio Garrastazu Médici (1905-1985).

A crítica internacional reconhece consistência, vigor e apuro técnico na brasilidade de Carlos Moraes, que ultrapassa os das já conhecidas escolas de samba. Ainda que tenha passado por diferentes cidades, Salvador destaca-se na história e divulgação de seu trabalho. Essa importância é reconhecida em termos afetivos e oficiais, quando recebe a medalha de Honra ao Mérito (1998), pelos serviços prestados à dança na Bahia.

Outras informações de Carlos Moraes:

  • Habilidades
    • maître de ballet
    • professor de dança
    • Bailarino
    • diretor artístico
    • Coreógrafo

Fontes de pesquisa (5)

  • GONÇALVES, Sônia. Acervo pessoal: fotos, notícias de jornal e programas de espetáculo.
  • GONÇALVES, Sônia. Sônia Gonçalves. Salvador: [s.n.], 2013. Entrevista concedida a Eduardo Santana.
  • ROBATTO, Lia; MASCARENHAS, Lúcia. Passos da Dança: Bahia. Salvador: Casa de Jorge Amado, 2002
  • SANTANA, Joceval. Régua, compasso e inquietação. In: Figuras da dança: Carlos Moraes. direção Inês Bogéa, Moira Toledo; direção de arte Iracity Cardoso, Inês Bogéa; produção Fundação Padre Anchieta; execução São Paulo Companhia de Dança. São Paulo, SP: Fundação Padre Anchieta, 2010. 1 DVD (30 min.)
  • SOUZA, Florentina S. 2001. O Ilê-Aiyê e o discurso de construção identitária na Bahia. In: OLIVIERI-GODET, Rita; SOUZA, Lícia Soares de (Orgs.). Identidades e representações na cultura brasileira. João Pessoa: Idéia, 2001. p. 199-210.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CARLOS Moraes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa337597/carlos-moraes>. Acesso em: 29 de Fev. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7